‘Governos estão fazendo coisas secretamente e público deve saber’

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Por Silvia Font.*

A esta altura do campeonato, quem não sabe quem é Edward Snowden? Sua denúncia do sistema de espionagem em massa utilizado pela Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos contra governos, empresas e até mesmo seus próprios cidadãos passou para a história como a maior infiltração já publicada de um trabalhador do serviço de inteligência.  E se temos de agradecer a mais alguém além de Snowden, é a Laura Poitras, documentarista norte-americana estabelecida em Berlim, escolhida pelo próprio para tornar sua história pública, “independentemente do que lhe acontecesse”. Ela, também arriscando sua vida, aceitou.

Durante mais de cinco meses os dois mantiveram contato criptografado até que, em junho de 2013, decidiram se encontrar em um quarto de hotel em Hong Kong, em que estavam presentes também os jornalistas Glenn Greenwald e Ewan MacAskill. Ali, durante oito dias de tensão, Poitras se colocou atrás da câmera, dispondo-se a filmar um documentário quase tão revelador quanto as informações que estavam prestes a ser reveladas: tratam-se dos bastidores dos preparativos para a publicação da bomba jornalística que finalmente levaria Snowden ao exílio em Moscou, onde vive temporariamente em asilo político.

“Citizenfour” estreou em outubro de 2014 em Nova York e desde então tem girado o mundo e recolhido prêmios em festivais de cinema. Na entrevista a seguir, Poitras fala sobre a aproximação entre ela e Snowden e a gravação do documentário. Longe de reconstruir ou recriar uma suposta realidade, “Citizenfour” é o registro de um pedaço da história do século 21 que marcou um antes e um depois na credibilidade dos EUA como potência política internacional.

Quando começou seu interesse pelo tema da vigilância?

Já faz muito tempo, quando eu estava trabalhando em meus últimos documentários, centrados nos EUA pós 11 de setembro. A vigilância estava sendo usada na chamada “guerra ao terror”, pouco após os atentados em Nova York, quando começaram a espionar praticamente todos os cidadãos dos EUA. Antes, eu havia feito um filme sobre a ocupação do Iraque (“My Country My Country”) e outro sobre Guantánamo (“The Oath”). No último filme em que estava trabalhando [Poitras se mudou para Berlim em 2012 para editar de forma segura o material do que seria a última parte de sua trilogia pós-11 de setembro] queria trazer a história de volta aos EUA, já que o foco era em como estava sendo desenvolvida a “guerra contra o terrorismo” no país.

Mas eu também tinha um interesse pessoal porque meu nome figura em uma lista de vigilância e já há muitos anos, desde 2006, após eu ter filmado no Iraque, me abordam na fronteira toda vez que viajo.

Seus trabalhos prévios sobre vigilância e seus conhecimentos sobre comunicação criptografada foram decisivos para que Snowden decidisse que você seria a jornalista que revelaria seu segredo. Como foi o primeiro contato, em janeiro de 2013?

Por sorte, eu já usava PGP [programa de encriptação de dados]. Ele me escreveu e pediu que lhe mandasse minha ‘chave’, eu mandei e perguntei quem era e o que queria. Ele me disse então que trabalhava para a agência de inteligência e que tinha algumas informações. Disse que seria perigoso, mas queria que, não importando o que acontecesse a ele, eu revelasse todas as informações.

O que você pensou quando recebeu estas primeiras mensagens?

Eu já estava trabalhando há algum tempo com o tema da vigilância e sabia que, se era verdade o que ele estava dizendo, seria uma pauta importante e poderia de fato ser perigoso tanto para ele, quanto para mim. Mas em momento algum senti qualquer parte de mim dizendo “mantenha-se longe disto”. Tendo estado envolvida com o assunto há bastante tempo, sabendo que meu nome constava em uma lista de vigilância e tendo sido parada na fronteira tantas vezes, creio que, de algum modo, já tomei a decisão de não me sentir intimidada, de fazer meu trabalho e de me ocupar com o que é feito pelo governo.

Acredito que este tipo de jornalismo é necessário, especialmente no contexto do que está ocorrendo atualmente nos EUA. Tenho a sensação de que muitos meios de comunicação de grande porte falharam com o público, e por isso é tão importante que existam jornalistas que façam perguntas incômodas e exijam satisfações do governo. Eu já estava determinada a fazer isso, de modo que, quando Snowden me contatou, fiquei preocupada, mas estava determinada.

E, na sequência, Glenn Greenward também entrou em cena.

Sim, Glenn foi fantástico, muito corajoso e não teve nenhuma dúvida de que queria ser parte do que estava acontecendo. Em fevereiro de 2013, Snowden me disse que as informações exigiriam que mais de uma pessoa trabalhasse na publicação, recomendando que eu contasse com Glenn. Ele estava então no Rio de Janeiro e eu não podia falar sobre isso por e-mail com absolutamente ninguém, só o faria pessoalmente. Apenas em abril de 2013 foi possível nos encontrarmos em Nova York, quando eu pude explicar o que estava acontecendo e propus um trabalho conjunto. Ele disse sim imediatamente, sem hesitar.

No entanto, ele voltou ao Rio sem saber usar criptografia e isso foi um grande problema, já que o encontro [com Snowden] estava cada vez mais próximo e eu não podia lhe dar detalhes. Eu não sabia exatamente quando aconteceria, e em maio voltei aos Estados Unidos esperando descobrir onde seria. Durante todo este tempo eu dizia a Glenn que tínhamos que nos falar, que eu tinha que lhe contar o que estava acontecendo, mas eu não queria dizer muita coisa, já que tinha medo de que minhas mensagens fossem interceptadas. Finalmente, ele entrou em contato diretamente com Snowden através do chat criptografado.

*El Diario | Amsterdã.

Fonte: Ópera Mundi

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