Mãe de cineasta Márcia Paraíso sofre violência machista

Mãe de cineasta Márcia Paraíso sofre violência machista

Por Marcia Paraíso.

Sábado, dia 8, recebo pela manhã o telefonema que nunca na vida imaginei receber. Não existe idade para uma mulher ser agredida fisicamente, não existe classe social e não existe lugar e nem hora – todas mulheres são vulneráveis, o tempo todo, em todos os lugares. Minha mãe, 80 anos, foi agredida pelo enteado, um médico, dentro de um quarto do hospital da Unimed, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro. O médico em questão, JOSÉ ANTONIO VERBICARIO CARIM, faz parte da sociedade friburguense, foi dono de um hospital conhecido na cidade, é uma pessoa “de bem” e, consequentemente, de poder. Minha mãe casou-se com o pai do agressor há alguns anos, os dois já idosos e, desde então, o filho não se conformou com a união do casal. Devo dizer que minha mãe, apesar da idade, é uma mulher ativa, vaidosa, gosta de dançar, de beber, de viajar, de discutir política, de discordar, de se divertir. Ou seja, ela não representa um padrão de comportamento que a sociedade determina para uma mulher da idade dela. Sim, ela cresceu, assim como eu, assim como nós, em uma sociedade marcada pelo patriarcado, que coloca o homem no papel de superioridade em relação às mulheres na relação familiar e, consequentemente, nas outras relações sociais. Mas na minha casa não foi assim, o meu exemplo foi ter minha mãe como líder, perdi meu pai jovem, e ela nutriu eu e meu irmão com amor e com exemplos de luta, nos fazendo acreditar em nós mesmos. Seu marido está doente, entre o vai e vem das internações no hospital. A simples presença de minha mãe incomoda ao filho, que quer desqualificá-la todo o tempo, desprezando-a, como se fosse uma incapaz de cuidar do marido. Inicialmente, agrediu minha mãe verbalmente, da forma que esse feitio de macho agride: chamando-a “safada, sem vergonha” e outras coisas mais. Incentivada por mim, ela registrou um boletim de ocorrência na delegacia da mulher – tinha algo que me dizia – um dia ele xinga, no outro ele parte pra violência física. E foi nessa manhã de sábado que chegou a notícia e a foto da cabeça de minha mãe, que foi batida contra a parede repetidas vezes. Aparentemente, o “estrago” não foi tanto e nem aparente. Como médico, ele sabe bem como pegar em um corpo para não deixar marcas e onde bater para abalar internamente e, principalmente, como assustar uma mulher. A enfermeira que acompanhava minha mãe, que JOSÉ ANTONIO CARIM ordenou para que ficasse do lado de fora do quarto, ouviu os gritos de socorro e abriu a porta do quarto a tempo. O marido da minha mãe, na cama do hospital, tentava se levantar e repetia: “não, não faz isso com Elzinha”. E o médico agressor dizia: “não fiz nada, ela ia cair, eu a amparei”. A polícia veio, mas o agressor foi embora, alegando pressão alta. Hoje foi o dia do exame de corpo de delito. Vim correndo de Florianópolis para acompanhar minha mãe, num estado que mistura raiva, indignação e impotência. Não sei o que vai acontecer com esse homem, especialmente por conta do corporativismo médico da classe a que pertence, por estar em uma cidade pequena, onde há uma rede de poder forte e estabelecida que contamina tudo em volta. Mas fico imaginando o que ele já pode ter feito a outras mulheres e, da sua autoridade de médico, com outros por aí. Convivi pouquíssimo com ele, mas foi o suficiente para perceber a forma como tratava as enfermeiras em volta, as pessoas comuns, como falava comigo – sou enteada de seu pai e ele sequer fazia questão de saber como me chamava. Resolvi portanto usar essa rede, numa tentativa de, quem sabe, somar relatos de outras e outros que tenham passado por situações semelhantes envolvendo o médico José Antonio Carim e ainda, tentar criar uma visibilidade, uma rede de proteção para minha mãe, com o apoio de vocês. “Nenhuma a menos, viva nos queremos” #mexeucomumamexeucomtodas

Fonte: Facebook.

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