História social do anarquismo brasileiro

Por Renato Ribeiro Pompeu.

Passado menos de um século do auge do anarquismo operário no Brasil, o que resta de memória dessa vasta movimentação, que em 1917 e 1919 chegou a duas das três únicas greves gerais na cidade de São Paulo (sendo a terceira a do Abono de Natal, hoje conhecido como 13.o salário, em 1962), está nos arquivos e em algumas iniciativas no mundo acadêmico.

Para falar a verdade, o próprio 13.o salário é tido pelas atuais gerações de trabalhadores como algo dado e óbvio, sem a lembrança de que foram necessárias lutas até sangrentas durante décadas para concretizá-lo como direito de todos os assalariados.

E os hoje esquecidos anarquistas contribuíram para a conquista de um marco muito mais importante, para os trabalhadores atuais, do que uma questão de salários: foram os anarquistas que forjaram no Brasil recém-saído da escravidão a noção de que o trabalho confere dignidade aos seres humanos. Os anarquistas organizaram o orgulho de pertencer à classe operária, fomentaram uma cultura operária brasileira, por meio de livros, jornais, revistas, saraus, sessões musicais, peças de teatro – tudo escrito e desempenhado pelos próprios trabalhadores. Particularmente, mulheres anarquistas foram as primeiras, no Brasil, a defenderem a independência de cada mulher, não só no que se refere ao trabalho e ao direito de escolher quando terá filhos, mas também no que se relaciona à própria liberdade sexual.

Ironicamente, os direitos que os anarquistas defendiam, a uma vida e um salário dignos, à limpeza pública, ao sanitarismo, à educação e à saúde, à liberdade de expressão, hoje desfrutados por uma grande parcela (longe de serem todos) dos trabalhadores brasileiros, são na atualidade, na prática, garantidos pelo Estado, tão abominado pelos anarquistas. Mesmo porque o poder do Estado burguês no País hoje é largamente exercido por sindicalistas e outros operários que, no entanto, não guardam memória de fato, nem histórica nem afetiva, de que seus benefícios são oriundos das lutas, dos sofrimentos e dos sonhos de trabalhadores hoje obscuros que lutaram durante décadas por uma sociedade sem classes, sem exploradores e sem explorados, sem oprimidos e sem opressores, autogovernada por todos os seus membros, sem um Estado que paire coercitivamente sobre essa sociedade.

Todos esses direitos, no entanto, estão hoje sob ameaça por mais uma incontrolável crise estrutural do capitalismo mundial. Mais e mais trabalhadores, em todo o planeta, estão perdendo o emprego, ou tiveram seus salários e benefícios sociais drasticamente reduzidos, em empregos a cada dia mais precários e insalubres. Por isso, e por muitos outros motivos, é importante cultivar a história social e fazer nascer a memória do que pensaram, do que fizeram e do que pensaram trabalhadores e trabalhadoras hoje de lembrança tão obscurecida. Pois sua noção de que a exploração não devia ser só amenizada, mas extinta – como era o objetivo dos antigos anarquistas –, está começando a entrar de novo na ordem do dia dos trabalhadores, embora os sentimentos de revolta estejam sendo mais aproveitados por populistas de direita do que por esquerdistas, cuja ala mais radical é a dos anarquistas.

Renato Ribeiro Pompeu é jornalista e acadêmico de história. Artigo escrito em 2011 e retirado de seu blog pessoal.
Fonte: Diário Liberdade.

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