Gracias Comandante!

Gracias Comandante!

Por Raul Fitipaldi, para Desacato.info

Quero falar de você.

            Esta dignidade eterna que abriga tua imagem de Comandante, te leve ou te deixe, estará como sempre esteve, neste coração meu. – Coração de pobre afortunado que peregrinou mais de 50 anos observando-te à distância, com esse respeito que a igreja nunca me ganhou para seus santos, seus anjos e suas beatas de levante. Esta inteligência eterna que sustenta teu cérebro universal e que não te levarás nunca, porque é o legado mais transcendente dado aos que atravessamos do século XX até este milênio em que derrotaremos os possuídos do ébrio leviatã que nunca conseguiu te dar morte. Esta beleza tua comparável à de Withman pela altura e o porte, à do Che pela rica ironia e a firmeza de convicções, à de Lorca pela poesia utópica, à de Martí pela estela libertária, à do Condor pela lucidez do vôo, à do puma pela sagaz estratégia em cada passo…, à beleza do nosso sonho continuo e conseqüente de liberdade.

            (Meu pai que não sabia de missas nem de evangelhos, que nasceu da pobreza mais funda e se criou na rua, dormindo em caixotes de maçã no mercado, menino de rua que com esforço um dia conseguiu rascunhar algumas letras; que se chamava Eusébio e não conhecia Gramsci, e que algo sabia de Artigas, acendia um lume de glória entre os olhos, quando nas greves do fumo em Montevidéu brandia o punho cansado de amansar milicos e proclamava: Viva Fidel! Não falava da “Frente Izquierda De Liberación”. Proclamava sobre ti Comandante: braço em alto, camisa branca, agitando a greve, afugentando pelegos. Quando eu menino, quando eu acamado, revistas muitas com tua foto misturavam-se na colcha do leito. A União Soviética comprava açúcar ainda e tu aparecias na Revista URSS que se vendia de a três números nos ônibus da cidade. A revista tinha belas meninas de olhos verdes, cinzas e azuis na capa, caucásicas e de cabelos ensolarados. Foram minhas primeiras namoradas; minhas solitárias amigas quando a asma batia pra valer. Meu pai te trazia pra dentro da casa e minha mãe não gostava: não era uma atitude cristã te colocar do lado do catecismo.)

            Um dia morreram o primeiro Kennedy e o segundo, e se morreu João XXIII, e as mulheres e crianças foram obrigadas a chorar por ordem da Associated Press, da Reuter, da EFE, dos jornais, das rádios e das redes mercenárias que tantos filhos deram aos vermes de Miami. Esses que hoje passeiam de helicóptero para não se misturar com o populacho, em Buenos Aires, Cidade de México ou São Paulo, e que gozaram da Grana Doce das Ditaduras. Mas, quando assassinaram o Che, quiseram obrigar-nos a festejar para compartir sua momentânea alegria. Os idiotas queriam que ríssemos e eu chorei, porque aos doze anos tinha lágrimas de verdade para duelar a perda de um amigo, aquelas que não precisava ter (e não teve) quando as mulheres e as crianças choravam no dia da morte dos derrotados da Baia de Cochinos. E a alegria dos vermes e desses governos raivosos que continuam matando tragicamente seus escravos não libertos e roendo seus mortos insepultos durou pouco. Quando o milico rojava suas balas contra o corpo do teu irmão argentino-cubano, de teu companheiro, e companheiro do Camilo e do Raul, ele abriu os olhos para ressuscitar e se negar a subir aos céus para ficar para sempre conosco e contigo, com Cuba e com a América Latina, com o Vietnã e com a África. E ficou vivo para esperar tua vida definitiva que um dia vai chegar. Que se chega agora me fará perder umas lágrimas, que se chega amanhã me fará perder as mesmas lágrimas, que só para ti estão reservadas Comandante.

            Contigo quero falar Comandante para te dizer que podes ir tranqüilo se o entendes peremptório; que estou a defender tua casa como tens defendido minhas utopias a cada dia desta modesta vivência que me outorgaram. Quero contigo falar para te dizer que não me preocupa se não precises mais deste ar que respiras, porque apenas significará um detalhe mais de austeridade na tua mínima pertence. Sei que teu sábio ar será usado por uma criança livre que andará pelas savanas da Venezuela, na Serra Maestra que tu abençoas-te de liberdade, nas praias sujas da melancólica Montevidéu, ou pela cintura colorida que beira o Cristo Redentor fazendo-lhe corar as íngremes pálpebras de cimento. Quero falar-te Comandante para te dizer que nunca me faltarás, porque, como quando eu criança, sempre estarás comigo.

 

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