Maduro enfrenta o desafio de fazer História

Foto: @NicolasMaudro

Por Paulo Moreira Leite.

Principal referência da resistência na  América do Sul depois da queda de Dilma Rousseff e Fernando Lugo através de dois golpes de Estado, a derrota de Cristina Kirchner nas urnas e a neutralização de Equador numa sabotagem  por dentro da própria coalizão de Rafael Correa, na tarde de quinta-feira Nicolás Maduro não parecia nem um pouco desajeitado ao ocupar o centro do palco na praça Caracas, no centro da capital venezuelana, para o comício de encerramento de campanha.

Ainda que o comício tenha sido animado pela presença bem recebida de Diego Maradona no palanque, sem falar numa banda animadíssima que cantava sucessos capazes de rimar “Maduro” com “futuro” e também com “seguro”, muitos presentes carregavam cartazes e faixas escritas à mão, com a caligrafia caseira e os desenhos imperfeitos que traduzem uma situação na qual a arte feita com o suor do próprio rosto não foi substituída pela publicidade profissional.

Numa das laterais do palco, um grupo de homens e mulheres animavam uma versão equivalente ao bumba-meu-boi – a diferença é que os personagens montam cavalos de pano, usando colares e adereços típicos de indígenas norte-americanos. A falta de dois dentes frontais no sorriso de um cidadão fantasiado de cacique comanche confirmava a origem social da turma, que exibe uma alegria de chamar a atenção.

“Vamos Nico, vamos Nico!”, grita a multidão esparramada por sete quarteirões em frente ao palco, a maioria de camisas vermelhas. O grito afetivo de estímulo –  em tom compreensivo, quase paternal – sublinha que todos ali, os milhares de eleitores e o próprio candidato, estão irmanados em sua condição de admiradores acima de tudo leais a Hugo Chávez, o contemporâneo Pai da Pátria da nação venezuelana.  Em posição destacada no palco, encontrava-se Adam Chávez, irmão mais velho do ex-presidente, ex-governador de Estado, que hoje é deputado na Constituinte. Outra personalidade era o popular cantor Cristovam Jimenez, um dos grandes amigos de Hugo Chávez, cuja voz deu a melodia de seu funeral, em 2013.

Caso a campanha de Maduro seja vitoriosa, neste final de semana, o chavismo irá completar 25 consecutivos a frente do poder de Estado, um desempenho raríssimo em qualquer país, em qualquer continente. “Em 19 anos, fizemos 24 eleições”, diz Maduro, no discurso.  “Um recorde mundial”, sublinha, numa afirmação de forte carga irônica, quando se recorda a facilidade irresponsável pela qual a propaganda de adversários internos e externos associa bolivarianismo e autoritarismo e à ditadura. Maduro lembrou as duas derrotas enfrentadas no período –fazendo questão de sublinhar que nem ele nem Hugo Chávez contestaram os resultados.

A eleição deste domingo guarda um elemento essencial de anormalidade. Ocorre no ponto mais grave da guerra econômica orquestrada por Washington, com auxílio disciplinado da União Européia, sem falar em manifestações de parceiros menos relevantes que fazem questão de prestar serviço diplomático, onde se inclui, é claro, o governo de Michel Temer. Com exceção cada vez mais importante de China e Rússia, aliados históricos do chavismo, os grandes PIBs do planeta  estão de braços dados em várias tentativas de derrubar o governo Maduro por qualquer meio, inclusive uma invasão militar, ensaiada, anunciada e arquivada diversas vezes.

Incapazes de atingir o resultado final, essas iniciativas produziram uma catástrofe geral no país, agravando artificialmente a carência de produtos que sempre foram raros e caros, e até daqueles que eram encontrados com relativa facilidade.

Ainda que os dados de desnutrição sejam apresentados de forma inadequada, ignorando que refletem uma realidade que, com todas as mazelas, ainda é menos trágica do que registrado por governos anteriores a chegada de Hugo Chávez a Miraflores, o fato é que a situação continua a agravar-se, em vez de melhorar. Conforme viajantes que estiveram no país há um ano, a vida anda cada vez mais difícil.

Há seis meses, os cidadãos que podem ser, por qualquer critério, classificados como privilegiados – locais e estrangeiros –porque tem dólares no bolso conseguiam levantar recursos no câmbio clandestino para adquirir produtos não só de luxo, mas de primeira necessidade. Hoje em dia, nem isso resolve. A asfixia é tanta que mesmo os cambistas estão sem bolívares para atender a demanda. Só para se ter uma ideia da coisa.

Num hotel de luxo de Caracas, uma dose de uísque de primeira linha era vendida a 8 milhões de bolívares na ultima quarta-feira. Mesmo uma modesta garrafa de 360 ml de cerveja local, a Polar, maior grupo econômico venezuelano, uma máquina acusada pelo governo de várias operações de sabotagem, custa 800 000 bolívares. No mercado local, os dólares são trocados no câmbio negro a 70 000 bolívares. Traduzido em reais, a long neck fica em torno de R$ 100. Uma taça de vinho, R$ 200.

É tão disfuncional que não surpreende que Henri Falcón, um ex-chavista que participa da campanha como principal desafiante de Maduro, tenha feito da dolarização uma das principais bandeiras para conseguir votos.

Expressa nos ataques à moeda nacional, a crise econômica da Venezuela não tem origem nos altos e baixos do mercado, como ocorre em tantos países. É fruto de um bloqueio monumental, de origem política, que manipula o câmbio, corta créditos e persegue empresas e governos que insistem em fazer negócios com o país. Isso quer dizer que a economia vai mal quando os fundamentos do mercado vão mal. E continua mal quando os fundamentos ficam melhores.

Como acontece nas guerras mais cruéis, o adversário mais poderoso utiliza o sacrifício da população do país mais fraco como instrumento para minar o apoio interno ao governo que pretende derrubar de qualquer maneira.

Em anos recentes, os adversários costumavam explicar as dificuldades da economia venezuelana – e as carências de sua população – a partir da queda do preço do barril de petróleo, responsável por 90% das exportações do país, que caiu dos 130 dólares para menos de 30. Era uma forma de alimentar os ataques às políticas de distribuição de renda estabelecidas por Hugo Chávez – mais amplas e profundas do que suas versões brasileiras –, alimentando os lugares-comuns sobre “populismo” como forma de desqualificar todo programa de bem-estar social.

Se havia alguma dúvida sobre o caráter conveniente desta visão, a verdade foi revelada sem retoques confirmada em tempos recentes. O petróleo se recuperou, já bate em U$ 70. Mas a situação da Venezuela, um dos grandes produtores mundiais, piora em vez de melhorar. Há casos exemplares.

  O drama da falta de medicamentos é real e tem sua origem na atuação de dez corporações transnacionais que embolsam 50% das divisas destinadas pelo governo à indústria farmacêutica, em dólares subsidiados. Investigando a destinação de divisas mostra que a queda dramática na oferta de medicamentos, a professora Pasqualina Cúrcio, uma das principais estudiosas do assunto, aponta a contradição básica em seu livro “A mão visível do mercado – a Guerra Econômica na Venezuela”.

“Esperávamos evidenciar uma queda abrupta na destinação de divisas ou, pelo menos, de igual proporção ao nível de escassez,” explica Pasqualina, que deu uma longa entrevista ao 247 em dezembro de 2017. “O observado foi o contrário: tanto a destinação de divisas como os registros de importação aumentaram em 2012, 2013 e 2014”.

A mesma contabilidade estranha envolve empresas que importam produtos de higiene pessoal, como sabonetes, desodorantes, pasta de dentes e até papel higiênico. Com base no relatório anual das quatro grandes empresas do setor — todas estrangeiras — a professora escreve em seu livro que “nenhuma registrou perdas operacionais nem diminuição de suas vendas em Venezuela durante os últimos anos, incluindo 2015”.

“Quando analisamos a quantidade de divisas que o Governo nacional destinou as corporações nacionais, observamos que ela se incrementou”, diz ela.

Não surpreende, assim, que Nicolás Maduro tenha aberto um longo espaço de seu discurso, na quinta-feira, para defender a “luta contra a corrupção, contra as máfias da economia”.

Neste ambiente, a notícia da reta final da campanha foi que o governo Maduro abandonando a postura de denunciar atos de sabotagem econômica para tomar medidas práticas.

No dia 3 de maio, as autoridades da área econômica anunciaram uma intervenção de 90 dias no Banesco, o maior banco privado do país (6 milhões de clientes, 21% do mercado), com a prisão de onze executivos. Ao mesmo tempo, três casas de câmbio virtuais – consideradas um dos focos preferenciais das manipulações de cambio – foram fechadas. Dias antes, dois executivos da Chevron, gigante norte-americana do petróleo, foram presos.

Nem era preciso ouvir demoradas palmas na Praça Caracas para reconhecer que uma intervenção dura contra especuladores era uma exigência cada vez clara de aliados, eleitores e militantes de base em tempos recentes – inconformados com uma demonstração de impotência diante de inimigos declarados da maioria dos venezuelanos.

Quando reafirmou, no comício, a meta de obter dez milhões de votos no domingo, Maduro deixou claro o tamanho da empreitada que pretende cumprir até o dia da eleição. Num país que possui 20 milhões de eleitores, onde o voto não é obrigatório, o objetivo de dez milhões é particularmente ambicioso. Mas a ideia é esta mesmo, numa disputa palmo a palmo, onde cada centímetro preservado tem um valor imenso, quando comparado a alternativa real, que é a recolonização do país, em bases piores do que tudo aquilo que é possível imaginar.

Com todas as dificuldades que se apresentam, é necessário pensar que há uma luz no fim do túnel – daí a importância dos dez milhões de votos pedidos por Maduro. Longe dos desempenhos apertados de outros pleitos, uma vitória maiúscula pode permitir uma mudança maior no jogo político do país.

 Reconstruindo sua base política desde a eleição para uma Assembleia Constituinte, na qual 41% dos eleitores foram as ruas para afirmar sua vontade de encontrar uma saída pelos métodos democráticos, neste domingo Nicolás Maduro e a Venezuela enfrentam o desafio de quem ousa fazer História.

Num esforço de imaginação que deve levar em conta a distância entre acontecimentos e personagens históricos, o cerco que a Venezuela enfrenta hoje pode ser comparado a um bloqueio militar-econômico ataque sofrido pelo país no início do século passado. O enredo desse episódio, que já recordei aqui outras vezes, permite comparações curiosas com o drama de hoje. Na primeira década do século passado, os povos e países viviam uma fase de grandes deslocamentos e mudanças de posição entre as potencias, que permite alguma analogia com o universo de hoje.

Com as economias destruídas por uma das grandes crises da história do capitalismo, os governos da Alemanha, França e Itália, foram a forra nos países da América do Sul que, outrora clientes preferenciais, já então passaram a ser vistos como caloteiros que precisam ser punidos por mau comportamento.

No Brasil de Campos Salles, por exemplo, a República de aristocratas nostálgicos e escravocratas enrustidos concordou em pagar as quantias exigidas, entregando às potências europeias todo centavo que o Estado recolhia nas alfândegas – até então, sua grande fonte de receitas. Na Venezuela, a resposta foi outra. O governo de Cipriano Castro (1858-1924) recusou-se a atender a exigência das potências europeias. O país foi cercado pelas canhoneiras do Velho Mundo e, diante da postura irredutível de Cipriano Castro, os portos foram bloqueados e cidades da costa foram bombardeadas.

Quando tudo parecia encaminhar-se de mal a pior para os venezuelanos, o impasse ajudou a produzir uma mudança na relação de forças entre as potencias internacionais. Convencido de que uma operação bélica de países europeus comprometia suas ambições hegemônicas sobre o continente americano, Theodore Roosevelt entrou em campo, forçando uma solução de compromisso em benefício da Venezuela, que livrou-se das canhoneiras apontadas contra sua costa.

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