Inimigos de Marighella sabiam que ele não era branco

Fonte: Reprodução NegroBelchior. Carta Capital.

Por Marina Souza.

Mesmo antes de sua chegada ao Brasil, o filme Marighella, dirigido por Wagner Moura, tem gerado algumas polêmicas entre os brasileiros. Além dos gritos de protesto do público e da placa de Marielle Franco presentes no Festival de Berlim, na última sexta-feira (15), alguns internautas decidiram discutir a cor do guerrilheiro retratado no longa metragem. O fato de Seu Jorge ter sido o ator escolhido para interpretar o papel está sendo criticado por algumas pessoas que insistem em afirmar que Marighella não era negro.

Fonte: Reprodução NegroBelchior. Carta Capital.

Discursos como esse, que negam o guerrilheiro enquanto uma pessoa negra, legitima – mais uma vez – as contantes tentativas de embranquecimento sofridas pela população preta no país. Dizer que Carlos Marighella, líder da luta armada contra a Ditadura Militar brasileira, era negro não trata-se de um achismo ou opinião, mas sim de uma verdade histórica. O fato de Seu Jorge possuir uma pele de cor retinta não significa que outros tons não façam parte dos fenótipos negros.

Ao  mesmo tempo, chega a ser interessante e curioso analisar o silêncio que se faz quando personagens negros são embranquecidos no cinema. A escolha de Wagner Moura leva em consideração critérios como representatividade, ter colocado alguém retinto para interpretar um personagem de tonalidade negra mais clara é, talvez, uma maneira de reafirmar o grupo racial e as discussões que o cercam diariamente. Durante o Festival, o diretor disse:

“O Estado brasileiro é racista. Marighella foi assassinado em 1969. Um homem negro, revolucionário e de esquerda foi assassinado pelo Estado dentro de um carro há 50 anos. E 50 anos depois, uma vereadora do Rio de Janeiro, também negra, de esquerda e defensora dos direitos humanos foi assassinada dentro de um carro, provavelmente por agentes do Estado.”

O autor do livro “Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo”, Mário Magalhães, também comentou a polêmica e postou hoje (18) em seu twitter que não há dúvidas de que o guerrilheiro era negro e sofrera racismo durante a vida.

É preciso que a sociedade brasileira, composta majoritariamente por pessoas negras, reconheça a necessidade e, sobretudo, a importância de um ator negro interpretar negros. A invisibilidade, seja no mundo das artes, do corporativo ou acadêmico, é um tipo de violência que precisa ser quebrada. Negar a negritude do guerrilheiro não mudará a história, afinal como disse Magalhães: “Inimigos do Marighella sabiam que ele não era branco”.

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