Manifestação em Florianópolis critica permissão para tratamento para reversão sexual

Texto e fotos: Marcelo Zapelini, para Desacato.info.

Ontem, 22, em Florianópolis, ativistas e psicólogos realizaram manifestação contrária à liminar que permite a utilização de terapias de reversão sexual em lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgênero (LGBT), concedida pelo juiz federal da 14ª Vara do Distrito Federal Waldemar Cláudio de Carvalho, no início desta semana.   

Membros do Conselho Regional de Psicologia (CRP) acompanharam o ato, com eles estava o psicólogo Ematuir Teles de Sousa, integrante da Comissão de Direitos Humanos do CRP. Ele garantiu à reportagem do Portal Desacato que o conselho não cerceia nem a liberdade de expressão e nem o atendimento de pessoas que sofrem por conta da sua sexualidade.  

“Nós temos um outro olhar para a questão do preconceito e da sexualidade. A gente não vai individualizar a questão: o problema é seu. A gente vai dizer: isso que você sofre é em decorrência de um contexto social, histórico e cultural que não aceita que as pessoas tenham livre expressão sexual”, explicou. 

A psicóloga e ativista Mel Guimarães, que acompanha a população LGBT, concorda com que a sociedade impõe restrições. “Muita gente procura o psicólogo num estado muito fragilizado, muitas vezes pela não aceitação da família e da sociedade e não por não se aceitarem. Se profissionais defensores da cura pegam uma pessoa nessa situação é muito problemático. O índice de suicídio entre a população LGBT é muito alto, porque a violência que vem da sociedade é muito grande”, contextualizou. 

Principalmente, os adolescentes estariam em risco caso a família veja em um psicólogo pró-reversão sexual a esperança de “cura”, na opinião de Bruna Amato, que se declarou sapatão assumida.  

“O adolescente vai ser colocado dentro de um consultório para se tratar com uma pessoa que pensa exatamente como os homofóbicos pensam: que a gente tem que se fechar, mudar, abrir as nossas cabeças, entrar em uma religião e encontrar uma cura”, ponderou.  

As terapias de reversão sexual foram extintas nas últimas décadas do século passado. A psicologia avançou até vencer a concepção da homossexualidade como doença, explicou Ematuir.  

“Eram as famosas terapias de aversão. A psicologia contribuiu para essa prática. Eles faziam tortura, lobotomia numa parte do cérebro que supostamente era responsável pelo desejo sexual. Com o tempo fomos vendo que o efeito que gerava não era de uma reorientação sexual, era de sofrimento psíquico, que muitas vezes levava ao suicídio. Essa prática era considerada científica e deixou de ser”, contou o psicólogo. 

Como não é uma doença, a homossexualidade também não é uma opção. “É inacreditável que num mundo de merda em que a gente vive, pensem que alguém escolha ser homossexual porque quer. Porque acordou um belo dia e falou: hoje quero tomar porrada, hoje eu quero, sofrer um estupro corretivo, hoje eu quero tomar uma lâmpada na cabeça. Ninguém escolhe isso”, frisou Bruna. 

Para enfrentar o preconceito e a homofobia, Mel sugere que o cidadão deixe de lado o senso comum, confie nos profissionais que atuam na área, “tente quebrar a polarização que temos na sociedade e se sensibilize para o sofrimento das pessoas”.  

Manipulação 

Os manifestantes realizaram uma performance: Pessoas que passavam foram convidadas a jogar água nos LGBT, que formaram uma fila como em um pelotão de fuzilamento, caso concordassem que eles precisam ser curados.  

O último a participar aceitou o desafio. Um servente de pedreiro identificado como José jogou água em uma lésbica quando foi incentivado pelo ator. “Joguei a água, mas não sei se cura”, disse no microfone. Depois de ser vaiado, ele explicou que não entendeu o que estava acontecendo.  

Como na vida real, um discurso induziu ao erro. “A culpa foi sua. Você que manipulou ele”, disse uma manifestante ao ator.  

Na verdade, José não vê problema na diversidade afetiva e sexual. “Cada um é cada um. Não tem motivo para perseguir essas pessoas”, disse à reportagem antes de voltar a caminhar para o terminal de ônibus.  

 

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Mulher pede que José explique porque jogou a água para “curá-la”.

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