Manifestantes desafiam toque de recolher e mantêm protestos no Sudão

Insatisfeitos com criação de conselho militar após derrubada de Bashir, sudaneses pedem transição rápida para governo civil; militares negam extradição do presidente deposto, acusado de crimes de guerra pelo TPI.

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picture-alliance/dpa/A. Kheir

Manifestantes sudaneses, indignados após os comandantes do Exército terem assumido o controle do país após a deposição e a detenção do ex-presidente Omar al-Bashir, desafiaram um toque de recolher noturno nesta sexta-feira (12/04) para prosseguir com os protestos em massa que perduram há quatro meses no Sudão.

Após derrubar Bashir na quinta-feira, as Forças Armadas decretaram estado de emergência por três meses e decretaram um toque de recolher a partir das 22h. O ex-presidente sudanês é acusado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade no conflito armado da região de Darfur.

Líderes dos protestos civis rejeitaram o conselho militar de transição formado após a deposição de Bashir e classificaram os membros do alto escalão das Forças Armadas de os “mesmos velhos rostos” do antigo regime, que governou o país com mão de ferro por três décadas.

Os manifestantes exigem um corpo civil para liderar a transição à democracia e pôr um fim aos múltiplos conflitos que levaram o Sudão a níveis piores de pobreza. A maioria das lojas e dos escritórios ficou fechada nesta sexta-feira, que é o dia de oração e descanso no Sudão.

Nesta sexta-feira, o conselho militar prometeu que o Sudão terá um novo governo civil, mas só depois de um período de transição de dois anos. O conselho também anunciou que não pretende entregar Bashir ao TPI, mas que ele será julgado por crimes de guerra no próprio Sudão. O conselho prometeu também não interferir com o governo civil, mas que os ministérios da Defesa e do Interior ficarão sob controle dos militares. Também foi anunciado um cessar-fogo em todo o país.

Apesar dos avisos do novo conselho militar de respeitar o toque de recolher noturno, os soldados posicionados do lado de fora do quartel-general do Exército sudanês, em Cartum, não realizaram nenhuma ação para dispersar os manifestantes. Muitos foram vistos conversando com manifestantes, que explicaram que a batalha era com os comandantes que lideraram o golpe e não com a base militar.

“Não houve diferença entre a noite passada e os dias e as noites anteriores para nós”, disse um manifestante que se identificou como Abu Obeida. “Esta é agora a nossa praça. Ocupamos e não vamos embora até que a vitória seja alcançada. Quebramos o toque de recolher. Continuaremos fazendo isso até que tenhamos um governo de transição civil.”

Ao menos 13 pessoas morreram em protestos realizados em vários pontos do Sudão na quinta-feira, dia em que os militares derrubaram Bashir. O Comitê Central de Médicos, sindicato de oposição a Bashir, denunciou que as pessoas morreram após disparos das forças do regime, sem explicar quem abriu fogo contra os manifestantes.

O sindicato destacou que 35 pessoas morreram desde 6 de abril, quando teve início a ocupação dos arredores do quartel-general em Cartum para pedir o apoio dos militares contra o então presidente do país. No entanto, parte da oposição e dos opositores agora critica a manobra dos comandantes das Forças Armadas.

No anúncio oficial da deposição de Bashir, num pronunciamento transmitido pela televisão, o ministro da Defesa, Awad Mohamed Ahmed Ibn Auf, afirmou que um conselho militar assumirá o poder por dois anos e acrescentou que as fronteiras e o espaço aéreo do país foram fechados até nova ordem. Além disso, ele anunciou também o toque de recolher das 22h às 4h.

Ibn Auf pediu desculpas pela “má administração, corrupção e injustiça” que levaram à crescente desigualdade no Sudão. Ele também pediu desculpas pelo recurso do regime a táticas rígidas para tentar esmagar os protestos, o que levou à “perda de vidas de pessoas”.

Mais tarde, a televisão estatal transmitiu filmagens em que Ibn Auf faz o juramento ao se tornar chefe do conselho militar, ao lado de seu novo vice, o tenente-general Kamal Abdelmarouf, chefe do Estado-Maior do Exército.

“Não alcançamos nada”, disse outro manifestante, que se identificou apenas como Adel, após o anúncio de quinta-feira. “Não vamos parar a nossa revolução. Estamos pedindo que o regime renuncie, não apenas Bashir.”

O governo dos EUA pediu ao conselho militar “que exerça a contenção e permita espaço para a participação civil dentro do governo”. A União Europeia (UE) exortou o Exército sudanês a realizar uma transição rápida para um governo civil.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu uma transição que atenda às aspirações democráticas do povo sudanês e apelou por calma e máxima contenção de todos.

O último primeiro-ministro eleito no Sudão, Sadiq al-Mahdi, líder do partido de oposição Umma e que foi derrubado por Bashir num golpe militar em 1989, deve se dirigir aos partidários depois das orações de sexta-feira numa das mesquitas mais reverenciadas de Omdurman.

Desde o retorno a Cartum do exílio autoimposto, Mahdi aliou seu partido às bases populares que foram a força motriz por trás dos protestos em massa que precederam o golpe desta quinta-feira.

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