Labirintos do Golpe (no Golpe)

A fragmentação dos trabalhadores e a decomposição de classe só tem se acentuado através das últimas décadas, num processo que ainda não chegou ao fim. Os projetos atrelados ao recente golpe no Brasil radicalizam, aceleram e aprofundam políticas que se direcionavam, com contradições, mas sempre no mesmo sentido.

Labirintos do Golpe (no Golpe)

Por Leo Vinícius.

Neste momento boa parte da esquerda discute se o “golpe dentro do golpe” estaria finalmente em andamento. Ou seja, se as denúncias de Marcelo Calero seriam a deixa para uma fração dos grupos que se aliaram para derrubar Dilma Rousseff iniciarem um processo para derrubada de Temer e assim ganharem mais espaço no governo. Junto a isso há uma possível disputa entre o Legislativo e o Ministério Público (dois poderes que majoritariamente participaram ativamente do golpe), com o último tentando ampliar seu poder através das “Dez Medidas” (ideologicamente chamado “pacote anticorrupção”).

Surpreendentemente surgem propostas originadas numa fração da esquerda fora da órbita do PT, para irmos às ruas pela pauta anticorrupção, seguindo a onda de chamados de grupos de direita, ou até mesmo aderindo a esses chamados. Com nuances nessas propostas, as quais não discutirei aqui, na mais extrema as divisões ideológicas (direita e esquerda) e as divisões de classe são subsumidas na indignação moral do cidadão médio. Difícil não enxergar em tal proposta o partido da nação em cólera, expressão síntese da própria definição de fascismo dada por Maurice Bardèche, um dos seus principais teóricos no pós-guerra.

É nesse labirinto do golpe, e do golpe dentro do golpe, que nos encontramos agora, procurando uma saída.

O sentido da luta e o sentido do luto

Escrevo a partir do ponto de vista de alguém inserido numa experiência coletiva que tem sido forjada desde maio deste ano, em Florianópolis, buscando uma saída à esquerda. Se naquele mês o “Fora Temer” significava para nós, e para quem o bradava na época, se opor ao programa de corte de direitos sociais que vinham com o golpe, em setembro já tínhamos claro que a direita se apropriaria desse mote quando lhe conviesse. E como o piloto pouco importava mas sim para onde ia o vôo, concluímos que deveríamos focar nos ataques concretos aos direitos. A tramitação da PEC 241 em outubro trouxe esse foco. Agora, a tendência da apropriação pela direita do “Fora Temer” está se concretizando (mas obviamente esse significante possui outro significado para a direita, sintetizando desejos e motivações outros que não a defesa e ampliação de direitos sociais).

Pode-se dizer que esse “nós” de que falo em Florianópolis, começou a ser constituído em maio com o Ocupa MinC e simultaneamente com a reunião de indivíduos que passaram a se organizar contra o golpe aos direitos sociais em curso, mas que não se identificavam com a forma dos atos puxados pela Frente Brasil Popular. Com perfil jovem, tratava-se de trotskistas heterodoxos, anarquistas, libertários, desanarquizados, marxistas de algum modo ou de outro, sem rótulos etc. Em junho essa confluência deu origem à Rede Fora Temer-Floripa.

Simbólico não enche barriga, mas a RFT- Floripa convocou aqueles que foram os maiores atos de rua do país na semana de consumação do golpe (votação no Senado do impeachment) e na semana posterior, em termos proporcionais à população de cada cidade. No dia 6 de setembro a manifestação convocada pela RFT-Floripa se constituiu na maior já realizada pela esquerda na cidade, reunindo quase 6% da população do município, sendo monitorada em tempo real pelo governador. Sem carros de som,  foi essa esquerda insatisfeita com as formas de organização e ação das burocracias sindicais e da Frente Brasil Popular (a Frente Povo Sem Medo praticamente inexiste em Florianópolis) que esteve à frente nas semanas de consumação do golpe, com todo o espectro da esquerda – incluindo as organizações da Frente Brasil Popular – aderindo ao chamado e forma de organização da RFT-Floripa.

Apenas poucos meses antes, esses indivíduos que formaram a RFT-Floripa compareciam aos atos convocados pela Frente Brasil Popular. Insatisfeitos com a forma e os resultados, passam a se organizar autonomamente contra o golpe aos direitos, tornando-se uma força importante na esquerda  da cidade. Organizar-se autonomamente, no entanto, não significa negar o Outro, mas estabelecer uma nova relação com o Outro. Embora as tensões sempre tenham existido em relação às práticas e formas de organização das burocracias sindicais, ao contrário do que uma parte da extrema-esquerda propaga, para construirmos caminhos à esquerda não precisamos fazer o luto do PT. Simplesmente buscamos construir a luta.

O grande paradoxo dos diferentes discursos de que seria necessário à esquerda fazer um luto do PT, é que em geral eles acabam por afirmar implicitamente um PT ainda vivo mas que bloquearia um avanço histórico. Se o PT está morto, da perspectiva de que seu projeto falhou e sua influência na sociedade se tornou pífia, qual é a esquerda viva então para fazer luto do PT? Qual esquerda não está em condição similar num momento de plena hegemonia da direita? Se por outro lado o PT ainda está vivo, ainda é um ator político em campo, solicitar o luto é apenas uma forma de negar e se desviar da tarefa de lidar com ele. Quando não um discurso para disputa de bases.

Do ponto de vista da prática no campo da esquerda, o sentido de luto do PT desaparece. A questão que se coloca é apenas a do sentido da luta. Creio que essa foi uma lição que poderíamos tirar da nossa experiência em 2016 em Florianópolis. Fazer luto do PT simplesmente nunca esteve em pauta, nunca fez sentido e nunca nos impediu de nos organizarmos autonomamente a qualquer organização política.

Construindo hegemonia, mas qual?

Nossa história, da esquerda em Florianópolis e da Rede Fora Temer-Floripa, continua neste momento com as ocupações de escolas e universidades contra a PEC 241 (agora PEC 55) e contra a reforma do ensino médio. Concentradas no Paraná, além de obrigarem o governo golpista a se reportar a elas, as ocupações foram históricas na dimensão e sem dúvida na luta mais importante da esquerda brasileira em 2016. Riqueza de formação, de debate, de ação direta de alunos criando por vezes outro ambiente, conteúdo e formas escolares. Na grande Florianópolis tivemos seis estabelecimentos de ensino ocupados, mas a maioria sem paralisação das aulas. Como em outros estados, aqui também membros do MBL e jovens direitistas formaram protomilícias para desafiarem as ocupações ou tentarem impedi-las.

Assim como no resto do país as ocupações em Florianópolis estão em refluxo. Por coincidência é nesse momento de refluxo que começa a ser desencadeado o golpe dentro do golpe, com a grande imprensa sacrificando Temer e com grupos de direita convocando manifestações contra a corrupção para darem a legitimidade social necessária à queda.
Se por um lado grupos como o MBL lutaram e lutam pela desocupação das escolas, por outro, passam a convocar manifestações que enfraquecem o governo Temer. Sobre o sentido dessa dupla atuação, creio que o comentário Gabriel de Barcelos em uma rede social foi bastante lúcido:

Por que será que hoje a única força da esquerda que incomoda a direita são as ocupações? O “desocupa” vem sendo o centro da ação deles, definido inclusive no Congresso do MBL. Por que a defesa da ordem estabelecida no Governo Temer se dá de maneira tão firme entre eles na desocupação das escolas/universidades, mas não completamente na manifestação de agora, diante dos últimos acontecimentos?

Não acredito que se trate apenas de uma visão liberal sobre educação e direitos sociais. Penso que o ataque às ocupações é a necessidade de vencer a disputa da instabilidade de Temer. Ao assumirem o protagonismo (e para isso contam com amplo aparato nas mídias tradicionais e na internet) deste ataque a Temer, eles voltam a tomar a dianteira na disputa de um processo que eles até agora protagonizaram, desde a campanha pelo impeachment.

Como espaço de formação política, de difusão de informação sobre a PEC 55, de criação coletiva de outra escola, as ocupações são/eram um espaço e um momento rico de construção de hegemonia da esquerda. E podemos entender hegemonia aqui no mesmo sentido das interpretações gramscianas que aportaram no Brasil e tiveram espaço dentro do PT. Hegemonia como ação pedagógica que constrói uma outra visão de mundo, para além do senso comum; hegemonia relacionada assim ao campo cultural e à atuação na sociedade civil, e não no campo político em sentido estrito e na ocupação do Estado.

O foco do PT na via eleitoral e em ocupar cargos no Estado esteve obviamente em contradição com a construção de hegemonia. Via de regra se trabalha com o senso comum para ganhar votos, reforçando-o portanto. Ao mesmo tempo o deslocamento para o Estado esvazia a presença na sociedade civil. Paradoxalmente aqueles na esquerda – e que por vezes possuem forte identidade antipetista – que pretendem se valer primordialmente da bandeira anticorrupção para ir às ruas neste momento, seguindo a agenda do golpe no golpe dirigida pela grande mídia – a qual aciona o liga/desliga da pauta anticorrupção conforme o seu interesse de classe do momento – , escolhem assim reforçar um senso comum na esperança de atrair público. Nesses dois casos, o PT e o antipetismo de origem na esquerda formam os dois lados de uma mesma moeda, no qual a construção de uma hegemonia de esquerda não se faz presente, assim como a autonomia de classe. Se no primeiro caso, o do PT, não havia e não há autonomia em relação às formas políticas burguesas (Estado e suas instituições), no segundo caso não há autonomia em relação às pautas, tempos e agenda da direita. Na melhor das hipóteses, nesse último caso, reforça-se a hegemonia da direita, colocando parte da esquerda a reboque. E a reboque de uma grande mídia que já demonstrou toda sua capacidade de controle dos meios de significação e ressignificação de manifestações. A autonomia, que é autonomia de classe, está em outro lugar, como por exemplo nas ocupações das escolas.

Para além disso, ir para as ruas por uma pauta anticorrupção nessa conjuntura específica tem como consequência direta apoiar o projeto das “Dez Medidas” do Ministério Público. Projeto esse que mesmo um liberal sincero seria contra, por ampliar os poderes do aparato repressivo estatal sobre os indivíduos, e sabemos bem contra quem esse peso recai com maior frequência. Embalado no nome “anticorrupção”, esse projeto passa imune por uma parte da esquerda que aderiu aos senso comum talvez para se sentir parte de um movimento de massa, pós-ideológico, pós-classe, de unidade nacional, que muito lembra elementos de situações históricas a que já nos reportamos.

Onde estará o fundo do poço?

Se o programa do golpe tiver sucesso (PEC 55, reforma da previdência, reforma trabalhista que vem sendo feita via Judiciário, entre inúmeras outras medidas), a tarefa da esquerda será se reconstruir a partir dessa realidade. Qual seja, a de uma massa da população em situação muito mais precarizada, tanto em termos de renda, de serviços públicos, de benefícios sociais.

Ainda vivemos um processo, em nível mundial, de reação ao último grande ciclo de lutas da classe trabalhadora (iniciado em meados dos anos 1960 e terminado em início dos anos 1980). As lutas que colocaram em crise o fordismo tiveram como resposta, por exemplo, a descentralização da produção, a financeirização, terceirizações, entre outras formas de fuga da insubordinação do trabalhador por parte do capital.

A fragmentação dos trabalhadores e a decomposição de classe só tem se acentuado através das últimas décadas, num processo que ainda não chegou ao fim. Os projetos atrelados ao recente golpe no Brasil radicalizam, aceleram e aprofundam políticas que se direcionavam, com contradições, mas sempre no mesmo sentido. Quanto mais se ampliam a fragmentação dos trabalhadores através de mudanças na estrutura produtiva e sua decomposição como classe, maior a correlação de força em favor do capital e a amplitude de seus ataques aos direitos sociais e trabalhistas.

A base material do avanço conservador que assistimos no Brasil está relacionada a mudanças na estrutura produtiva, no mundo do trabalho, que rompem com as solidariedades de outrora, constituídas à esquerda, através do sindicalismo por exemplo. No tecido urbano, à precarização do trabalho e da vida as Igrejas Neopentecostais souberam fornecer um vínculo, redes de solidariedade e suporte material (e imaterial) que a esquerda não soube, não conseguiu ou não tentou fornecer.

Mente aquele que, aqui ou em outro lugar do mundo, consegue visualizar neste momento uma recomposição da classe trabalhadora. Mas se a esquerda no Brasil quer ser relevante novamente um dia, deve começar desde agora a pensar em constituir formas práticas de redes de solidariedade que sirvam de suporte à vida cada vez mais precarizada e de cada vez mais pessoas, principalmente se o programa do golpe for bem sucedido.

Leo Vinicius é tecnologista da Fundacentro, Doutor em Sociologia Política.

Foto: Thiago Iessim, Desacato.info.

Fonte: Le Monde Diplomatique.

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