Intimidade exposta

Por Celso Vicenzi.

Intimidade, diz o dicionário, é também sinônimo de privacidade. Corrigindo: já foi, não é mais, com tanta gente se exibindo nas redes sociais (com o perdão pela rima). Mas houve um tempo, não muito distante, em que a vida íntima era assunto da esfera privada. Quando muito, era sussurrada aos ouvidos mais curiosos em comunidades em que pouco havia para se fazer, além de especular a vida alheia. Não raro, o que era revelado pertencia mais à imaginação do que à realidade dos fatos. Quem mais sabia (supostamente) o que acontecia entre quatro paredes eram os sacerdotes, senhores dos segredos de confessionários.

Mas, num tempo ainda mais distante, não havia ambiente para a vida íntima. Coabitava-se o mesmo espaço em domicílio com um único cômodo, onde o que tivesse que ser visto ou feito via-se e fazia-se, com a discrição possível, na presença de filhos e avós. Era comum na Idade Média amontoarem-se todos num único compartimento, ou mesmo num único leito. Entre os nobres, era normal receber convidados sem sair da cama. A arquitetura evoluiu com os costumes, e as residências, séculos depois, receberam quartos e outras divisórias, que passaram a preservar a intimidade dos membros da família.

Isso até época recente, quando introduziu-se nos ambientes da casa um quase eletrodoméstico: o computador. Daí às redes sociais foi um passo, e abriu-se a intimidade do lar para até onde alcançam as conexões, atravessando oceanos e continentes em frações de segundos. E, uma vez capturada uma imagem, uma palavra ou um diálogo, tal como uma caixa de Pandora, não há mais como aprisionar o que dali escapou. Seja um conchavo entre corruptor e corrupto, ou um momento mais íntimo de uma pessoa ou de um casal.

Foto ou vídeo armazenado no computador corre o risco de ficar exposto a olhares impertinentes. Às vezes, basta um descuido. Em outras, pode ser por vingança (atenção,  mulheres que tiram a roupa para homens que juram amor eterno!), engodo, golpe ou brincadeira de mau gosto.

Mais comum ainda é exibir-se por pura vaidade, distendendo cada vez mais os limites do que é público e do que é privado. Isso sem falar em hackers e crackers, que navegam com muita competência por um emaranhado de códigos binários. Todos que possuem um computador e têm acesso às redes sabem dos riscos desse espelho que tudo vê e tem memória.

É pouco provável que a atriz global Carolina Dieckmann, que ora ocupa as manchetes por ter tido a sua nudez exposta na internet, não soubesse avaliar o perigo. Segundo o advogado dela e do diretor de TV Tiago Worcman, com quem é casada, as fotos foram tiradas para a “intimidade do casal”.

Intimidade é um conceito que merece nova reflexão e abordagem numa sociedade que gosta de se expor continuamente nas redes sociais, exibindo imagens e opiniões em ritmo alucinante – quase um novo vício. E quando se configura como tal, tão pernicioso como qualquer outra droga.

No caso da atriz, não foi por vontade própria, mas os computadores e as redes sociais não são o melhor lugar para exercitar a ingenuidade. Não é no computador o melhor local para pôr seja lá o que for que não se queira revelar – ou ver revelado por obra de outros, sejam ex-namorados, hackers ou crackers, ou até mesmo um funcionário de uma oficina de informática.

A internet é também um território ainda sem lei, em que advogados e juristas tentam adentrar, com velhos códigos e legislações, tentando encontrar conexões no desconhecido mundo virtual.

Mesmo que a atriz venha a obter algum ganho pecuniário, é evidente que o “estrago” feito não repara o dano, posto que atinge valores que não podem ser mensurados. Quanto vale a intimidade exposta de uma pessoa? Qual o valor que repara o abalo psicológico?

Para o caso da atriz e outra(o)s internautas, vale aquele velho axioma, ligeiramente adaptado para os dias atuais: Segredo é pra quatro paredes. Desde que não se instale uma webcam no quarto!

Celso Vicenzi é jornalista.

Imagem: http://eleojamal.blogspot.com

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