Hal 9000, uma parábola da vida moderna

Por José Carlos Ruy.

O nome Hal, do computador rebelado de 2001 Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, tornou-se uma lenda lingüística: há os que garantem que a sigla refere-se à gigante IBM, fabricante de computadores. É uma lenda engenhosa, segundo a qual cada letra do nome Hal, antecede no alfabeto aquelas que formam a sigla IBM (H antes do I, A antes do B e L antes do M).
Mesmo que o autor do roteiro, Arthur Clark, a tenha desmentido, é uma lenda que tem sentido.

A IBM, maior fabricante mundial de computadores – que, desde a década de 1990 enfrenta concorrência acirrada da Microsoft e da Apple – era então sinônimo de computador. E o Hal (Hal 9000), protagonista não humano de “2001, Uma odisseia no espaço”, virou sinônimo de inteligência artificial. Não foi a primeira vez, nem a última, que o cinema usou máquinas inteligentes para figurar ameaças aos seres humanos. Ele descende do alemão Metrópolis, de Fritz Lang (1927), e tem seguidores ilustres que proliferaram desde “2001 Uma Odisséia no Espaço”, entre eles “A.I. – Inteligência Artificial”, (2001), de Steven Spielberg, por sugestão de Stanley Kubrick, que participou da realização.

Hal 9000 se distingue entre os computadores-protagonistas. Descrito como “infalível e incapaz de erro”, imune às imperfeições cometidas pela mente humana, ele é a encarnação dos mitos da inteligência artificial e representa, nesse sentido, o temido domínio das máquinas sobre os homens. É o computador que controla a Discovery, a nave espacial onde transcorre a trama de 2001. Fala, ouve, vê, interpreta a leitura labial, toma decisões, canta, etc., etc. etc. Mas sua inteligência complexa e avançada, similar à inteligência dos homens, tem limitações semelhantes a esta, geradas pela mesma unidade entre razão e emoção que se nota na inteligência dos seres humanos e estão na base de muitas de suas avaliações “errôneas”. Isto é, não exatas como uma máquina programada para “pensar”. Deste ponto de vista, a “inteligência” de Hal não é a de uma máquina, dura e exata, mas diversa e cambiante como o pensamento dos homens. Ele próprio, num certo momento, confessa ao astronauta Dave Bowman ter medo. Medo de ser desconectado (de morrer, podemos pensar). Esse medo explica sua loucura, sua paranóia – seu “comportamento” imprevisto e destruidor, que resulta nas mortes dos astronautas Frank Poole e dos outros três que estavam em estado de hibernação durante aquela viagem espacial.

Este lendário Hal é protagonista de uma parábola que tem muito a dizer hoje, meio século após sua aparição nos cinemas.

O gigantesco avanço tecnológico antevisto pela genialidade de Kubrick e Clark tornou aquela lenda quase real. Lá estão, em 2001, coisas tão modernas e hoje corriqueiras como a comunicação instantânea (há ali uma antecipação mesmo do skype) e de tantos aspectos da informatização atual da vida – que tem, nos algoritmos que a suportam, elementos de inteligência artificial quase tão evoluídos como aqueles que Hal tinha. Esta é a parábola do domínio exercido pelos computadores, e que em grande parte vivemos hoje.

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