Grupo ND e o ópio do povo. Por Fernando Calheiros.

Imagem: Reprodução, via Fernando Calheiros.

Por Fernando Calheiros, para Desacato. info.

Mais uma vez a diplomada ignorância e o notório analfabetismo urbanístico se juntam ao ódio de classe para atacar os pobres da grande Florianópolis. Trata-se de mais um embuste promovido pelo Grupo ND, filiado à indústria da fé do bispo e empresário Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da Record, grupo que não mais satisfeito em explorar financeiramente os fiéis, busca agora criminalizá-los por sua condição precária de moradia e de pobreza.

O pretenso RelatórioND [1] com foco nas “invasões irregulares” busca associar mais uma vez de forma leviana a origem do “caos urbano” da grande Florianópolis às populações periféricas. Através do velho discurso de guerra ao tráfico, as matérias produzidas e propagandeadas pelo que há de mais tacanho e reacionário no jornalismo catarinense, buscam legitimar as ações policiais violentas e arbitrárias que se intensificaram nas comunidades por meio da derrubada de casas, agressões e intimidações aos moradores. Violência que vem crescendo na conjuntura de pandemia, aumentando ainda mais a insegurança, impunidade e violações de direitos.

O ataque promovido contra as populações mais vulneráveis não será inócuo, pois, ao mesmo tempo em que vai buscar transformar os culpados em vítimas, passando o pano para a prefeitura e para os verdadeiros criminosos, devedores e usurpadores de terras públicas; vai também, de modo dissimulado e perverso, buscar transformar as vítimas em culpados, transferindo a culpa da falta de políticas habitacionais e da histórica grilagem de terras promovida pelas elites às populações empobrecidas da região.

Lembremos aqui das origens dos problemas fundiário e habitacional da região que, além da vinculação junto ao processo originário de acumulação e de expropriação dos pequenos produtores, vai apresentar particularidades próprias de ocupação do solo que abarcarão desde a apropriação das áreas de uso comum pelas classes mais abastadas; passando pela entrega de terras públicas através da maquiada “reforma agrária” realizada pelo IRASC no período ditatorial; chegando ao contexto atual de avanço das agendas e pautas neoliberais e do processo de financeirização da terra e moradia no país, conjuntura que vai proporcionar um agravamento da precarização habitacional. Trata-se, de modo geral, do processo histórico de mercantilização e apropriação da terra pelo grupos políticos e econômicos dominantes, processo que vai acabar inviabilizando o acesso de grande parcela dos trabalhadores de baixa renda ao solo e também à moradia no município de Florianópolis.

No que se refere ao conteúdo do relatório publicado, esse não faz mais do que ratificar a defesa ao modelo autoritário, elitista e segregador de cidade, o qual visa transformar a capital catarinense numa meca das elites locais e internacionais. Contudo, para que esse projeto elitista se torne cada vez mais concreto e hegemônico, é preciso excluir o máximo de populações não solváveis da cidade, ou seja, os setores mais empobrecidos da classe trabalhadora, que por sua condição de exploração e miséria não conseguem se enquadrar nos padrões de consumo estabelecidos pelas elites.

Servindo como lacaios e bocas de aluguel de especuladores, construtores e agentes ligados ao capital imobiliário, os diversos colunistas do “Relatório ND” buscam a todo custo atacar os mais vulneráveis, uma vez que, além de tornarem-se uma “paisagem indesejável” para a cidade, acabam inviabilizando as possibilidades de lucro e renda do mercado imobiliário, transformando-se, por esse motivo, em inimigos da ordem e promotores do caos urbano.

No entanto, nem um pio quando o assunto diz respeito à apropriação ilegal de terras e crimes ambientais cometidos pelas elites locais, essas que diferentemente do pobres, podem escolher aonde vão construir seus empreendimentos de alto padrão e, que por opção, escolhem os localizações privilegiadas, de área de preservação permanente, na beira da praia, privatizando e comprometendo o bem público e o meio ambiente. Nota-se, portanto, a partir da parcialidade dos noticiários, do pretenso relatório e dos comentaristas abomináveis, o nível de intolerância, perversidade e preconceito de classe na hora de discutir sobre a problemática urbana.

Trata-se, sem dúvida, de uma guerra declarada aos pobres da grande Florianópolis. Essa que, mesmo diante do avanço da pandemia na região não parou um só minuto. Ao contrário, valendo-se da lógica de “passar a boiada”, enquanto os holofotes e atenções estão todos voltados ao controle e combate do vírus as prefeituras locais, apoiada pela mídia empresarial, aproveitam o momento de fragilidade para intensificar ainda mais as práticas de segregação e violência contra as populações mais empobrecidas da região.

É inadmissível que as populações empobrecidas continuem sendo tratadas com tamanho preconceito e violência por parte da grupo ND. Nenhuma ação, sobretudo as que ignoram processos jurídicos e a própria constituição, pode justificar a derrubada de casas e agressões contra o povo trabalhador das periferias, tão essencial nesse momento de crise sanitária e ao mesmo tempo tão reprimido e violentado.

Fiel porta-voz dos interesses empresariais e da indústria da fé, o grupo ND agora se volta contra parte dos próprios fiéis da Universal, povo sofrido das periferias, favelas e ocupações, que muitas vezes deixam de comer para alimentar a fome insaciável da igreja por dinheiro e poder. Por trás dessa aparente contradição, revela-se a contraface perversa e cruel do grupo RECORD comandado por Edir Macedo, que além de lucrar com a exploração da fé, alimentado a situação de vulnerabilidade e pobreza dos fiéis, agora também busca criminalizá-los por sua condição precária de moradia e de pobreza. Eis o ópio do povo!

[1] Relatório ND: Invasão define o caos urbano na região central de Florianópolis

https://ndmais.com.br/infraestrutura/dossie-nd-invasao-define-o-caos-urbano-na-regiao-central-de florianopolis/?fbclid=IwAR3Be_9L6gChTvqu2EkLDRmBuZg4OFUm8AZfeR35wZywrJJ_Kd5Whtvlptc

Relatório ND: A nova rocinha não é aqui em Florianópolis

https://ndmais.com.br/infraestrutura/dossie-nd-a-nova-rocinha-nao-e-aqui-em-florianopolis/

Cidade ameaçada: as construções clandestinas em Florianópolis

https://www.youtube.com/watch?time_continue=11&v=zoMkmYldRzc&feature=emb_title

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Fernando Calheiros é cientista social e professor da rede pública. Atualmente cursa mestrado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina.

 

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