Grupos teatrais do Nordeste lutam contra o desmonte bolsonarista

Circuitos, festivais e editais foram extintos no Nordeste, que ainda não criou política pública para manter as estruturas do teatro de grupo

Imagem: Pixabay.

Por Eduardo Nunomura.

“Os outros têm sempre muitas certezas, muitas verdades. Eles sempre querem que a gente seja o que a gente ‘nasceu pra ser’, no lugar que a gente ‘nasceu pra ficar’. Eu acreditei nisso por muito tempo. Por muito tempo o Nordeste era eu. Eu carregava comigo uma região. Você sabe o que é você carregar uma região no corpo? Na fala? Quem botou essa região em mim? Será que fui eu mesmo? Hoje, eu não tenho certezas. Elas foram queimadas pela história.”

Essa fala é do personagem Mateus, do espetáculo A Invenção do Nordeste, do Grupo Carmin. Serviria de lição a Jair Bolsonaro não fosse ele um cultuador da ignorância. Criado em 2007, o Carmin faz parte de uma das dezenas de companhias em atividade no Nordeste que produzem algumas das montagens recentes mais inovadoras do País. É do Rio Grande do Norte, mas há também companhias do Ceará, Pernambuco, Bahia, Maranhão, Piauí, Sergipe, Alagoas e da Paraíba, e nenhuma “de paraíba”.

A Invenção do Nordeste furou a bolha das principais premiações teatrais, conquistando os cobiçados prêmios Shell e Cesgranrio, no ano passado. Em geral, montagens de companhias de São Paulo e do Rio de Janeiro monopolizam esses prêmios. A peça, criada a partir do livro homônimo de Durval Muniz de Albuquerque Jr., explica, de forma bem-humorada, que a questão do regionalismo ainda se faz presente, porém é preciso questioná-la. A produção cultural da região é muito mais ampla para caber apenas no gentílico “nordestino”, ou preconceituosamente no “de paraíba”, como Bolsonaro se refere ao povo dos nove estados que não votaram majoritariamente nele. “Existe uma diversidade cultural, mas foi forjada por uma elite e que tem função econômica e política, só que ela não nos serve mais”, diz o ator Mateus Cardoso. “O Nordeste contemporâneo não quer ficar nas rédeas do ‘coronel’ Bolsonaro”, completa Quitéria Kelly, diretora do espetáculo.

O diretor Fernando Yamamoto, um dos fundadores do Clowns de Shakespeare, outro grupo potiguar, afirma que não existe uma cena nordestina como construção estética. Há desde grupos que se filiam a uma linguagem tradicional, como a da cultura sertaneja, até outros que fazem produções mais contemporâneas. “Os estados da região são muito diferentes, com sotaques e culturas distintos. Mas há um desejo muito grande de ser ‘teatro nordestino’ no sentido de haver compartilhamento entre nós, e de uma forma muito potente”, explica. Um desses compartilhamentos aconteceu com o grupo cearense Bagaceira, no projeto .De_En.Con.Tro. O intercâmbio possibilitou a produção de intervenções cênicas montadas, simultaneamente, em Natal e Fortaleza, dentro de espaços públicos, entre abril e maio. O ambicioso projeto procurou refletir sobre a relação entre margem e centro, sobre o direito às cidades e sobre a ocupação delas.

“O teatro feito no Nordeste quebra todos os paradigmas do que se pensa sobre a região, essa imagem petrificada pela grande mídia e perpetuada por comentários preconceituosos como os do ‘nosso presidente’”, afirma Rogerio Mesquita, ator e produtor do Bagaceira. “Conseguimos colocar a nossa voz sertaneja e urbana para o resto do Brasil. Isso, além do teatro, reflete na música e no cinema que estão mostrando um Nordeste que vai contra aquela visão tão engessada que a televisão força para o resto da população.” Em parceria com a produtora audiovisual Alumbramento, o grupo lançou ainda o filme Inferninho, que circulou por festivais internacionais e recebeu prêmios de melhor filme em Portugal, no Recife e no Rio. A história tem como protagonista a travesti Deusimar, dona do bar que dá título ao filme e serve de local para os clientes viverem suas fantasias sem restrições, distante do mundo opressor fora dali.

Foi do caldeirão do Nordeste que emergiram movimentos fundamentais para a cultura brasileira, como o Cinema Novo, capitaneado pelo baiano Glauber Rocha, a Tropicália, liderada pelos baianos Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Tom Zé e pelo piauiense Torquato Neto, e o manguebit, do pernambucano Chico Science. Incluem-se nessa seleta lista produções recentes, obras como A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, do cearense Karim Aïnouz, e Bacurau, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, ambos premiados na última edição do Festival de Cannes. Na atual cena, o teatro luta para criar seu  espaço original e inovador dentro das artes, mas não sem percalços.

O Bagaceira completa em 2020 duas décadas de trabalhos autorais, com o espetáculo Névoa, feito em parceria com o dramaturgo Alexandre Dal Farra. “É assim que nós enxergamos o Brasil, um grande nevoeiro que não sabemos onde vai dar”, explica Mesquita, que teme pelo futuro do grupo dono de um repertório com 18 espetáculos, um curta e um longa-metragem. “A sensação é de que não passaremos dessa marca. Parece fatalista, mas é a realidade.” Com um edital de 2017, circulou por Natal, Uberlândia e Goiânia com a peça Fishman, e estreou Sr. Ventilador. A partir deste mês, o grupo não tem mais nada garantido. Em 16 de julho, o Grupo A Outra, de Salvador, anunciou o fim de 15 anos de atividades, com 16 espetáculos no repertório. “Parcelas de uma conta que não tem fechado há mais de um ano, agravada diante do atual contexto, onde arte e cultura encontram-se alvejados por agentes dotados de um conservadorismo e uma acumulada mágoa diante dos múltiplos lugares de fala e existência de empoderados nas últimas frentes governamentais”, despediu-se a companhia, em nota.

“O Magiluth surgiu no primeiro mandato de Lula e o crescimento do grupo tem a ver com o aumento das políticas públicas, não tem como negar isso”, explica o integrante Giordano Castro. Formado em 2004 por alunos do curso de artes cênicas da Universidade Federal de Pernambuco, o Magiluth soma-se a grupos teatrais contemporâneos do Nordeste, como o Coletivo Angu (surgido em 2003, no Recife), o Coletivo Alfenim e o Ser Tão Teatro (ambos de 2007, em João Pessoa), Bololô Cia Cênica (2010, Natal), Teatro Máquina (2008, Fortaleza), Cia Pão Doce (2002, Mossoró), que escaparam da cartilha do tradicionalismo cultural.

“O Nordeste contemporâneo não quer ficar nas rédeas do ‘coronel’ Bolsonaro”, diz a diretora Quitéria Kelly

O Grupo Magiluth tem circulado pelo Sudeste para conseguir ganhar visibilidade. “Logo depois do golpe (do impeachment), virou um salve-se quem puder. E o lugar de sobrevivência é o Sesc”, afirma Giordano Castro, que vê com preocupação a redução de investimentos na cultura pelo governo pernambucano. Circuitos, festivais e editais foram extintos em tempos recentes, e os que restaram, não raras vezes, direcionam os recursos para privilegiar espetáculos que contemplem obras folclóricas ou nomes tradicionais da cultura nordestina, como Ariano Suassuna ou Câmara Cascudo. E, cobram as companhias, não há política pública nos estados do Nordeste para manter as estruturas do teatro de grupo. Foi com o apoio do fomento, no Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, que o Magiluth criou a vigorosa produção O Ano em Que Sonhamos Perigosamente, espetáculo de 2015 que investigava os manifestantes dos movimentos Occupy Wall Street, Ocupe Estelita e Primavera Árabe. Na semana passada, esteve no Rio, com a peça Dinamarca, que passou antes por São Paulo. Na capital paulista realizou, em março, uma residência artística e comemorou 15 anos com a estreia de sua décima montagem, Apenas o Fim do Mundo, do  francês Jean-Luc Lagarce.

O Grupo Carmin também precisou ser criativo para poder circular pelo País com A Invenção do Nordeste. Foi com os recursos do espetáculo anterior, Jacy, obra de teatro documental sobre a Segunda Guerra em Natal, que a companhia conseguiu juntar 50 mil reais. A próxima montagem do Carmin será sobre a classe média, dialogando com a obra do sociólogo potiguar Jessé Souza. A chegada de uma nova leva de governadores progressistas no Nordeste não trouxe, ainda, o alento tão esperado pelos artistas. “A Fátima Bezerra (PT) pegou um estado arrombado, tentando dialogar com a classe, mas não tem dinheiro”, resigna-se a diretora Quitéria, acrescentando que, no Rio Grande do Norte, a luta ainda é para formar público e ter mais teatros para se apresentar. Atualmente, há apenas dois, e nenhum deles totalmente adequado para as montagens teatrais.

Circuitos, festivais e editais foram extintos no Nordeste, que ainda não criou política pública para manter as estruturas do teatro de grupo

“É óbvio que o desmonte traz desarticulação, porque quanto mais temos que trabalhar, nos virar para manter os grupos, mais difícil fica para se mobilizar politicamente”, acrescenta Yamamoto, do Clowns de Shakespeare. “O fato de estar no Nordeste nos dá alguma ‘tranquilidade’, ou pelo menos uma situação menos radical.” O grupo está em viagem por Equador e Peru, para onde levou o projeto Boi Vagamundo, criado em 2015. Nesses países, realiza laboratórios com artistas latino-americanos a partir da pesquisa das brincadeiras do boi pernambucanas, potiguares e maranhenses. Ainda neste ano, a companhia visitará a Colômbia. O Nordeste é mais Brasil do que nunca.

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