Liberação de agrotóxicos pode agravar taxas de suicídio no meio rural

Especialistas alertam que a frequência de exposição a determinados agrotóxicos pode levar a quadros de depressão grave, que têm como ponta a tentativa de suicídio. OMS alerta que 20% dessas mortes são por auto-envenenamento

Foto: EBC

São Paulo – Cerca de 20% dos suicídios globais acontecem por auto-envenenamento com pesticidas, a maioria em zonas rurais de países com baixa e média renda. É o que revela recorte dos dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre os aproximadamente 800 mil casos do tipo cometidos a cada ano no mundo. O Brasil também não escapa desse problema. De acordo com o Atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, lançado em 2018 pela geógrafa Larissa Mies Bombardi, depois da extensa exposição aos agrotóxicos ocorrem também casos de mortes e suicídios comprovadamente associados ao contato ou à ingestão dessas substâncias. Só entre 2007 e 2014, o Ministério da Saúde registrou  cerca de 25 mil ocorrências de intoxicação por agrotóxicos.

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Em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual, a autora da pesquisa e professora da Universidade de São Paulo (USP) destaca que a ingestão de agrotóxicos em tentativas de suicídio prevalecem na maior parte dos estados, chegando a ser em estados do Nordeste, como Ceará e Pernambuco, quase 70% do total .

“O que é muito grave disso é que a gente tem uma população exposta a substâncias que podem  também levar a um tipo de exposição crônica, ou seja,  a frequência de exposição a determinados agrotóxicos, sobretudo aqueles que a gente chama de organofosforados, ele leva a quadros de depressão grave e que têm como ponta dessa exposição a tentativa de suicídio”, afirma Larissa.

A geógrafa também alerta que muitos casos ainda não entram para as estatísticas. “Para cada caso notificado, a gente tem outros 50 que não chegaram ao conhecimento do Ministério da Saúde e, uma parte desses casos, mais de nove mil deles, são por tentativa de suicídio”, explica.

Reportagem de Juliana Almeida, da Rádio Brasil Atual, indica ainda que entre as regiões mais afetadas, o Atlas mapeia em primeiro lugar o Paraná, com mais de três mil casos de intoxicação. São Paulo e Minas Gerais também figuram no topo, com dois mil registros. Para o engenheiro agrônomo e presidente da regional sul da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), Leonardo Magarejo, a tendência é que o número de casos sejam cada vez maiores no meio rural. “Cresce as taxas de suicídios no meio rural, principalmente naquelas áreas onde abunda a disponibilidade de agrotóxicos”, afirma Magarejo.

Mas, apesar dos problemas desencadeados na saúde pública, o governo de Jair Bolsonaro segue incentivando a utilização de agrotóxicos nas lavouras brasileiras. Desde o início da gestão, mais de 290 produtos tiveram registros liberados.

Ouça a entrevista na íntegra

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