Lagoa da Conceição: Um cartão postal manchado da Ilha de Santa Catarina

Por Dra. Alessandra Larissa Fonseca, para Desacato.info.*

Quem hoje passeia pelas margens da Lagoa da Conceição vê manchas brancas de algas e sente o mau cheiro, características de um ambiente poluído. Essa poluição é o resultado da entrada de nutrientes e matéria orgânica vindos dos esgotos locais. Os nutrientes alimentam as algas oportunistas, que crescem abundantemente a ponto de alterar a cor da água. Ao cobrirem a superfície da água, essas algas diminuem a entrada de luz que chegaria em maiores profundidades, prejudicando a fotossíntese e a base da cadeia alimentar. As algas têm um ciclo de vida rápido, em poucos dias elas nascem, morrem e são decompostas por micro-organismos. Durante a decomposição das algas, a respiração é elevada e o oxigênio da água reduz tanto que pode matar por sufocamento os organismos mais sensíveis, como as larvas de peixes, o berbigão, o camarão e o siri. Com a falta de oxigênio apenas algumas bactérias e fungos que produzem gases tóxicos e de mau cheiro conseguem viver. É essa a origem do odor da Lagoa da Conceição.

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Estudos desenvolvidos pela UFSC vêm apontando as modificações da qualidade da água na Lagoa da Conceição há algumas décadas. Nos anos 80, a construção do mole para a abertura permanente da Barra da Lagoa aumentou a entrada da água do mar e, consequentemente, a quantidade de sal no sistema. Nos 2000, os estudos indicavam que a poluição era sazonal e que a Lagoa se autopurificava ao longo do ano. Desde 2007, as águas da Lagoa da Conceição estão mais suscetíveis à poluição por nutrientes1. O aumento da população local, hoje com mais de 38 mil habitantes, e a falta de um sistema eficiente de disposição e tratamento dos esgotos é o que promove este cenário2. Os rios que drenam para a Lagoa estão contaminados por esgotos, tanto em área urbanizada com sistema de coleta, transporte e tratamento de esgoto em estações da CASAN, como em áreas onde as casas têm apenas o sistema de fossa simples. Poucos são os rios com boa qualidade de água e estes estão fora das áreas urbanizadas (como alguns rios da Costa da Lagoa). A entrada de esgoto também contamina a água por resíduos de medicamentos, como hormônios e antidepressivos que são excretados pela urina e fezes, e por patógenos, o rotavírus e o vírus da hepatite já foram encontrados nas águas naturais de Florianópolis3. Sem dar sinais visíveis, esses tipos de contaminantes afetam a saúde do ecossistema, incluindo a saúde humana.

A Lagoa da Conceição, um dos belos cartões postais de Florianópolis, está manchada pela falta de uma gestão urbana eficiente na sua bacia hidrográfica. Além dela, diversos outros cartões postais do Brasil e do mundo também estão manchados pela poluição de suas águas. A contaminação por nutrientes originada pela atividade humana é um problema generalizado e atinge diversos ecossistemas costeiros ao redor do planeta. Diante desse cenário, a ONU estabeleceu que a redução desse tipo de poluição deve ser uma meta urgente (Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável – ODS14) para promover uma sociedade mais sustentável. Para tanto, ações eficientes de gestão devem ser colocadas em prática, tendo como princípio a promoção da justiça ambiental e social. Essas ações devem ser ecologicamente sustentáveis, socialmente desejáveis e economicamente viáveis, além de promover uma eficiente comunicação (e de base científica) para que a sociedade possa participar ativamente das decisões4. Somado a isso, deve-se levar em consideração que estamos em processo de mudança climática e há previsão de aumento do nível do mar que afetará as cidades costeiras. Todos esses fatores aumentam a complexidade e a urgência em revertermos o quadro de degradação ambiental em que chegamos. A gestão em relação ao saneamento, além de implementar tecnologias eficientes e viáveis para controlar a poluição por esgoto, deve promover a preservação dos banhados e das matas ciliares, os quais são biofiltros naturais e reduzem a entrada dos nutrientes e outros contaminantes nos ecossistemas aquáticos. O poder público e a população são (co)responsáveis em garantir um futuro para nossa civilização, somos todos agentes dessa transformação e precisamos nos mobilizar imediatamente. A paisagem está mudando rapidamente e ela vai muito além de um belo cartão postal.

1. http://dx.doi.org/10.1590/2318-0331.011716027

2. https://doi.org/10.1016/j.rsma.2019.100672

3. https://doi.org/10.1111/j.1365-2672.2010.04827.x

4. http://dx.doi.org/10.1016/j.envsci.2015.04.008

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Dra. Alessandra Larissa Fonseca, professora da Coordenadoria Especial em Oceanografia da UFSC, pesquisa a qualidade da água da Lagoa da Conceição desde 2000.

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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