Identidade negra: Cultura afro-brasileira e diferenças na construção da história blumenauense são discutidas em documentário

29. Pai Pépe de Otolu e filhos da Casa de Caridade Baiano Zé Pelintra e Caboclo Tupinambá - Festa de Caboclo 2007. Fotografia Sally SatlerPor Carla Fernanda da Silva[1] e Ricardo Machado[2].

Com o objetivo de inserir o debate sobre a história e cultura afro-brasileira em Blumenau, foi produzido pelos historiadores Carla Fernanda da Silva, Ricardo Machado e Fabiele Lessa, o documentário “Cultura Negra: Identidade e Diferença em Blumenau”, com o apoio do fundo municipal de cultura. O documentário problematiza o tema da identidade e diferença para não cairmos nos lugares comuns e reforçar os estigmas e a perpetuação da exclusão. Esta discussão é urgente em uma cidade como Blumenau, onde a afirmação étnica é uma constante nos discursos políticos e culturais. O documentário foi distribuído em escolas municipais e estaduais de Blumenau, além de sua exibição e discussão com professores e acadêmicos durante o Seminário de Licenciaturas da FURB (2010), bem como no encontro de Cultura Negra promovido pelo Movimento Cisne Negro (2010), e também em dois encontros de formação de professores da rede estadual de ensino.
A identidade como problema
Nas últimas décadas assistimos surgir de diversos lugares um discurso que se coloca como “multicultural”, ou seja, que apresenta a diversidade cultural nos contextos globais e locais. Muitas vezes esta diversidade é demonstrada pela necessidade de “respeito ao diferente” e acaba por reforçar o exotismo e demarcar fronteiras ainda mais rígidas entre o “eu” e o “outro”. O desafio parece estar justamente em demonstrar a historicidade da construção da identidade regional, e, sobretudo, sobre a produção da diferença. É preciso, neste caso compreender a identidade dentro de suas implicações políticas que autorizam a produção de um discurso que circula nos espaços institucionais e informais relativos ao que nós somos e deixamos de ser.
No caso, a cidade de Blumenau parece ser um lugar fundamental para problematizar a disputa pela identidade. Afinal, desde os anos 1970 a cidade tomou para si a produção de um discurso sobre a germanidade. Nascido do turismo, o discurso germânico investiu nas definições estéticas da produção artística, na arquitetura, na organização do espaço urbano, e, sobretudo, deixou marcas em nossos corpos. Mais que tudo, este processo deinvenção das tradições, é também um processo de diferenciação que foi produzido através de relações de poder. Estas marcas construídas que definiram os limites entre o “nós” e “eles”, mas também entre “bons e maus”, e entre aqueles estão “incluídos e excluídos”. Afinal, “a identidade e a diferença não são, nunca inocentes”. (Stuart HALL. In Identidade e Diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2003.)
Discutir “cultura negra” em Blumenau é falar da história da produção desta identidade e sua capacidade de construção de pertencimento a história local e ao mesmo tempo sua negação através do discurso. Este contraponto não está em um passado imemorial, mas produziu-se neste processo histórico de normatização daidentidade na cidade. Afinal, um dos efeitos fundamentais das políticas identitárias produzidas pela germanidade, foi justamente a definição deste outro da diferença que passa a viver como um deslocado ou se reafirma dentro de outras fronteiras identitárias que também passaram a ser construídas no período.
Este é o ponto fundamental que exige problematização. Afinal, não nos basta promover e estimular “bons sentimentos” com a diversidade cultural, pois o que está em jogo aqui não é nem mesmo o respeito e a tolerância com o diferente. Não nos basta promover o exotismo e a curiosidade sobre a diferença que implicam ainda mais os elementos de distanciamento e dominação.
A criação do Documentário e a discussão da Cultura Negra
Antes de iniciar as entrevistas que compuseram o documentário, elaboramos um pequeno rol de perguntas: ‘O que é ser negro?’; ‘O que é ser negro em Blumenau?’; ‘Quais são os espaços de convívio e manifestação da cultura negra na cidade?’; ‘Você já foi vítima de preconceito?’. Nesse momento ainda tínhamos uma concepção do documentário como instrumento de debate e revelação da presença negra em uma cidade que foi proclamada ‘germânica’, esperando depoimentos baseados numa realidade dual, de mundos em confronto e um discurso pautado na história da escravidão.
 blumenews - confraria do samba park europeu
As respostas a primeira pergunta: ‘O que é ser negro?’ nos reportaram a uma nova discussão no documentário, não sedimentada numa noção preconcebida. A distância com que os povos são apresentados destaca o curioso, o exótico, reforçando a idéia de identidade em que o outro é aquele que não sou. A produção do documentário proporcionou um olhar de alteridade, a percepção do outro como um outro diferente daquele que indaga, pois experiências foram compartilhadas durante o processo de entrevistas. Destacam-se as experiências de alteridade que os entrevistados vivenciaram e que contribuíram para sua percepção de identidade, como recorda a musicista Noemi Kellermann: “Se vou recorrer a minha memória de infância, quem me disse assim – Tu és negra! – foram os outros. Sempre é assim, principalmente para a criança, que em seu convívio não vê muito a cor”. Neste depoimento percebe-se que a concepção de ser negro não pode ser compreendida a partir de uma noção naturalizada, mas sim de uma construção social.
Foi possível ampliarmos a discussão na entrevista com o escritor José Endoença Martins, que em sua fala reflete a literatura afrodescendente norte-americana de Toni Morrison, ao afirmar que: “ser negro é uma opção, você tem que querer ser negro. Então, isso implica numa posição em que você tem que assumir, mesmo que seja adversa aos seus interesses. Sendo uma opção, você pode fazê-la a qualquer momento. Não acredito que existe uma pessoa que seja vinte e quatro horas por dia e cem por cento negra, em todos os momentos. Ele vai ser negro em algumas situações, talvez mais negro em outras situações e vai ser menos negro em outras situações”.
A afirmação do ser negro enquanto opção é polêmica e provocadora. Polêmica porque num primeiro momento é impossível cogitar a cor da pele como uma opção, pois sempre relacionamos o ‘ser negro’ a uma condição natural, essencializada numa concepção biológica. Provocadora, porque transpõe o ‘ser negro’ para uma concepção cultural, construída na relação com o outro, ao mesmo tempo em que, sutilmente, revela a existência de uma referência do que é ‘ser negro’, uma identidade já constituída na sociedade e reivindicada quando se faz necessário. A opção se dá no momento de reivindicar esta identidade, pois são as relações que estabelecem essas necessidades, como refletiu Noemi Kellermann: “Essa identidade, esse sentimento de estar no mundo como negro, digamos assim, a gente vai desenvolvendo no decorrer do tempo. Porque o ser negro, e essa identidade de negro ela vai se configurando nessas relações que temos com as pessoas. E tu olhas para o teu interior e o que afinal você tem de diferente sendo negro? O que as pessoas vêem de diferente que as afasta ou aproxima. Porque tem as pessoas que se aproximam porque tu és negra, tem o fascínio pelo negro. E tem pessoas que se afastam por ter medo do diferente.”
As entrevistas apresentaram a necessidade de estabelecer uma diferença na forma de abordagem da cultura negra, ou seja, ir além do conteúdo continuamente abordado sobre a história africana e afrodescendente no Brasil, que por vezes limita-se ao processo de escravidão, a submissão do negro ao trabalho escravo e ao processo de abolição, em que os brancos libertam os escravos, ou seja, estuda-se a história africana e afrodescendente a partir da perspectiva de uma sociedade em que os negros estão sujeitos as decisões de outros, em que os mesmos não são protagonistas da história. Esta contínua representação do negro escravo e submisso se constituiu em banalização, ao invés de denúncia. E a banalização da servidão, da pobreza, da criminalização do negro, não contribui para uma discussão e uma ação afirmativa, mas sim reforçar o discurso que inferiorizou o negro por tantos séculos. Além da identidadenegra estabelecida, outro aspecto é relevante, que é o ser negro no Brasil, ser negro e brasileiro, pois são duas referências identitárias a serem requeridas, conforme destaca o professor Carlos Alberto Silva e Silva:
O negro brasileiro é um corpo que tem dualidades: primeiro de ser brasileiro; segundo que é ser negro com alguns estigmas. E esses estigmas vem a partir da história do Brasil. A ideia da submissão, do superior e do inferior, a ideia de uma raça menor. E os negros no Brasil, mesmo na atualidade, acabam tendo esses resquícios da pós escravidão. E que não somente o negro precisa lidar com isso, mas a sociedade de uma forma em geral. Se temos um país plural e essa diversidade é muito latente, é preciso então começar a entender, a trabalhar e organizar essa diversidade. Por isso o negro é corpo em dualidade: ele é mais brasileiro? Ele é mais negro? E por conta disso muitos negros procuram negar a sua negritude. E essa negação da negritude ela se constrói em função disso, porque se na história presente o negro é representado como servil, ninguém quer ser servil. Ninguém pensa em ser eternamente servil ou na condição de marginal.
Finalizado o documentário, o passo seguinte foi a sua exibição e discussão. Primeiramente foi preciso fazer com que os alunos/professores, ao assistirem o documentário, repensassem seu conceito de identidade, de forma que as identidades não fossem fixas (nós x eles), hierarquizadas, naturalizadas, mas sim em que fosse possível questionar a forma de perpetuação destas representações. Assim, desenvolvemos uma atividade pedagógica antes da apreciação do documentário, com intuito de envolvê-los na discussão de identidade e, ao mesmo tempo, pensar o que eles tinham como conceito de identidade. Divididos em grupos, receberam perguntas que deveriam responder, sendo estas: O que é ser branco? – O que é ser negro? – O que é ser índio? – O que é ser alemão? – O que é ser italiano? – O que é ser brasileiro? – perguntas aparentemente simples, mas que, em suas respostas, revelaram a dificuldade em estabelecer algumas respostas, como, por exemplo, para a pergunta – O que é ser branco? – e também revelaram como os conceitos naturalizados hierarquizam as culturas na sociedade.
Foi preciso questionar a forma como as culturas vêm sendo representadas em sala de aula e livros didáticos. Assim, ao conceber uma prática diferenciada, em que o aluno pode explorar novas possibilidades de pensar o diferente, permitiu compreender a diferença, sem querer conformar e entender o Outro a partir dos parâmetros da sua cultura, ou seja, compreender as identidades por suas multiplicidades. Somente após uma discussão da sedimentação da identidade é que foi exibido o primeiro trecho do documentário, que tem como título: O que é ser negro? E, após a exibição, foi possível realizar uma discussão da identidade e da diferença, conforme abordamos anteriormente. Assim, os alunos/professores puderam pensar no ser negro partindo do que os entrevistados propuseram; a negritude como uma opção e sua constituição a partir do convívio social, e não como um sedimentado conceito de identidade: “Ninguém nasce negro. O negro se transforma, acontece, vai se construindo à medida que mantém relações interpessoais, relações no meio, relações com outras situações, com a comunidade, com o próprio ambiente onde vive.” (José Endoença Martins).
09 - Pai Pépe de Otolu (entidade Caboclo Tupinambá; Ekédji Walkíria Sedrez; Ogã Marcelo Pires de Moraes - Festa de Caboclo - Janeiro de 2013 -Fotografia  Sally Satler
Ao diversificar as possibilidades de discussão da identidade e reelaborar as narrativas históricas permitiu-se trazer um outro olhar, para além do que os livros didáticos têm oferecido. O documentário também possibilitou deslocar o estudo dos livros e do mundo virtual, e trazer para sala de aula pessoas vinculadas ao movimento negro, à música, à capoeira e às religiões de matriz africana; permitindo a troca de experiência, estudando história a partir da vivência, percebendo essa história africana e afro-brasileira na contemporaneidade.
Jornal de Santa Catarina – 01 de outubro de 2013
http://www.clicrbs.com.br/jsc/sc/impressa/4,1124,4286224,22867
 


[1] Historiadora. Cursa doutorado em História pela Univ. Federal do Paraná – UFPR (bolsista CAPES). E-mail:[email protected]
[2] Historiador e professor da Univ. Federal Fronteira Sul (UFFS). Cursa doutorado em História Cultural pela UFSC. Email: [email protected]
Foto 1: 29. Pai Pépe de Otolu e filhos da Casa de Caridade Baiano Zé Pelintra e Caboclo Tupinambá – Festa de Caboclo 2007. Fotografia Sally Satler.
Foto 2: Blumenews – confraria do samba park europeu
Foto 3: 09 – Pai Pépe de Otolu (entidade Caboclo Tupinambá; Ekédji Walkíria Sedrez; Ogã Marcelo Pires de Moraes – Festa de Caboclo – Janeiro de 2013 -Fotografia  Sally Satler

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