IFC: A educação popular dentro de um assentamento

Por Claudia Weinman, para Desacato. info.

O Instituto Federal Catarinense (IFC) está em funcionamento há aproximadamente três anos no assentamento José Maria, em Abelardo Luz/SC, onde estão localizados 23 assentamentos e mais de 1400 famílias assentadas. São mais de mil estudantes desde a educação infantil ao ensino médio que frequentam o IFC. Nesse ano de 2018 o campus está ofertando o curso de Pedagogia com ênfase na educação no campo.

A Educadora Camila Munarini explica que o diferencial do curso está na consideração das realidades dos ribeirinhos, quilombolas, camponeses/as, da agricultura familiar e dos indígenas. “Esse curso é uma conquista dos movimentos sociais a partir de suas demandas. A educação no campo  é uma conquista porque leva em conta a vida das pessoas”.

O curso segundo o Educador Elondir de Souza funciona em processo de alternância. “Existe o tempo escola que é de 20 a 30 dias, sendo duas etapas em cada semestre e o tempo comunidade onde os estudantes retornam para suas realidades para dar seguimento aos trabalhos nas organizações e as tarefas do curso”, destacou.

 “Aqui a formação é diferente, a educação não é limitada”.

De São Miguel do Oeste/SC, três jovens estão iniciando seus estudos no curso superior em Abelardo Luz/SC. A jovem Fabiula Fergutz, Paulo Fortes e Eliezer A. de Oliveira são parte do coletivo da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e Pastoral da Juventude Rural (PJR) do Extremo-oeste do estado. Eles chegaram ontem, dia 05, no IFC.

Para Fabiula, que mora na comunidade São Francisco de Assis, o curso possui um diferencial. “Esse curso de pedagogia possui uma formação que é diferente de uma universidade particular onde a educação é limitada, no IFC podemos expandir”.

Ela mencionou a importância de três jovens da favela estarem ingressando no curso superior. “Somos três jovens moradores de favela. Eu tentei uma universidade particular e tive a certeza que não é pra nós, é feita para não estarmos lá. Era muito difícil pagar uma mensalidade que tinha o valor mais alto do que meu salário, eu recebia bem menos que a mensalidade do curso. Sem condições de uma pessoa que mora na periferia entrar numa universidade programada para não estarmos lá”, explicou.

Eliezer A. de Oliveira falou também sobre a intenção de aproveitar a formação para contribuir com as organizações, com a comunidade. “Acredito que este curso vai possibilitar e contribuir para a transformação da sociedade já que possui um viés popular. Esta educação precisa ser uma educação libertadora, é o que precisamos para poder contribuir com a realidade de onde a gente vem”.

O jovem Paulo Fortes mencionou também que o IFC existe dentro de um assentamento, tendo nascido das lutas populares. “ É uma conquista que surgiu das lutas de vários movimentos e também é um espaço que precisamos ocupar, a juventude, os movimentos, pastorais precisam ocupar. Eu enquanto jovem morador de periferia considero que muito além do diploma que vou poder mostrar para a minha família e organização, vamos ter a oportunidade de receber o conhecimento que vem na linha popular e que é importante pois a educação possibilita mudar a realidade que vivemos”.

Resistência

Foto: Claudia Weinman, para Desacato. info.

No dia 15 de setembro de 2017, as organizações sociais e populares realizaram um ato em frente ao Fórum da cidade de Abelardo Luz/SC em defesa do IFC, considerando as inúmeras tentativas de retirada do campus de dentro do assentamento.  Durante a mobilização, as lideranças prestaram solidariedade aos professores Ricardo Velho, que até então atuava como Diretor do IFC, e Maicon Fontanive, Coordenador Geral Pedagógico, que foram afastados do Instituto em operação do Ministério Público Federal no dia 16 de agosto e tiveram seus celulares e computadores apreendidos além da quebra do sigilo destes.

O campus se mantém e agora, recebe os educandos para mais uma jornada em defesa da educação popular, camponesa.

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