Manchete machista

Cronopiando por Koldo Campos Sagaseta.

(Português/Español).

Quando se ignora um problema costuma-se se ter dois: Aquele que não foi resolvido, simplesmente, porque se desconhece a sua existência, e essa paixão sem jeito pela ignorância que, seja de mãos dadas com a arrogância ou do costume, nem sequer permite supor um problema.

A mídia dominicana tem feito avanços em relação ao jeito em que tratam a violência machista, alguns mais do que outros, mas junto com este reconhecimento que, dados os antecedentes, também não é como para se empolgar, cabe a exigência de demandar muito mais cuidado, sensibilidade e consciência na hora de se referir a essa violência. E quem sabe, a não ficar no superficial enunciado da mesma, dando por assumida a violência machista quando, com mais frequência da desejada, suas próprias crônicas e manchetes põem em evidência seus preconceitos, a sua ignorância e o muito que pesa o costume.

Hoje, 30 de janeiro, o jornal El Nacional de Santo Domingo intitulava em sua primeira página: “Homem se queima junto a namorada negava se reconciliar”. Qualquer um que tenha aprendido espanhol, depois de ler essa manchete, o único que pode deduzir é que um homem se botou fogo ao lado da sua namorada, como uma estúpida forma de expressar-lhe seu doentio amor, e que para deixar constância do dantesco espetáculo que se propunha, teve a precaução de convidar a amada para que ocupasse um camarote e não se perdesse nenhum detalhe de sua infinita incompetência. Qualquer um supõe que a presença da namorada junto ao homem que pretendia se reconciliar com ela pegando fogo, era como testemunha, de uma testemunha sem acusação. Qualquer um entende que estamos falando em um suicídio. E isso é exatamente o que diz a manchete, o suicídio de um pobre alienado em um ritual sadomasoquista convida a sua namorada para presenciar a sua morte.

Mas não se trata de um suicídio, mas de um crime, e a noticia também não é que um homem se botou fogo ao lado de uma mulher, senão que um homem queimou viva a mulher e ele também perdeu a vida.

Já na crônica se desvela o mistério e assim sabemos que o homem apareceu na casa dos pais de quem fora a sua namorada, casa onde residia a mulher, e após borrifá-la com gasolina lhe botou fogo e se abraçou a ela, a uma namorada, à que a manchete lhe segue outorgando esse rasgo, quase parentesco, quando já não existia nenhuma relação entre o assassino e a sua vítima; a uma mulher cuja subordinada existência nem sequer mereceu o protagonismo na manchete de seu próprio assassinato; a uma mulher, simples testemunha, do crime de um homem, de outro feminicídio mais.

Versão em português: Tali Feld Gleiser.

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Titular machista

Cronopiando por Koldo Campos Sagaseta.

Cuando se ignora un problema suelen tenerse dos: Aquel que no se ha resuelto, simplemente, porque se desconoce su existencia, y esa torpe pasión por la ignorancia que, sea de la mano de la arrogancia o de la costumbre, ni siquiera permite suponer un problema.

Los medios de comunicación dominicanos han hecho progresos en relación a la manera en que tratan la violencia machista, unos más que otros, pero junto a este reconocimiento que, dados los antecedentes, tampoco es como para entusiasmarse, cabe la exigencia de demandar mucho más cuidado, sensibilidad y conciencia a la hora de referirse a esa violencia. Y acaso, a no quedarse en el superficial enunciado de la misma, dando por asumida la violencia machista cuando, con más frecuencia de la deseada, sus propias crónicas y titulares ponen en evidencia sus prejuicios, su ignorancia y lo mucho que pesa la costumbre.

Hoy, 30 de enero, el periódico El Nacional de Santo Domingo titulaba en su primera página: “Hombre se quema junto a novia negaba reconciliarse”. Cualquiera que haya aprendido castellano, tras leer este titular, lo único que puede deducir es que un hombre se ha prendido fuego al lado de su novia, como una estúpida forma de expresarle su enfermizo amor, y que para dejar constancia del dantesco espectáculo que se proponía, tuvo la precaución de invitar a la amada para que ocupara un palco y no fuera a perderse el menor detalle de su infinita torpeza. Cualquiera supone que la presencia de la novia junto al hombre que pretendía reconciliarse con ella prendiéndose fuego, era a título de testigo, de un testigo sin cargos. Cualquiera entiende que estamos hablando de un suicidio. Y eso es exactamente lo que refiere el titular, el suicidio de un pobre enajenado que en un rito sadomasoquista invita a su novia a presenciar su muerte.

Pero no se trata de un suicidio, sino de un crimen, y tampoco es la noticia que un hombre se ha quemado al lado de una mujer, sino que un hombre ha abrasado viva a una mujer perdiendo, también él, la vida.

Ya en la crónica se desvela el misterio y así sabemos que el hombre se presentó en la casa de los padres de quien fuera su novia, casa en la que residía la mujer, y tras rociarla con gasolina le prendió fuego y se abrazó a ella, a una novia, a la que el titular del periódico sigue confiriendo ese rasgo, casi parentesco, cuando ya no existía ninguna relación entre el asesino y su víctima; a una mujer cuya subordinada existencia ni siquiera mereció el protagonismo en el titular de su propio asesinato; a una mujer, simple testigo, del crimen de un hombre, de otro feminicidio más.

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