Internet estimula criação de ambientes de ideias radicais e de isolamento

Grupos privados, em ascensão nas redes sociais, não aceitam críticas e deixam usuários acuados. "A floresta escura está quieta porque é durante a noite que os predadores saem"

Imagem: Pixabay.

Por Gabriel Valery.

São Paulo – “A escuridão da floresta é cheia de vida. Está quieta porque é durante a noite que os predadores saem. Para sobreviver, os animais permanecem em silêncio.” As palavras são do fundador da plataforma de financiamento coletivo KickstarterYancey Strickler. Ele utiliza a floresta escura como metáfora para explicar o que a internet está virando: um local de isolamento entre iguais. A teoria da “floresta negra” foi apresentada pelo autor chinês Cixin Liu em sua trilogia Lembrança do Passado da Terra.

Redes sociais, grupos privados, newsletters especializadas e podcasts são exemplos de ambientes onde nichos podem florescer livres de “predadores”, crítica ou dialética. Os mecanismos que levam a isso são inerentes à psique humana, argumenta Strickler. Isso porque o ambiente aberto da internet se transformou em um imenso “campo de batalha”. Para o empreendedor digital, tal cenário ficou evidente após a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos em 2016.

“O idealismo dos anos 1990 com a web se foi. A utopia da web 2.0 – onde viveríamos em bolhas de felicidade – também acabou com as eleições de 2018, quando aprendemos que as ferramentas que pensamos que seriam apenas para dar vida, também servem como armas.” Então vieram os espaços “semipúblicos”, como os grupos de WhattsApp. Neles, foram criadas estruturas que replicam conteúdo único. Foram criadas até mesmo estruturas de poder político nestes locais.

Por meio de monitoramento de grupos de WhattsApp de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PSL), por exemplo, é possível observar estruturas de poder. São locais onde não existe o contraditório, apenas uma visão única, a de que Bolsonaro seria um “salvador” diante de um inimigo comum que, no caso, é qualquer um que discorde da visão deles.

Neste ambiente, criam-se estruturas, “cargos”, nos quais o militante faz uma “carreira”. Aqueles que mais compartilham são convidados para serem administradores dos grupos. Depois disso, formam-se grupos de administradores e assim por diante, até a possibilidade de um indivíduo poder ser chamado para encontros com gente de um partido ou militantes mais “famosos”, no caso aqui, da extrema-direita.

Esse mecanismo dá ao indivíduo uma noção de pertencimento a um grupo, como se ele fosse parte de “um projeto maior”. Dá força ao discurso e impulsiona a criação de mais núcleos de divulgação de um pensamento único.

A floresta cresce

Para o professor do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (USP) Alfredo Goldman, a ausência do contraditório nestes grupos que formam esta “floresta escura” deve ser encarado como algo preocupante. “As pessoas acabam seguindo cada vez mais pessoas (com pensamentos) semelhantes. Esse fenômeno é perigoso, porque permite ideias completamente enviesadas e a disseminação de fake news e todo tipo de pensamento em que o debate é restrito”, disse, em entrevista veiculada na Rádio USP nesta semana.

O resultado: a explosão dos radicais. “Se eu procuro apenas pessoas com pensamentos semelhantes, cada vez mais vou entrar em uma espécie de buraco negro. Só vou encontrar opiniões semelhantes. Esse é o grande problema atual do radicalismo. Várias pessoas acham outras com o mesmo radicalismo e, ao fazer isso, acham que o pensamento radical é razoável”, avalia.

Um exemplo disso é o crescimento de teorias absurdas, como os de comunidades que defendem que a Terra é plana ou que vacinas são conspirações criadas por governos maléficos. Em um ambiente social razoável, essas ideias seriam tranquilamente esclarecidas com argumentos. Mas em grupos fechados da floresta escura, esses indivíduos se encontram e alimentam entre si tais conceitos, sem contraponto. “Quando uma pessoa reforça um conceito errado na outra, acontece isso. Em vez de se ponderar, fazem o oposto: se autolimitam. Esse risco é muito grande”, diz Goldman.

Este fenômeno, que vai da criação de grupos e ambientes de pensamento único até à excluisão de suas redes dos que pensam diferente, tende a crescer – se depender do Facebook. Em março, o CEO da rede social, Mark Zuckerberg, anunciou que a rede tende a mudar, passando de uma “praça pública” para uma “sala de estar”.

“Acredito que devemos trabalhar para criar um mundo onde as pessoas possam falar em privado e vivam com a confiança de que a sua informação apenas será vista por aqueles que queiram e não se mantenha para sempre. Se pudermos ajudar a levar o mundo nesta direção, ficarei orgulhoso”, disse Zuckerberg.

Entre as ações que podem ser tomadas, estão a fusão de aplicativos do conglomerado, como Facebook, Messenger, Instagram e WhattsApp, além de medidas como a de tornar efêmeras as mensagens, assim como fazem o SnapChat e o “Stories” do Instagram.

Para a sociedade, cabe fortalecer a educação para driblar o crepúsculo da civilização, argumenta Goldman. “É muito importante mostrar que a diversidade de opinião é saudável. É importante saber o que o outro pensa. Vem da educação básica. Não procurar apenas quem pensa igual, mas entender que existem pensamentos diferentes que podem ser valorizados.”

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