Liberdade: comum-única-ação entre os povos insurgentes de Abya Yala

Por Leo Nogueira Paqonawta*

http://www.emindio.blogspot.com.br

“Eu sou da América do Sul,

Eu sei, vocês não vão saber,

Mas agora sou cowboy,

Sou do ouro, eu sou vocês
Sou do mundo, sou Minas Gerais”

Fernando Brant, Márcio e Lô Borges

A “Cumbre Continental de Comunicação Indígena de Abya Yala” (2010) declarou que 2012 é o “Año Internacional de la Comunicación Indígena” e, desde então os povos indígenas estão promovendo intensos debates pelo mundo e, em especial em Abya Yala[1] (Amérikas), resgatando o sabedoria ancestral no fazer proposições justíssimas pelo Bem Viver. É o caminho contrário dessa estrada desumanizante engendrada pelo capitalismo e sua tropa de elite a destruir a tudo e a todos.

Os povos andinos, e os que habitam ao longo da coluna vertebral das Amérikas, seguem numa luta acirrada contra a opressão e os oligopólios, reivindicando as terras para o usufruto dos descendentes daqueles povos originários, e para uma sociedade de justiça entre todos. Suas organizações indígenas unem os povos para criar suas universidades interculturais que, sem desprezar um conhecimento verdadeiramente legítimo do “mundo ocidental” desenvolvido por homens e mulheres de boa vontade ao longo dos séculos, trazem à luz uma sabedoria edificada por milênios no respeito à natureza e às relações do ser humano com o Cosmos. Eles vivem, lutam e morrem por esses ideais desde há séculos.

Isso tudo no Brasil é tão desconhecido quanto se sabe tudo na vassalagem aos “darlings” americanos e europeus nas ciências sociais. O nível de colonização do pensamento aqui é tal que, os nativos tupiniquins brasileiros são todos cor de rosa e vivem naquele mundo da “Barbie”, rezam pela cartilha do consumismo fácil e até incentivado pelo governos, desprezam tudo a que possa cheirar ao “cecê” das classes subalternas que usavam o elevador de serviço e, agora pagam religiosamente os carnês da Casa Bahia, as prestações do carro O km e do imóvel comprado nos feirões da Caixa, a conta do “smartphone” plugado na Internet e suas delícias. Tudo seria sempre lindo nesse país tropical, não fossem os irritantes “blogueiros sujos” e educadores/comunicadores de esquerda, por exemplo, a sacudir as redes sociais ampliando as denúncias de corrupção, peculato e porcariada do “PIG”[2].

Nos meios de comunicação são os colonistas que des-informam de tudo para manter o povo longe de qualquer possibilidade de contato com esses conhecimentos, e o professorado dos altos escalões determina as políticas educacionais a completar a tragédia. A economia manda, a política obedece, as escolas e universidades se empenham no controle e estupidificação dos “recursos humanos” sendo preparados cegamente para o “mercado de trabalho”. E, finalmente, as mídias concentradas nas mãos de poucas famílias das elites entopem as telas de TV, tablets, computadores, outdoors e o que seja com entretenimento, fofoquinha de novela, programas de auditório para macacas amestradas e outros tantos com as tais periguetes e bombadões desnudos. Nem as crianças escapam da manipulação desse polvo midiático, vez que têm sua vez de serem “vidiotizadas” exatamente pelos idiotas de plantão disseminando o pensamento eurocêntrico e consumista nos programas infantis.

Os campos educacional e comunicacional se completam nessa tarefa de “vidiotizar”, de “globobocalizar” e alienar os cidadãos de seus direitos, inclusive e pior ainda, de colocar sombras e escuridões ocultando o mínimo esperado de uma educação e comunicação de qualidade. Não seria por outra razão que, na educação, absolutamente todo o trabalho do professor é determinado por mil leis e detalhes do saber/fazer pedagógico, que controla desde cima até em baixo tudo numa estrutura panótica assustadoramente opressiva, que tolhe a autonomia do docente e lhe cassa a dignidade profissional. A palavra é colonizada, sim, e os verbos a reger a ação do professor são: eles mandam, nós obedecemos.

Já com o setor, e os meios de comunicação, tudo é completamente desregulado. Não há tratado ou convenção internacional que garanta os direitos humanos e, tampouco a Constituição Federal é respeitada nos mixurucas cinco artigos que tratam da matéria.

Obviamente que isso é intencional da parte daqueles que herdaram, por mil meios e falcatruas, o controle dos meios de produção do saber/fazer, da primazia na determinação das políticas de educação e comunicação nesses 500 anos de dominação e (de)formação desse gigante adormecido chamado Brasil. Vai aí o catecismo liberal ditando as regras do mercado, reinventando-se desde o Brasil colonial, imperial e republicano.

“Ordem por base e progresso por finalidade”, e “Libertas quase será tamen”[3] vai o bezerrinho de ouro sendo mamado pelos poderosos e alimentado pela turba que frequenta escola, assiste TV e consome conteúdos “da hora” na curtição disso e daquilo na rede social da moda. Foi sob a proteção de Deus que também promulgaram a Constituição “dos Estados Unidos do Brasil”, essa que defendeu como ministro anos à fio aquele colonizadíssimo privatista tucano da história da bolinha de durex, factoide  que as mídias mostraram exaustivamente como objeto mais pesado que o ar, e contundente. Quantos quiseram que esse objeto voador não identificado fosse verdadeiramente um tijolo…

Liberdade no Brasil, e vale para as Amérikas, disse a poetisa Cecília Meireles, “essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”[4], nos tempos de hoje é a luta não só dos sinceros Inconfidentes ou Libertadores contemporâneos, mas também de milhares e milhões de homens, mulheres e crianças do grande gontinente Abya Yala que já vão sentindo a indignação subir até o pescoço ante ao completo desprezo pelos cidadãos demonstrado pelos poderes empodrecidos, esses constituídos ao longo de séculos de exploração da boa fé da população sacrificada.

O sangue de outros milhões de assassinados por tiranos e empresas multinacionais moderníssimas que exaurem os recursos da Mãe Terra, e escravizam os trabalhadores e povos, clama por uma re-vira-volta sem precedentes na história do mundo. Subindo pelos Andes, indo até as beiradas de gelo no círculo polar Ártico, perpassa uma energia jamais vista que sobe da terra e chega às mãos, aos corações e às mentes libertadas da velha nova escravidão que se unem num grito de “basta!” de todos aqueles em “comum-única-ação” pelo Bem Viver.

Na educação e na comunicação essa luta dos indígenas também é travada por eles nos tribunais, nas cortes de justiça, nas casas legislativas, quando poucos são aqueles que no poder executivo se atreveram a tomar para si essa tarefa de expressar a vontade vinda de seu povo. Desde as escolas e universidades interculturais ou indígenas um movimento intenso reúne os que se reconhecem cosmocidadãos em torno do conhecimento e da sabedoria ancestral, a se expressar num poder e amor profundamente implicados na prática escolar, e na mídia alternativa, que impressionam pela beleza e lógica irrefutáveis.

Mas, são nas “cumbres” e diversos encontros regionais, em uníssono, que essas batalhas são visivelmente mais belas, autênticas e fortes, sem a presença e o ranço dos políticos colonialistas que se eternizaram no poder quase que indefinidamente.

Vejamos, por exemplo, recentes documentos e textos que traduzem essa sentida, pensada e vivida “Luz” da Sabedoria que muitos de nós almejamos ter em nossos mais profundos sonhos – a relação entre o micro e o macro cosmo que os povos indígenas “rexistiram”, resistiram para existir no Bem Viver com o custo de suas vidas – e que, timidamente, a Ciência vem comprovando pelas leis da Física Quântica. Do mundo sub-atômico aos cordões formados por galáxias tudo pulsa e vibra “Luz” e, no “Reino Humano”, esses fótons se dão a “casar” com os filamentos de DNA impregnando todo o ser resplendentemente.    Algo que os povos ancestrais bem sabiam: nós somos Luz re-verberando nessas ondas cósmicas, celestes, estrelares, ecos indo e vindo da grande explosão do Fiat Lux.

São exemplos os textos “Ejercer la palabra y la acción es el camino para Defender la Madre Tierra”, do III Congresso da CAOI (Coordinadora Andina de las Organizaciones Indígenas) realizado de 15 a 17 de julho em Bogotá/Colômbia; a “Declaração de Kari-Oca” a partir da Rio+20; a “Declaración de la Conferencia Internacional de Pueblos Indígenas sobre Desarrollo Sostenible y Libre Determinación”; as “Declaraciones del Foro Permanente para las Cuestiones Indigenas de la ONU” no 11º. Período de Sessões; a “Declaración de la IV Cumbre de Líderes Indígenas de las Américas . “Tejiendo Alianzas por la Defensa de la Madre Tierra”, em Cartagena de Indias/Colômbia, ambas de 2012, e essa impressionante de alguns anos atrás, a proposta dos “Derechos Cósmicos de los Pueblos Indígenas”, dentre tantos outras cartas não menos importantes.

Os povos indígenas das Amérikas têm levado muito à sério, muito mesmo, as questões da autodeterminação dos povos, da educação e da comunicação, da sua participação  nos meios onde se decidem as políticas educacionais e comunicacionais. E, no Brasil ressalta-se a ação apaixonada de Marcos Terena, incansável na frente e no compromisso “pelo futuro que queremos“ para o Bem Viver. São muitos os compatriotas que lutam como ele nessa guerra travada com as mídias tradicionais e hegemônicas, seja coletivamente pela Frentecom, FNDC, Intervozes e o Centro de Estudos Barão de Itararé dentre outros comunicadores e educadores.

“Eu sei, vocês não vão saber”[5]… Grande parte da sociedade brasileira desconhece tudo isso, mesmo porque o projeto civilizatório aqui na Terra Brasilis delineou-se de modo a excluir o povo de maneira exemplar, tanto pela escola como pelas mídias, do que fosse o mínimo de consciência cidadã. Os que ousaram atravessar os caminhos dos poderes estabelecidos pagaram tal afronta com a tortura, o desaparecimento e com a própria vida, muitas vezes sem deixar rastros.

Uns dizem que o Brasil não é América Latina, que deu às costas para a latino-americanidade, talvez porque o país tenha sido tão fortemente mantido como quintal de metrópoles diferentes no decorrer do tempo que, por isso, a identificação com os patrões do Velho e do Novo Mundo seja algo a ser estudado como o que se verifica na Síndrome de Estocolmo: a vítima e o vitimizador do sequestro da dignidade interagem emocional e psicologicamente, têm afeto e apreço um pelo outro. Que seja também uma relação de comensalismo onde um tira vantagem do outro, vampirismo recíproco.

O certo é que, numa similaridade com o “Efeito Borboleta”, a “Síndrome de Liberdade” é aquela que se sabe estar acontecendo, quando há um ecoar pelo grande continente “Amerikano”, e pelo mundo inteiro, daquele grito de re-vira-volta que agora toma as consciências, e ocupa as ruas e praças, e incomoda, e corrói as bases desse sistema falido de coisas. Há indignação e paixão, há muita luz sobre as coisas e muito amor no ar, que mesmo os inconscientes de sua humanidade aviltada sentem subir pelos pés e descer pela cabeça.

O ponto de confluência dessa força espetacular sobe das entranhas da Terra até se fazer mais forte no “Umbigo do Mundo” e, explodirá em “comum-única-ação” para o Bem Viver quando os corações já não aguentarem mais represar tanta energia e indignação. Aqueles que passaram pelo “Caminho dos Justos”, onde a Sabedoria Ancestral fez morada e pouso, escola e hospital para tantos cansados das estradas poeirentas e sangrentas do mundo, sabem disso.

Vai que um menininho de touca de lã colorida na cabeça, pastoreando as lhamas nas alturas das montanhas dos altiplanos andinos, parou um instante nas simplicidades e graça de sua vida, levantou seus olhinhos e braços para o céu, feito uma antena viva, e captou cantou uma canção que fizesse dançar as estrelas, o sol, a lua, a luz. Isso é coisa que só se explica pelo Efeito Abya Yala.

Por minúsculo que seja esse pequeno Planeta Azul no concerto das órbitas desse universo infinito, desde os tempos imemoriais os Povos Antigos reverenciam essa “entidade” Gaia, Pachamama, Terra ou Natureza com o respeito devido ao lar que nos recebeu a todos para que tivéssemos a vida em plenitude, na condição de filhos e filhas feitos do pó das estrelas. Algo que o pensamento colonizador – como que re-negando tudo isso – fez questão de ocultar com todas as suas infelizes e arrogantes forças de explorar, saquear e matar.

A rexistência aos meios de educação e comunicação colonizados se deu com muitos, com milhões. Agora é a hora dos que sofreram e foram espoliados de quase tudo, dos que tiveram roubadas suas terras, de restituir à Terra sua força no ouro e prata surrupiados; é a hora dos mansos que mantiveram suas crenças inabaláveis, dos que choraram sangue, dos nunca e dos ex-dominados, dos perseguidos e esquartejados; é a hora dos que lutaram e morreram pela justiça, dos re-vira-voltosos que rejeitam definitivamente esse Velho Novo Mundo carcomido. É a hora e o dia do hastear a bandeira do arco-íris pelos ares, é a hora de uma indescritível, profunda e simples alegria.

Essa data de encontro amoroso está escrita nas estrelas, como se a Cruz no céu desenhasse exatamente o local da fonte de tesouros infinitos de uma Sabedoria guardada numa Caixa de Jóias a ser, enfim, re-des-coberta…

Nada a temer… adeus “lixo ocidental”[6]. Chegou a hora do levante, da libertação das vozes e da palavra ancestral que tem a doçura e a leveza da brisa da sabedoria de um saber/fazer/poder e amar que a tudo transformará. E, não há ninguém, e nada que se oporá à força desse furacão de bater conjunto de asas de Águia e Condor que vem dos Andes para assoprar a Liberdade voando feito um Colibri Dourado pelos quatro cantos do mundo.

Liberdade, canção de comum-única-ação entre os povos insurgentes de Abya Yala e, se todo o universo está em movimento harmônico nesse vai e vem da dança das formas, assim, não tão tardiamente, um Outro Mundo se anuncia…

(*) Pedagogo, mestre em Educação e Comunicação buscando o doutoramento pelo “Emíndio, ou da Educação e Comunicação Indígena em Abya Yala”, projeto de pesquisa iniciado em 2012, re-negado pelos grupos de estudos hegemônicos tradicionais, re-produtivistas do pensamento colonizador.


[1] “Abya Yala, significando “Terra madura”, “Terra Viva” ou “Terra em florescimento” hoje vem sendo usado como uma auto-designação dos povos do continente como contraponto a “América”, expressão associada aos conquistadores europeus que “batizaram” as terras “descobertas” como América”.  O nome Abya Yala provém do povo Kuna originário da Serra Nevada no norte da Colômbia e que habitou a região do Golfo de Urabá assim como as montanhas de Darien  e vive atualmente na costa caribenha do Panamá na Comarca de Kuna Yala (San Blas). Muito embora os diferentes povos que habitam o continente atribuíssem nomes próprios às regiões que ocupavam – Tawantinsuyu, Anauhuac, Pindorama – a expressão Abya Yala vem sendo cada vez mais usada pelos povos originários do continente objetivando construir um sentimento de unidade e pertencimento.” Adaptado de Carlos Walter Porto-Gonçalves In “Abya Yala: uma outra visão da América”. Acesso em 12 out 2010, disponível em http://www.grupalfa.com.br/arquivos/Congresso_trabalhosII/palestras/carlosw.pdf

[2] Referência que blogueiros ativistas e progressistas fazem aos donos das mídias e seus veículos de comunicação: Partido da Imprensa Golpista.

[3] Dísticos das bandeiras do Brasil e de Minas Gerais, respectivamente.

[4] Romanceiro da Inconfidência. Coletânea de poemas, 1953, dedicada aos derrotados da Inconfidência Mineira (1789), que depois vieram a ser considerados heróis da independência do Brasil. Dentre ele o Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. A bandeira dos inconfidentes foi sugerida por Alvarenga Peixoto, e aprovada por Cláudio Manoel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, o amado de Marília de Dirceu. O texto do dístico, em latim, foi inspirado na obra “Écloga” de Virgílio (70 a.C./19 a.C.), poeta romano clássico.

[5] Trecho da canção “Para Lennon e McCartney“ de Fernando Brant, Márcio e Lô Borges, do Clube da Esquina de Belo Horizonte, Minas Gerais.

[6] Verso da canção “Para Lennon e McCartney”, anteriormente citado.

 

 

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