Livro discute políticas e desigualdades no Ensino Médio brasileiro

Publicado em: 22/08/2017 às 11:17
Livro discute políticas e desigualdades no Ensino Médio brasileiro

Por Ingrid Matuoka. 

Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária(Cenpec) lançou, no início do mês, o livro Políticas para o Ensino Médio e desigualdades escolares e sociais, realizado com apoio da Fundação Tide Setubal e da Fundação Santillana. O evento ocorreu em São Paulo, com debates sobre os resultados do estudo realizado em 2015 e 2016.

Voltado para gestores escolares e secretarias de Educação, o livro analisa as políticas públicas para o Ensino Médio do Ceará, Pernambuco, Goiás e São Paulo, quatro estados brasileiros que se destacaram na evolução do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) entre 2005 e 2013.

Entre as estratégias adotadas pelos estados, destacam-se a elaboração de currículos com metas claras e o monitoramento e a avaliação dos alunos, possibilitando a organização e orquestração das redes e indicadores.

“Não buscamos a singularidade dessas redes, mas o que as une e pode servir de exemplo para os demais estados”, afirmou Antônio Augusto Batista, coordenador de desenvolvimento de pesquisas do Cenpec.

No entanto, o levantamento também mostra que os modelos de política implementados põem em segundo plano o docente, sua formação e valorização, inibindo o recrutamento daqueles com formação adequada, seja pelo desprestígio da ocupação, seja pelas condições de trabalho.

No entanto, o levantamento também mostra que os modelos de política implementados põem em segundo plano o docente, sua formação e valorização

Outra conclusão alcançada pelo estudo é a percepção de que o “capital escolar” adquirido no Ensino Médio afeta diretamente o acesso a postos de trabalho mais ou menos rentáveis econômica, social e simbolicamente.

Batista também chama a atenção para a estratificação social das matrículas, dependendo da modalidade ou período.

“Os alunos de tempo integral têm maior renda, vivem em área urbana, estão na idade correta para a série e a escolaridade da mãe é superior. Este perfil é o completo oposto dos alunos do período noturno, por exemplo”, disse.

As desigualdades na oferta ocorrem em relação ao turno (diurno ou noturno), ao período (parcial ou integral), ao tipo (propedêutico ou profissional) e à modalidade (regular ou Educação de Jovens e Adultos – EJA).

Neste sentido, o livro aponta para a necessidade de criar condições para uma escola que se organize em torno do princípio da equidade, oferecendo mais àqueles que, em razão de sua posição social de origem, possuem menos.

Reforma do Ensino Médio

No entanto, face à recente reforma do Ensino Médio brasileiro, o que deverá ocorrer é o aprofundamento das desigualdades sociais e educacionais já existentes no País, prejudicando ainda mais o jovem de menor nível socioeconômico, baixo desempenho acadêmico, pouco capital cultural, com defasagem idade série e/ou ainda aquele que precisa trabalhar ou tem a perspectiva de ingressar no mercado antes de finalizar a Educação Básica.

Ainda sobre o Novo Ensino Médio, outro ponto criticado foi a ausência de escuta e diálogo com os próprios jovens, que deveriam ter seus anseios protagonizando o debate. Para Hélida Lança, diretora da Escola Estadual Oswaldo Catalano, de São Paulo, apesar do empenho dos alunos em se fazerem ouvidos, por meio de ocupações e grupos de debate, a comunidade escolar não é convidada a participar das decisões que direcionam as políticas públicas.

“Quando chega uma política na escola, ela não chega como proposta, mas imposta”, disse a educadora, complementando que também o professor, que vive aquela realidade cotidianamente, raramente é consultado.

Cecília Resende, superintendente de Juventude, Ensino Médio e Educação Profissional da Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais, também criticou a maneira autoritária como a reforma foi conduzida: “é consenso que o Ensino Médio não atende às juventudes, aos docentes, e que o material didático não conversa com os jovens, mas uma reforma política que não passa pelo diálogo não vai trazer a transformação que precisamos”, concluiu.

Fonte: Educação Integral. 

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