Indígenas: Os ‘briques’, o artesanato e a festa da partilha

Por Claudia Weinman, para Desacato. info.

Casinha de lona, água do chimarrão barulhando na chaleira e dez abraços vindo de encontro da gente. O combinado era contar a vida dos indígenas Kaingang que estão em São Miguel do Oeste/SC, ocupando uma área de terra afastada do centro, até que o final de ano passe e consigam vender seus artesanatos. Mas, juntando uma prosa e outra, a conversa ficou comprida, cada um e cada uma foi falando um pouco e contando das experiências…até que o sol desapareceu.

São 96 anos de vida. Acha pouco? A Rosa Emília, indígena Kaingang tem 96 voltas em torno do sol como falam por aí. E constrói os artesanatos, saí fazer “briques”. “Faz mais que a gente” – exclamou o Renato Ribeiro, 31 anos, outro indígena Kaingang. O riso foi geral. A Rosa aparece na foto segurando uma casinha de passarinho. Quem não quer uma casa não é mesmo? E assim, tão delicada, feita por aquelas mãos cheias de sonhos, é uma beleza imensurável.

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Rosa, os artesanatos e a roda de prosa com as crianças e demais indígenas

 Além da Rosa, Tem a Roseli Moreira de 30 anos, que também faz artesanato. A Soeli Moreira que é a irmã da Roseli e tem 37 anos, tem ainda o Tiago da Rosa 30 anos, a Nelsi Bento 42 anos, o Osias Claudino 24 anos que outro dia fez algumas rezas para uma família de São Miguel do Oeste que estava com algumas dificuldades, doenças na família. Ele que é tão jovem, fez algumas orações para contribuir.

A cultura do artesanato

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Povos indígenas mostrando seu trabalho com o artesanato.

Cestas, anjos, casinhas de passarinhos, filtro dos sonhos, cestos maiores…O trabalho realizado pelas comunidades indígenas com o artesanato dão forma a cultura. Em cada comunidade indígena existe um planejamento de datas que os grupos podem sair para vender o trabalho. Nos meses de novembro, dezembro, até janeiro, essa movimentação é maior porque as crianças estão de férias. “As crianças vem junto com a gente e nós nos organizamos para sair da aldeia. Precisamos de uma autorização interna pra gente viajar nesse período”, explicou Osias Claudino.

O grupo que participou desse diálogo contou que as crianças acompanham as famílias na viagem para aprenderem com a cultura e para mais tarde, poderem dar seguimento ao trabalho que os povos indígenas realizam muito antes de Pindorama se chamar Brasil.

Vender o artesanato nem sempre é fácil, conta o grupo. “Muitas vezes as pessoas fazem decepção com a gente”, contou Soeli Moreira, referindo-se a pessoas que quando percebem a chegada dos indígenas fecham a porta de suas casas. Mas, por outro lado, há quem recebe de bom grado. “Quem ajuda é quem menos tem”, disse o indígena Tiago da Rosa.

Roseli Moreira comentou que todos os dias algum “brique” é feito, mas que, ultimamente está um pouco difícil vender os artesanatos. Ela conta que algumas vezes os indígenas trocam os artesanatos por roupas, comida, conforme a necessidade.

A festa da partilha

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Roda de prosa.

Na roda da nossa prosa ainda participaram a Ana Matias de 34 anos e a Doroti Stedile que é Coordenadora do Conselho da Comunidade do Bairro Salete e o Padre Reneu na Paróquia São Miguel Arcanjo. Eles acompanharam a prosa porque hoje, dia 24, ao meio dia, acontece um almoço de natal no bairro, especialmente para acolher as famílias indígenas que estão residindo temporariamente em aproximadamente dez barracos no São Luiz.

A festa vai ser bonita. As crianças se alegram com a companhia de mais pessoas e também com os doces que serão distribuídos. Quem não gosta de um agrado não é mesmo? Ruim quando não tem condições para oferecer isso. Aí tu vê gente rica, ladrões de terra esbanjando e o povo na míngua. Mas, no bairro Salete vai ter essa confraternização bonita durante esse 24 de dezembro.

A Doroti falou que 10 pessoas da comunidade vão trabalhar no almoço e que os indígenas vão ajudar no preparo do alimento. De tarefa coletiva entendem bem. Vivem assim, afinal. O Reneu também contou que no ano passado a festa de natal aconteceu em outra comunidade e que para os próximos anos, existe um desejo de em outras comunidades ser realizada a partilha.

*Briques: Palavra utilizada como sinônimo de venda ou troca de produtos.

 

 

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