Marcia Tiburi: Carta aberta a Michel Temer

Revista Cult.

Me pergunto ao iniciar essa carta, como endereçar qualquer palavra a você sem inevitavelmente ofendê-lo (e aos seus pares); como dirigir-me a alguém cuja legitimidade como presidente da República não posso reconhecer. Termos como golpista, usurpador, traidor propagam-se por aí, mas eu não gostaria de usá-los, pois não quero parecer rude. Por isso mesmo evitarei o uso da expressão vampiro sócio-político. Se lembrarmos de sua carta a Dilma Rousseff podemos confiar no seu entendimento sobre o formato que uso nesse momento.

No entanto, é impossível falar sem um profundo pesar a quem não foi desejado pela maioria dos eleitores, enquanto, ao mesmo tempo, por mil artimanhas do poder, por toda sorte de astúcias jurídicas e políticas, ocupa seu lugar e deveria, por um regra de etiqueta, ser chamado de Excelentíssimo.

Nesse momento, todas as camadas da cultura que me levam a sentir empatia estão acionadas, mas não posso ser insincera. Não posso chamá-lo de excelentíssimo, muito menos de presidente, porque seria aceitar alguma legitimidade em sua atual condição política. E aqui eu prefiro sinceramente colocar em jogo não as excelências possíveis, mas a simples dignidade.

Ainda vale escrever uma carta para falar da dignidade, a meu ver é fundamental lembrar dela em tempos torpes como o nosso.

Suspeito de sua vaidade, de sua falta de autocrítica, pois sua história em relação às urnas é a de um homem que talvez precise ocultar justamente aquilo que provoca o maior rancor político: a invotabilidade. A presidência da República não faria parte de seu destino senão por meio do golpe no qual veio a ser favorecido já que, em nome do tal presidencialismo de coalizão, estava na carona de uma mulher que ocupava pela segunda vez o cargo máximo do país.

Sinto uma profunda vergonha em lhe enviar esta carta, mas me sinto ainda mais comprometida com a profissão que escolhi, a de professora de Filosofia. E professores de Filosofia em um momento como esse não podem calar. Exerço a docência na mesma época em que uma medida provisória desnecessária e sem urgência desobrigou o ensino de Filosofia, Sociologia, Artes e Educação Física. Sou professora da disciplina de Introdução, ensino e estágio de Filosofia, que hoje está sob a mira autoritária de um projeto que quer dificultar a reflexão dos brasileiros.

É envolta na meditação sobre tantos outros atos contra a educação nacional, que em tudo parecem puro terrorismo de Estado, que eu não consigo imaginar que um dia você tenha sido professor, embora haja quem afirme que lecionou a disciplina de direito constitucional (direito constitucional, que ironia!).

Nada na vida me orgulha, senão esse lugar de professora. Penso em nosso país no qual o povo é humilhado por falta de acesso à educação, exposto a horas de televisão embrutecedora e imbecilizante. Penso no desprezo pela educação, um desprezo que faz parte da máquina autoritária do neoliberalismo e da colonização externa e interna que sua pessoa ajuda a manter em ação. Quando olho para todas as medidas de aniquilação contra a educação na época de seu governo, imagino que o ódio contra cidadãos brasileiros, sobretudo crianças e jovens, bem como adultos que precisam de alfabetização, tenha se tornado uma espécie de razão de Estado. Não é possível não mencionar o heroísmo daqueles que ocupam hoje centenas de escolas em uma luta generosa pela democracia, cuja aniquilação parece estar sendo desejada pelos donos do poder. E tudo o que digo sobre a educação, infelizmente serve também para a cultura, a saúde, os direitos dos trabalhadores.

Nessas horas é impossível não lembrar de um de seus filhos, aquele que bem pequeno aparece algumas vezes publicitariamente nos meios de comunicação, talvez, me desculpe comentar, para amenizar sua própria má presença. Espero que ele não venha a sentir vergonha do pai. Mas talvez a vergonha não seja uma questão para sua pessoa. Há pessoas que se acostumam à infâmia, pois já não vivem segundo o paradigma do reconhecimento.

Nesse momento, é provável que a maioria dos brasileiros sinta vergonha alheia quando de sua aparição pública que surge mal preparada para representar o povo e o Brasil. Até aqueles que investiram com ódio contra a presidenta democraticamente eleita não te desejam (não se engane com os olhares apaixonados de parcela da mídia que pensa o que os cifrões determinam, Michel Temer).

Neste cenário, eu me preocupo com o Brasil contemporâneo e o Brasil futuro como qualquer cidadão. E é profundamente ansiosa por um projeto de país no qual a educação para o pensamento autônomo, que tenha como base o diálogo com todas as raças, gêneros e classes, que lhe dirijo um pedido. Gostaria de contar com sua atenção para além da habitual atitude de descaso e de destruição que tem sustentado tantas pessoas no poder. Um fiapo de dignidade já basta para atender a um apelo da consciência coletiva que, nesse momento, se desespera.

Não é preciso lançar mão do brilho de nenhuma verdadeira inteligência para atender ao meu pedido, pois ele é bem modesto. Do mesmo modo, nenhuma grande fé é necessária para lembrar da dignidade perdida, algo que, mesmo que seja apenas antes da morte, vale a pena tentar recuperar.

Lembro, a propósito, de um estadista corajoso como foi Getúlio Vargas e sua medida extrema, o suicídio. Sabemos que a covardia é compartilhada em nossa época, ela é um registro consensual do pensamento e do comportamento da maioria. Há heróis nacionais desse modelo e devemos todos evitar de nos tornarmos mais um deles. Evidentemente, eu não lhe sugeriria um ato tão trágico como o suicídio, não se brinca com o destino alheio. Meu pedido é bem mais simples, envolve um gesto infinitamente mais modesto que, no entanto, seria capaz de redimir toda a vergonha que sentimos até aqui.

Getu?lio 3Imagem do enterro de Getúlio Vargas, em 1954 (Foto: Reprodução)

O que lhe peço é que renuncie. Renuncie e salve, de algum modo, o que lhe resta de respeito. Muitos de nós, simples cidadãos, ficaríamos perplexos em vez de envergonhados e talvez até lhe déssemos um voto importante, o de confiança por seu misterioso gesto.

Renuncie, por favor, ainda este ano, como forma de evitar o que vem sendo chamado de “golpe dentro do golpe” (mais um no Brasil), que se avizinha conforme demonstram as últimas notícias envolvendo você e seus ministros e ex-ministros, esse grupo que vem se demonstrando inconfiável e que se uniu para exclusivamente colocar em prática um projeto derrotado nas urnas. Renuncie e evite que o novo presidente do país seja escolhido de forma indireta, evite que mais um presidente brasileiro seja escolhido da mesma forma que se escolhiam os ditadores após 1964.

Junto dessa renúncia, a proposta de eleições diretas nesse momento seria um ato democrático fundamental, capaz de redimir a auto-estima aniquilada e a esperança do povo brasileiro. Pergunto se você, Michel Temer, seria capaz desse ato de generosidade?

Com sua renúncia neste momento a imagem de vampiro que se deita em um caixão todas as noites depois de sugar a jugular do Brasil na companhia de seus bizarros comparsas neoliberais, deixaria espaço para a de uma pessoa que entra para a história como alguém que, por algum tempo ocupou um lugar especial e decidiu agir com dignidade.

Dignidade é o que em nós não tem preço, Michel Temer. O seu oposto, no entanto, é não valer nada. A escolha é sempre o que nos resta.

Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles “As Mulheres e a Filosofia” (Ed. Unisinos, 2002), Filosofia Cinza – a melancolia e o corpo nas dobras da escrita (Escritos, 2004); “Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero” (EDUNISC, 2008), “Filosofia em Comum” (Ed. Record, 2008), “Filosofia Brincante” (Record, 2010), “Olho de Vidro” (Record 2011), “Filosofia Pop” (Ed. Bregantini, 2011) e Sociedade Fissurada (Record, 2013). Publicou também romances: Magnólia (2005), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009), Era meu esse Rosto (Record, 2012). É autora ainda dos livros Diálogo/desenho, Diálogo/dança, Diálogo/Fotografia e Diálogo/Cinema (ed. SENAC-SP).

É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da revista Cult.

http://revistacult.uol.com.br/home/2016/11/carta-aberta-a-michel-temer/

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