Jornalistas pernambucanos repudiam adesão da imprensa ao impeachment

Manifesto publicado na internet aponta “antijornalismo” praticado por grandes veículos na cobertura sobre a campanha pelo término precoce do governo da presidenta Dilma.

Profissionais que atuam na imprensa do estado de Pernambuco publicaram nesta última quinta-feira (31/03) um manifesto no qual repudiam atuação da imprensa em uma campanha de desestabilização da democracia no Brasil. Até o fechamento desta nota, cerca de 200 jornalistas já haviam assinado o documento.

No texto, os profissionais apontam uma adesão dos grandes veículos nacionais e de parte do judiciário à destituição da presidenta Dilma Rousseff. Eles classificam a atuação da imprensa como “irresponsável” e que o antijornalismo praticado pela mídia “corrompe, enfraquece e distorce a informação”.

“O que fica claro é que essa ‘grande imprensa’, a despeito de valorosos profissionais que nela trabalham, pratica cotidianamente o antiesclarecimento, o obscurecimento, ou seja: o antijornalismo”, diz trecho do documento.

Os signatários também expressaram a urgência de uma nova lei para garantir o direito à pluralidade na comunicação.

“Precisamos, de saída, desconstruir a ideia espraiada – obviamente pelos meios aqui citados – de que um novo marco regulatório é sinônimo de censura. Muito pelo contrário. A verdadeira censura, aquela que impede a livre circulação de ideias, opiniões e informações, é a que vivemos hoje, quando um punhado de barões da comunicação, de forma privada e arbitrária, definem que ‘verdades’ iremos receber e que notícias nos serão omitidas”, defendem.

LEIA O MANIFESTO NA ÍNTEGRA:

As tentativas de desestabilização da democracia brasileira através do aparato da imprensa não são uma questão nova no país. Há, no entanto, um componente novo na crise política atual que, de certa maneira, refunda o jornalismo local. Jamais vimos, após o fim da ditadura militar, uma adesão de tantos veículos da chamada grande imprensa ao projeto de derrubada de um governo. Uma adesão turbinada por um judiciário que, por sua vez, intoxica o Brasil através de jornais, telejornais e revistas.

Uma imprensa irresponsável, que não se preocupa em falsificar números, omitir informações e, pior, incitar o arrivismo em uma já maculada sociedade brasileira. O que fica claro é que essa “grande imprensa”, a despeito de valorosos profissionais que nela trabalham, pratica cotidianamente o antiesclarecimento, o obscurecimento, ou seja: o antijornalismo.

É importante ressaltar que esse antijornalismo sempre esteve em vigor por aí, livre e impune. Se hoje trabalha com todo o ardil para derrubar um governo legítimo, por muito tempo agiu para colocar os governantes que desejava no poder. Negou a democracia mais de uma vez. Nunca a praticou de fato. O antijornalismo demorou 50 anos para admitir o erro de defender um golpe; agora, dois, três anos depois, patrocina outro, silenciando as vozes dissonantes com o discurso de mitigar seus nocivos atos por carregar o cetro da imparcialidade.

O antijornalismo corrompe, enfraquece e distorce a informação. E a informação jornalística, em seu nascimento, faz parte de um ideal humanista de levar as ferramentas à população para que ela decida, ferramentas essas que devem ser plurais e construtivas. É claro que sabemos que esses ideais não são um projeto dentro do modelo nacional, no qual o jornalismo e a informação não são vistos como direitos, mas apenas como negócios. Entretanto, a atuação de veículos de comunicação tem ferido até mesmo essa perspectiva, ultrapassando os limites do desrespeito, do cinismo e da manipulação.

Tais ações, para surpresa desses grandes equipamentos de mídia, não se dão hoje sem resposta. A matéria da Veja com um suposto plano de fuga do ex-presidente Lula, é um exemplo: foi, no mesmo dia da sua publicação, desmentida pela embaixada italiana no Brasil. A Rede Globo, um dia antes, tinha milhares de pessoas à frente de sua sede, protestando contra a cobertura historicamente tendenciosa dos veículos do conglomerado líder do oligopólio midiático brasileiro.

O que os dois exemplos nos mostram é que não é mais possível protelar uma nova regulação para a comunicação no País. Isso pode se dar através dos artigos da Constituição que já tratam do tema, embora permaneçam sem legislação que os façam valer.

Devidamente regulamentados, os artigos 220, 221, 222 e 223 da Magna Carta poderão trazer ao ambiente midiático, em especial à radiodifusão, a liberdade e a diversidade que hoje nos fazem tanta falta. Uma proposta que está na mesa, defendida pela campanha Para Expressar a Liberdade, requer mais de um milhão de assinaturas para ser discutida no Congresso. Se mais uma vez cruzarmos os braços, corremos o risco de ver nosso direito à democracia transformar-se num mero bibelô constitucional.

Precisamos, de saída, desconstruir a ideia espraiada – obviamente pelos meios aqui citados – de que um novo marco regulatório é sinônimo de censura. Muito pelo contrário. A verdadeira censura, aquela que impede a livre circulação de ideias, opiniões e informações, é a que vivemos hoje, quando um punhado de barões da comunicação, de forma privada e arbitrária, definem que “verdades” iremos receber e que notícias nos serão omitidas.

A guerra da desinformação imposta pelos conglomerados midiáticos nos mostra como se faz necessário um empenho coletivo em defesa da nação, um esforço para legitimar a ideia humanista do crescimento das pessoas por meio da informação.

É sob esse ideal que nos posicionamos. Nós, jornalistas de Pernambuco, desejamos ver e construir um Brasil em que qualquer habitante possa ter acesso à informação clara, coerente e honesta. Um país onde a imprensa respeite a soberania dos resultados advindos das urnas – é preciso, afinal, acatar o desejo manifestado pelos brasileiros através do voto – e cumpra a função de formar uma consciência crítica e cidadã. Seguiremos a trabalhar nessa perspectiva, nunca junto dos que praticam e validam atentados à democracia, e sim ao lado dos que vivem para fortalecê-la.

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