JTT um ano: Não está pronto, mas estamos no caminho certo

Por Rosangela Bion de Assis, para Desacato. info.

É preciso escrever algumas linhas sobre o que foram esses doze meses produzindo o Jornal dos Trabalhadores e Trabalhadoras, sobre o que foi manter, tentar superar as dificuldades e avançar na produção do primeiro Jornal de TV Web independente do estado produzido por uma Cooperativa de Trabalho. Sim, pois a Cooperativa Comunicacional Sul não é pano de fundo de nenhuma grande empresa, como ocorre com muitas cooperativas que operam em diversas áreas de produção, especialmente na alimentar.

Outro dia, respondi para Janaína Machado que fazer o JTT “foi a melhor experiência jornalística da minha vida, dos 30 anos de profissão que completei este mês”. Isso não quer dizer que está bom. Longe disso, mas já nos barram na Câmara de Vereadores, já impedem que nosso banner seja colocado na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), já fomos gaseados, acertados por balas de borracha, por ovos, pedras e tivemos uma cobertura apagada pela Polícia Militar. São provas de que estamos no local certo, fazendo o que nos propomos há um ano, ao lado do explorados e dos invisibilizados, dos que estão à margem e dos que lutam.

Formamos uma equipe que tem o mérito de acreditar no que faz. Apesar da terrível escassez de recursos e equipamentos, somos incansáveis e formamos um coletivo animado. Um grupo “raro”, disse uma amiga; que insiste em “encontrar felicidade no jornalismo”, descreveu outra. A Diretora Geral de Jornalismo, TaliFeldGleiser, mora na República Dominicana, mas parece estar do nosso lado 24h; Raul Fitipaldi, Diretor Executivo, nos remete da particularidade à universalidade com toda a paciência desse mundo; Caroline Dall’Agnol, apresentadora e Diretora do JTT, faz magia na edição de imagens e garante que “vai dar tudo certo”; Cláudia Weinman, é nossa corajosa e destemida Diretora Regional do Oeste; Janaína Machado, que faz magia com a câmera e com a locução; Julia Sargiorato, destacada com o melhor programa dos Cimis de todo país; Mayara Santos, começou com seu quadro de enquete e hoje faz magia na produção; Juan Luis, com sua presença e experiência; Marcelo Luiz com suas fotos e textos; James Ratiere, chegando para reforçar a produção cultural; Silvia Agostini com suas pautas e produções; Paulo Fortes e Pedro Pinheiro reforçando a equipe do Oeste e Mayara Bergamo, se aproximando do lar cooperativo, onde também está Manoela de Borba, há  mais de um ano, abrindo a porta devagarinho.

Segunda e quinta-feira

Com a arrecadação mínima prevista no projeto organizamos, da melhor forma possível, as equipes de Florianópolis e São Miguel do Oeste para o lançamento em 12 de junho de 2017. Em novembro de 2017, não foi mais possível incluir tantas matérias numa única edição e por isso, sem nenhum apoio financeiro adicional, foi lançada a edição do Oeste, às quintas-feiras. Às vésperas do aniversário de 10 anos do Portal Desacato, em novembro de 2017 as duas edições passaram a ser lançadas às 10 horas acrescentando audiência ao JTT.

Na reunião de pauta semanal, presencial ou virtual, é sempre uma ginástica para viabilizar o maior número de pautas e desejos. Sempre nos faltam pernas, braços e câmeras, por isso intensificamos esse ano a Campanha do Leitor Amigo e da Leitora Amiga de Desacato. Precisamos ser fonte de trabalho não só para os jornalistas que já estão desempregados, mas ser uma opção para os estudantes. E ainda temos o desafio de remunerar-nos dignamente os que já somos cooperados e cooperadas em Desacato, pois não acreditamos no trabalho voluntário.

Respeito que se constrói

Temos consciência do papel pedagógico do JTT na compreensão do papel da mídia independente. Ao longo dos meses, durante as coberturas, nas audiências na Câmara de Vereadores e na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, nas reuniões e eventos cobramos respeito pelo trabalho realizado não só por Desacato, mas por tantos outros jornalistas e comunicadores que se posicionaram deste lado da trincheira. Acompanhamos as audiências públicas na Câmara e na Alesc sobre os recursos públicos para a Mídia Independente denunciamos que os monopólios ficam, atualmente, com a totalidade dos valores públicos e ainda sonegam os impostos devidos e que são cobrados dos demais meios.

Nesses 12 meses, nossos apoiadores foram impecáveis. Sindpd (Sindicato dos empregados em Processamento de Dados de Santa Catarina), Sintraturb (Sindicato dos Trabalhadores no Transporte Urbano de Passageiros da Região Metropolitana de Florianópolis), Sinasefe – Seção Sindical IFSC, SLPG (escritório de Advocacia) e o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), desde fevereiro de 2018, compreenderam a importância de viabilizar um jornal que se construa como uma opção de informação constante para a classe trabalhadora, e ainda que é imprescindível que o jornalismo seja livre para ser jornalismo. Enquanto a mídia burguesa quer que acreditemos que a ética e a honestidade não existem mais, nós mostramos, a cada edição do Jornal, que elas são inegociáveis. Essa é a nossa maior riqueza.

Para os que virão

Não é possível falar do JTT sem falar do projeto maior que é Desacato, essa ferramenta de informação que cresce todos os dias, que aponta para o enfrentamento tão necessário e urgente à mídia empresarial. A produção do Jornal, duas vezes por semana, ocorre paralela às demais produções que compõem a grade de programação própria de Desacato, que atualmente conta com a produção do programa semanal ao vivo de WebRádio Informativo Paralelo,em parceria com a Acracom; programa quinzenal em WebTV e WebRádio Vida em Resistência; episódios bilíngues do programa Mulheres da Pátria Grande; coberturas ao vivo e audiovisuais; informação 24h no Portal, nas páginas do Facebook e do Twitter de Desacato.info, mais de 20 colunistas com A Outra Reflexão. E, em breve, em parceria com o Dieese, o programa semanal Crimes Neoliberais.

É o que podemos produzir, mas ainda é muito pouco diante do que precisamos fazer para colocar mais jornalismo e mais informação de qualidade para circular. Marcelo Luiz brinca que Raul, Juan e eu compomos o ancianato. O grupo dos mais idosos que talvez não verão o fruto desses esforços e do trabalho. Concordo com ele. O JTT, me fez perder muitas noites de sono, mas também me deu a certeza tranquila de que estamos no rumo certo: perseverando seriamente com nossos ideais e nossa paixão pelo jornalismo para que as gerações futuras possam ter enfim assegurado o direito à informação.

Rosangela Bion de Assis.

Jornalista desde 1988, e Presidenta da Cooperativa Comunicacional Sul – Desacato.

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