Ideologia empreendedora: um projeto incoerente com a universidade pública

DESACATO CFH

Artigo do Movimento Contra as Empresas Juniores no CFH:

Por Luís Giorgis Dias.

Nós, estudantes contrários às EJs, nos posicionamos de tal forma por entender que as Empresas Juniores (EJs) reproduzem e representam tanto uma pedagogia como uma filosofia de homem e sociedade que não são capazes de construir, dentro da universidade pública, o espírito crítico necessário para uma efetiva transformação social. Por que ousamos pautar isto?

Para entendermos melhor a crítica política feita às EJs, é preciso que nos enxerguemos dentro de um contexto. Vivemos nas últimas décadas uma série de iniciativas pertencentes a um movimento denominado “empresariamento”, que resulta, junto a outros fatores, na conjuntura político-econômica hegemônica denominada “neoliberalismo”, ou um retorno das teorias liberais de estado. O que fundamenta de início tal análise é o resgate durante os anos 90 das críticas ao Estado como financeiramente insuficiente, excessivamente burocrático e centralizador de serviços. Junto disso acontecia o alinhamento dos governos latino-americanos às “sugestões” – às quais se condicionava empréstimos e renegociações das dívidas externas – políticas e econômicas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e a efetivação de seus planos, segundo os quais o Estado deveria cada vez mais se desresponsabilizar de oferecer determinados serviços (educação e saúde, por exemplo) e passa-los à iniciativa privada, tornando-se nada mais que um regulador e fiscalizador entre os interesses públicos e privados. Especificamente na educação, pautava-se a necessidade de que o setor privado seja o principal investidor na produção de ciência e tecnologia, estando o caráter da formação e da produção científica e tecnológica determinados pelo mercado.

Se no plano político mais amplo temos a realização do liberalismo, num plano mais concreto observamos a realização destas mudanças através do impacto no trabalho. Junto das privatizações vem também a “flexibilização” das relações de trabalho, que na prática desembocam na terceirização e precarização, que tem como um de seus resultados, no subdesenvolvimento, o triste 4º lugar como país mais desigual no mundo [1]e péssima distribuição de renda. Será através de seu trabalho (ou não trabalho) que o trabalhador irá se deparar de imediato com estas mudanças econômicas. Neste momento, se faz necessário que se apresentem um conjunto de justificativas, de forma que o façam se submeter a estas novas condições e ingressar organicamente (no caso do capitalismo, passivamente e sem questionamentos) nesta nova configuração política e econômica. Como dizia Gramsci: não existe sistema econômico sem um sistema de ideias que o possa sustentar. É neste conjunto de ideias que se insere o empreendedorismo como forma de apaziguar problemas estruturais do país, igualando posições desiguais e reduzindo problemas estruturais à necessidade de capacitação profissional. Como o empreendedorismo faz isso?

Precisamos antes entender o que é o empreendedorismo. Ainda que seja um conceito multifacetado, o consenso entre boa parte dos pensadores sobre o conceito é de que o empreendedor seria um visionário que identifica oportunidades, arrisca-se e monta seu negócio, sendo esta última palavra propositalmente flexibilizada e que pode significar qualquer coisa: uma empresa ou um sonho pessoal. Um dos primeiros pensadores do empreendedorismo, chamado Schumpeter, apresentava o empreendedor como uma “peça chave” do capitalismo por ser o motor de inovação e competitividade[2]. Pensadores mais atuais como o brasileiro Dolabela e o MEJ apresentam o empreendedor como sujeito cidadão, responsável, atuante e preocupado com a situação do país e de sua comunidade. Vejamos o que diz Dolabella: “O empreendedorismo aborda a relação de oportunidade entre o individuo e o seu sonho, a sua visão, a sua ideia. […] o empreendedorismo pode ser visto como um instrumento auxiliar na construção da liberdade”[3]. Além de uma generalização e um montante de características e habilidades, o empreendedor se mostra, desde suas origens, orgânico ao modo de produção e como um modelo de se relacionar com a sociedade, ou seja: carrega em si um projeto de homem político e intenciona a construção de uma determinada sociabilidade e sociedade; ele impõe determinadas formas de relação com a sociedade.

Por ser orgânico e originário do ideário liberal, este conceito coloca limites e horizontes em uma formação profissional que atua através da “inovação”, que na prática é a legitimação e execução de um projeto liberal de sociedade. Para realizar este papel, o empreendedorismo atua em duas vias: produzir o consenso entre classes antagônicas e transformar problemas políticos e sociais em problemas individuais.

Ele atua na produção do consenso quando dissemina que qualquer um pode ser/se tornar um empreendedor, desde Alberto, que com 50 anos abriu uma banquinha de cachorro quente pra complementar a renda e ajudar sua netinha a ter um berço a até Roberto Justus, que gasta 500 mil reais para fechar o Hopi Hari e comemorar o aniversário de sua filha. Ambos possuem visão, lutaram pelos seus sonhos pessoais e correram o risco de empreender. Ainda que Alberto viva na favela junto de muitos outros companheiros em situação semelhante, pode orgulhar-se! Um dia, o fruto de seu trabalho seguramente o colocará em condição de igualdade com grandes empresários de sucesso, basta com que se esforce para isso. Pensamos que se faz desnecessário aprofundar a reflexão sobre o quão falaciosa é esta equalização de classes, uma vez que são muito improváveis as chances que Alberto e outro sem número de “empreendedores” cheguem ao nível de riqueza de grandes empresários através de sua árdua e exclusiva dedicação e “capacidade de inovar”.

A segunda forma que o empreendedorismo legitima o liberalismo perpassa pela ideia de que formar e disseminar o empreendedorismo capacita os indivíduos a melhores condições de competição diante do cenário do mercado. Tornar-se empreendedor seria aumentar suas chances de empregabilidade, cabendo a cada um exercer as diversas “virtudes” (em um estilo digno de “autoajuda”) do empreendedorismo e aprimorar-se cada vez mais, vindo a realizar continuamente seus sonhos e negócios, bem como disseminar o bem através destes e da educação empreendedora. Neste sentido, problemas estruturais agravados pelas medidas liberais como o subemprego e a desigualdade não são problemas a serem pensados dentro de seu contexto histórico, político e econômico. Diante disto se prega que ao contrário dos “pensadores”, o empreendedor se diferencia pela “ação”! Por pensar assim, o empresário acaba por ser vítima de seu pragmatismo e individualismo e vem a entender que estas condições serão solucionadas dentro dos marcos do empreendedorismo, através de capacitação para a competição e não através de seu questionamento. Ao fazer este resgate de uma antiga teoria denominada “teoria do capital humano”, também de origem liberal, problemas como subemprego, informalidade e desigualdade passam a se tornar uma questão individual de preparação para o mercado. Eles estão aí e é preciso remediá-los com mais educação empreendedora, que fomente características essenciais para competir e inovar no mercado de trabalho.

O agravante nisto tudo é que, como vimos, o empreendedor surge como proposta de um modelo de homem. Ele existe e é disseminado pelas próprias federações com a pretensão de formar empresários para “mudar” a sociedade. Mudar de forma empreendedora e liberal! Esta “mudança” seria através da inovação. A verdade é que não existe inovação empreendedora no Brasil. Primeiro, porque uma parcela significativa dos empreendedores brasileiros empreende pela necessidade e não pela oportunidade, ou seja: por razões socioeconômicas acabam empreendendo por não terem um trabalho e possuírem urgência em ter alguma renda e não por uma “ideia inovadora”.

Ainda que o SEBRAE, através do relatório chamado “Global Entrepreneurship Monitor” (GEM 2012)[4], considere que existam mais empreendedores por oportunidade do que por necessidade (42% empreenderam por necessidade), é visível que a maioria dos empreendedores “por oportunidade” está concentrada nas menores faixas de renda, o que é tido como “surpreendente” e atribuído ao “dinamismo da economia brasileira”. Para nós são evidentes que as razões são as mesmas dos empreendedores por necessidade, com o diferencial de que são pessoas que possuem alguma renda (47% dos empreendedores por oportunidade vivem com até 3 salários mínimos). O relatório corrobora com esta análise ao admitir que dos empreendimentos iniciais 98,9% não lidam com conhecimentos ou serviços inovadores ou novos; 43% não tem nenhuma expectativa de gerar empregos nos próximos 5 anos, seguido por 40% que pretendem gerar de 1 a 5 empregos nos próximos 5 anos; quase a totalidade dos empreendedores brasileiros não tem nenhuma inserção e destaque internacional. Se analisarmos os dados dos empreendimentos estabelecidos é ainda pior: 56% não pretendem gerar nenhum emprego. 100% dos empreendedores estabelecidos e 99,9% dos inicias não utilizam tecnologias novas.

Podemos seguramente concluir que o empreendedorismo aplicado à realidade brasileira não promove nada do que se propõe: não cria novidades, não é a solução do desemprego e não muda de forma significativa esta sociedade. Neste sentido, retomamos seu caráter ideológico: faz parte de um conjunto de ideias falaciosas e que, na prática, auxiliam na manutenção destas condições na medida em que se apresentam como “respostas” completamente ideais para elas e de nada conseguem resolve-las em sua essência.

Além de se colocar como solução falaciosa em termos de inovação, o empreendedorismo passa cada vez mais a fazer uso dos ditos “empreendimentos sociais” para se legitimar como ideal de homem transformador e fundamental para a sociedade. O empreendedorismo social seria pautado por ações “socialmente responsáveis” focadas em certo humanismo, solidariedade e responsabilidades ambientais. Os exemplos mais recorrentes para apresentar estes tipos de ação se dão através das Organizações Não Governamentais (ONGs) ou ações assistenciais e pontuais em comunidades carentes, em sua maioria sustentadas pela ideia da não lucratividade e voluntarismo. Se, de fato, em ONGs podemos falar em trabalho voluntário não é nisto que focamos nossa crítica. A crítica está novamente nos limites do empreendedorismo como conceito liberal e mantenedor das origens destas demandas por “mais solidariedade” da sociedade. Se entendermos, tal qual como o liberalismo, que os problemas sociais que vivemos têm em grande parte sua gênese na individualidade e responsabilidade de cada um, a abordagem de problemas fundamentalmente políticos e sociais como o tema ambiental ou da pobreza se tornam meramente oportunidades de empreender individualmente, criando negócios que deem conta de sanar estes problemas. Estes seriam resolvidos pelo voluntarismo assistencial, que pratica a solidariedade através de ações específicas. Seriam sanados pela educação empreendedora, ou seja: retornamos ao capital humano como forma de resolver problemas políticos e coletivos. Não se educa ambientalmente através do questionamento de planos diretores e grandes financiamentos privados pautando a organização da cidade, por exemplo; se educa na moral individual de cada um em, no seu lar, ajudar a preservar a natureza reciclando ou separando lixos. Isto é resolver um problema social? Pensamos que não. Não se entendermos nos encontramos dentro de uma universidade pública que tem como seu papel o de educar no horizonte de se chegar à raiz destes problemas. Sentir-se satisfeito com ações como estas no contexto universitário é só um efeito direto do individualismo liberal: eu fiz a “minha” parte.

Em suma: o empreendedorismo social transforma problemas políticos inerentes do subdesenvolvimento em oportunidades de negócio, onde cada um pode fazer sua parte e realizar seu sonho como cidadão responsável e solidário com as mazelas brasileiras, de preferência afetando positivamente seu “business” particular e/ou autoimagem, afinal, “não existe almoço grátis”. Não se atua na gênese destes temas, pois não interessa o questionamento sobre eles: em nosso mundo é preciso urgentemente fazer. Como afirmamos acima, o empreendedorismo cai vítima de si próprio quando se propõe a ser resolutivo dos problemas nacionais: por se negar ao questionamento, graças aos limites liberais de sua concepção, não só fica impedido de questionar o que é necessário como enquanto conjunto de ideias aliena as pessoas, pois as distancia do aspecto político e social de problemas compartilhados e os reduz ao campo do individual de cada um.

Só podemos concluir que o MEJ e as EJs, ao admitir que sua missão é difundir e aprofundar o empreendedorismo como forma de mudar o país[5], afirmam, ou melhor, reafirmam um projeto de sociedade em que os indivíduos passam a ser exclusivamente responsáveis pelos seus empregos, pelos problemas que sua comunidade vive e pela gradativa aplicação deste desmantelamento das políticas sociais e repasse delas para o privado. Tal qual como o sujeito mediano que acredita que o problema da corrupção se reduz a posturas individuais, também o empreendedorismo trata das condições nacionais precárias de vida e trabalho como uma simples ausência de autoconsciência de deveres cívicos e pessoais. Não existem relações estruturais nem desavenças de classe, seriamos todos empreendedores na constante necessidade individual de cada um de inovar o suficiente para executar as mudanças necessárias.

Levando em conta qual seria a função de uma universidade pública e seu papel essencial na formulação de conhecimento crítico e contextualizado, é incoerente que dentro de uma instituição de ensino superior pública se celebre a existência de EJs. É inadmissível que tenhamos nos rendido à ideia de que não existem alternativas ao que está dado para os dilemas sociais brasileiros sem ser capacitar cada vez mais os sujeitos a se responsabilizarem por si de problemas estruturais que extrapolam sua própria individualidade, sem fazê-los entender como, porque e de que forma ele foi parar nesta situação junto de uma parcela considerável da população. É impossível que estejamos caindo no conto liberal do Deus chamado Mercado e pautando nossa formação através dele. É impossível que estejamos aplicando soluções exógenas como as Empresas Juniores e achando que estamos revolucionando nossa formação, quando podemos pensar e efetivar outras formas para sanar insuficiências da graduação, sem nos limitarmos ao empresariamento e empreendedorismo! A função da filosofia não é afirmar o que está dado: é desvelar a complexidade da realidade e, diante de sua essência, ir direto aos pontos em que se conforma e se reproduz o indesejável e abrir espaço para germinar o novo. Será que vamos nos render a isto? Vamos realmente entender que a universidade pública e nacional precisa formar gente com este perfil? O povo brasileiro precisa disso?

[1] Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos – ONU Habitat 2012.

[2] DORNELAS, José Carlos Assis. Empreendedorismo: transformando idéias em negócios. 2001.

[3] DOLABELA, F. A Urgência do Empreendedorismo.

[4] <http://bis.sebrae.com.br/GestorRepositorio/ARQUIVOS_CHRONUS/bds/bds.nsf/9696c98c23d137fd0d8af1300d9742b0/$File/4226.pdf&gt;

[5] “Representar o Movimento Empresa Júnior brasileiro e potencializá-lo como agente de formação de empreendedores capazes de transformar o país.” – Missão do MEJ.

Foto: Reprodução/Movimento contra as empresas juniores no CFH

Fonte: Movimento Contra as Empresas Juniores no CFH

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