Mariana

Por Priscila Lopes.

Foi assim: eu estava distraído, talvez até com a expressão abobada de quem caminha pensando em algo à parte e estranhamente gesticula, franze a testa, morde os lábios. Eu andava distraído rumo à locadora quando também distraidamente meus olhos pousaram numa criança, bem criança, que vinha no sentido contrário. Foi como ajustar o foco de uma câmera fotográfica; não fotográfica, porque a imagem estava em movimento, mas então de uma filmadora. Eu olhando a criança-bem-criança, pensando numa coisa sem importância que se pensa enquanto se está a caminho – ou em várias coisas já que é difícil supor que, distraidamente, se pudesse pensar numa coisa só – quando, olhando pra criança, meu foco se ajustou ao contexto que a cercava e vi que a trazia pelas mãos uma moça; uma mocinha assim sem idade nem rosto – àquela distância só podia notar que usava óculos escuros. Ao nos aproximarmos deu-se em mim um relâmpago, daqueles que você vê acender tudo e fica esperando o barulho agudo e devastador – parece que caiu em alguma parte; você corre até a janela pra ver e reza que ninguém tenha se machucado. Tudo porque eu caminhava distraído até a locadora quando reencontrei minha ex-algumacoisa. Talvez se na época tivéssemos dado um nome ao que éramos, eu não tivesse sido tão surpreendido. Não demos nome, e também não tivemos culpa; não houve tempo. Embora também se formos entrar nos pormenores da “culpa”, ela possa dar algumas linhas sobre ex atitudes minhas que me condenem. Mas mais uma vez não havia tempo. Nós paramos sorrindo um diante do outro, a criança olhando pra cima sem entender. Eu, tentando tomar a atitude masculina de dizer uma relevância sobre o acaso, mostrar que enfim amadureci pra certas coisas. Ela, a fêmea, como sempre esperando. Sorrindo os dois, e uma criança pendente pelas mãos. Iniciei uma frase sem embasamento, qualquer obviedade do tipo “quanto tempo, que surpresa”, enquanto um caminhão manobrava e uma senhora ensacolada pedia passagem. Ela me conhecia ainda, fez questão de suplantar meus ensaios, e deu inicio a uma conversa natural – o mais natural que pôde ser naquela situação de passagem – e eu, como que sentado diante da Marília Gabriela, buscava maneiras de me contextualizar para ela. Depois vi a criança e senti como se sentem os que não têm filhos, sem saber como me comunicar com ele, mas tendo quê. Um cachorro seria mais simples, como uma bolinha que se pudesse jogar nessas horas para ele buscar lá longe. O menino quis saber quem eu era. Eu olhei para ela também indagativo, afinal quem sou? Ela respondeu “um amigo da mamãe” e bastou. Um amigo da mamãe que nunca os visitou, um amigo desaforado, claro. Provavelmente não um bom amigo. Senão não estremeceria aquele ponto, nem teria lhe afagado a cabeça como se fosse um cão. E ela fez outras perguntas para se situar sobre mim, mas para nenhuma delas eu estava preparado; sou do tipo que ensaia até as banalidades do dia-a-dia, como o que direi ao médico, ao mecânico, à diarista que ficou de vir segunda e não veio. Num desses questionamentos eu disse não-sei-o-que da Mariana. E ela, finalmente vitoriosa, como se desde a primeira pergunta buscasse aquela resposta, armou-me uma: “Ah, é Mariana o nome dela? Estão juntos ainda?”. Eu: “é, moramos juntos, não sei, há uns três anos”. Ela suspirou um “que bom”, ficava feliz por ver que eu havia perdido meu medo de comprometimento, e que afinal é gostoso dividir sua liberdade com alguém, e no fundo ela sempre soube que era só questão de eu encontrar a pessoa certa; doeu, era injusto com ela mesma dizer aquilo; quis muito defendê-la de si, já que por algum tempo, talvez até hoje, eu tenha acreditado que fosse ela a pessoa certa pra mim – mesmo não sendo, mesmo tendo permanecido as coisas no seu estado inerte, e ainda que eu não tivesse telefonado, ou “corrido atrás” como as mulheres, não todas, gostam que um homem que é homem, não todos, façam; ainda assim, eu quis dizer pra ela: eu a tinha como um assunto pendente; apesar do filho, do marido, da minha esposa, e de outros pesares. Mas não disse nada, e o ar foi ficando difícil de respirar pra nós dois, pois parecia que havíamos entrado em um elevador minúsculo em que só cabia a gente, mas não havia nenhum comunicado para disfarçar que se estivesse lendo. Eu disse “então tá”, e ela “tá bom então”. Não, foi o contrário, já que eu estava mudo depois daquela suposição de ter encontrado outra pessoa certa para mim que não era ela. E daí olhei para o moleque, e se alguma vez na minha vida eu disse “papai” foi aquela: tchau, tchau… manda um abraço pro papai! Aliás, “tchau tchau” também foi algo sem precedentes. E nisso nos atravessamos e continuamos. Essa hora foi mesmo muito rápida, eu senti até que devia buscá-la pelo braço e dizer algumas tragédias, mas não fiz. Por causa da criança, sim, e também porque nunca havia feito isso quando pude, então por que roubar-lhe agora o direito à segurança das coisas que eu não havia dito quando ela queria ouvir? Melhor assim. Que ela pensasse que foi tudo breve e leve. E que eu havia encontrado uma pessoa certa pra mim. E que ela, então, também tivesse feito a escolha certa. E certos estamos de que algumas coisas são incertas e ponto. Entrei na locadora e, não, nem entrei. Fiz uns círculos por ali mesmo, voltei para casa, abracei Mariana e fizemos amor demoradamente.
Imagem: “Hombre y niño”, del artista dominicano  Jaime Colson (1932)

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