Golpe no Golpe: os alquimistas estão chegando

Por Samuel Lima, para Desacato.info.

A divulgação do conteúdo da primeira, de mais de 70 delações de executivos da Odebrecht, considerada a “Delação do Fim do Mundo” é o fato político mais contundente deste longo e doloroso ano de 2016. Talvez não seja o “fim do mundo”, mas certamente contribuirá, decisivamente, para dar fim breve ao (des) governo de Mr. Fora Temer.

O núcleo político do governo está envolvido: Michel Temer, Eliseu Padilha, o Primo (Casa Civil), Moreira Franco, o Angorá (Secretário do Programa de Parcerias em Investimentos), José Yunes (Assessor especial da Presidência da República), Romero Jucá, o Caju (líder do Governo no Senado) entre outros. Veja a lista completa aqui, com nome e criativos codinomes: http://wp.me/p4tIIo-BW8

Com efeito, as pedras do Palácio do Planalto e arredores da Praça dos Três Poderes estão agitadas neste começo de semana, pós-delação de Cláudio Melo Filho, ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht. Um clima de “salve-se quem puder”, ou como a gente dizia nos meus tempos de Banco do Brasil: “atiraram no galinheiro”. Os alquimistas, que estavam chegando, buscam um reposicionamento no imponderável tabuleiro de xadrez a céu aberto no qual se tornou o cenário político – e midiático, por consequência – brasileiro.

Uma mirada sobre Folha e Estadão

Faço aqui uma brevíssima observação sobre a cobertura da delação de Melo Filho, a partir das capas dos dois principais jornais diários impressos do país: Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, nas edições de 10, 11 e 12 de dezembro, os dias subsequentes ao vazamento (na mídia jornalística, de maneira geral) dos termos da delação do ex-executivo da Odebrecht.

O dia seguinte foi inteiramente dedicado ao “espanto”, como o/a leitor/a pode conferir a seguir. A Fcaixa-2olha caprichou na dissimulação, como é próprio quando se trata de noticiar maus feitos dos “amigos”: “Odebrecht diz ter pago caixa 2 em empesa de amigo de Temer” (veja Capa ao lado, ed. 10/12, sábado). Eis uma manchete que primou pela falta de clareza que o distinto público só encontraria lendo o abre da matéria interna.

O repórter Leandro Colon, diretor da Sucursal da Folha em Brasília, escreveu: “Um ex-executivo da empreiteira Odebrecht afirmou em acordo de delação premiada que entregou em 2014 dinheiro no escritório de advocacia de José Yunes, amigo e assessor do presidente Michel Temer. O site de notícias BuzzFeed divulgou o material nesta sexta-feira (9). A Folha confirmou seu conteúdo e teve acesso às informações” (Fonte: http://migre.me/vIwK9).

Veja, caríssimo/a leitor/a, que a Folha admite ter sido “furada” pelo site de notícias BuzzFeed.delator

Enquanto isso, o Estadão (ed. 10/12) caprichou na imagem  de um Temer de rosto crispado, sob o peso da manchete: “Delator da Odebrecht cita Temer e cúpula do PMDB”. No texto, assinado pelas jornalistas Andreza Matai e Beatriz Bulla (de Brasília), um abre direto ao ponto, sem mais delongas: “O ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht afirmou, em anexo entregue ao Ministério Público Federal, que o Presidente Michel Temer pediu ‘apoio financeiro’ para as campanhas do PMDB em 2014 a Marcelo Odebrecht, que se comprometeu com um pagamento de R$ 10 milhões”.

Indiretas Já!

Nas edições dominicais (11/12), Folha e Estadão começaram a desenhar uma saída de “emergência” por dentro do labirinto da crise institucional, que devastou há poucos dias o que ainda sobrava da credibilidade do Supremo Tribunal Federal, colocado de cócoras por um certo “coronel das Alagoas”.

Associando a reprovação de Temer ao suposto “pessimismo da população”, a Folha de S. Paulo seguia sua sina de dissimulação: “Reprovação de Temer dispara sob pessimismo econômico”.

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Numa sutil manobra, o editor da Capa da Folha tira o peso da “desaprovação” em disparada da manchete e a desloca para a linha fina (ou de apoio): a taxa de brasileiros, ouvidos pelo Datafolha, que consideram a gestão de Mr. Fora Temer ruim ou péssima subiu de 31% (em julho) para 51% na pesquisa atual. Mas a manchete poderia ter sido: “Apenas 10% dos brasileiros aprovam o governo Temer”, porque este é o dado que salta aos olhos: somente 10% dos entrevistados consideram o governo Ótimo/bom.

No Estadão, há uma indicação de caminho diverso: “TSE julgará em 2tse017 chapa Dilma-Temer, diz ministro”. Ou seja, para os Mesquita o caminho das Indiretas Já! está posto, sem o menor pudor. O texto do jornalista Luiz Maklouf Carvalho sustenta que o “ministro Herman Benjamin, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), disse ao Estado, em entrevista exclusiva, que deixou para o começo de 2017, provavelmente fevereiro, a apresentação do relatório-voto na ação que investiga a prática de abuso de poder econômico em benefício dos candidatos Dilma Rousseff e Michel Temer, nas eleições de 2014”.

Os alquimistas e seus candidatos

Dois dias depois, já com a repercussão bem apurada dos fatos, após a divulgação do acordo que inaugura a “Delação do Fim do Mundo”, os dois jornais saem do casulo e começam outra fase do jogo. Pode-se deduzir que ambos partem do pressuposto que para Mr. Fora Temer o jogo acabou. Vejamos.

No Estadão, o público vai encontrar uma forma bem usada de “balão de ensaio” com um eterno candidato a “salvador da pátria”. Trata-se do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, inspiração para a manchete: “Não sou candidato e as especulações só atrapalham o País”.

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Na entrevista exclusiva, assinada pelos jornalistas Sonia Racy, Alberto Bombig e Gabriel Manzano, o Estadão apresenta seu candidato naquela lábia de boleiro de futebol – “não sou candidato, mas se o ‘professor’ precisar estamos prontos para entrar no jogo…”. No abre, eles escrevem: “O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou ao Estado, na última quinta-feira, que não pretende se colocar como uma alternativa para ocupar a Presidência da República caso a grave crise política se aprofunde ainda mais neste ou no ano que vem e provoque a interrupção do mandato de Michel Temer. ‘Não sou candidato permanente”, afirmou FHC”. Notem, leitores/as, que o ex-presidente tucano qualificou sua não candidatura como “permanente”, mas de repente, e não mais…

A Folha de S. Paulo apostou noutra alternativa igualmente bem conhecida do distinto público. Observem a Manchete de sua edição de 12/12, segunda: “Marina é líder em todos os cenários de 2º turno” .

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A reportagem da jornalista Flávia Pereira, amparada em dados do Instituto Datafolha, tem um abre que revela outro personagem importante, devidamente deslocado para a “linha fina”. Confira: “A ex-senadora Marina Silva (Rede) é a líder nos cenários de segundo turno da eleição presidencial de 2018, segundo pesquisa de intenção de voto do Datafolha. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cresceu nas simulações de primeiro turno na comparação com o levantamento anterior do instituto de pesquisa, realizado em julho, mas perderia a eleição para Marina em um eventual segundo turno por uma diferença de nove pontos” (Fonte: http://migre.me/vIxKY).

Os dois principais jornais impressos do País, que falam em nome de setores importantes do empresariado e das classes dirigentes (elites políticas e econômicas), fazem suas apostas no tabuleiro. Os alquimistas colocam em fogo brando o (des) governo Temer, para derretê-lo em momento oportuno.

Um parceiro importante nessa intensa disputa de poder simbólico, o Jornal Nacional (JN, TV Globo), vem se esmerando na cobertura e ainda não aposta em nenhum dos dois candidatos aqui explicitados – nem Marina, nem FHC.

A edição de sábado do JN (10/12) tratou o caso usando em 20 longos minutos uma narrativa falsamente “imparcial”: um simples “relato” dos fatos. Se os acusados fossem de cores ideológicas distintas, a isso se agregariam outros elementos para tornar a história ainda mais impactante. Quem haverá de esquecer o vazamento ilegal do áudio da conversa entre os ex-presidentes Lula e Dilma, dois dias antes da manifestação pró-golpe, em 11 de março deste ano (uma sexta-feira). Um fato midiático de importância capital naquele momento de intensa mobilização social e luta política.

O longo e doloroso 2016 ainda tem duas semanas e meia, e entre elas o Natal. Os búzios estão calados e as pitonisas da mídia, dos mais diversos credos, se recolheram em silêncio profundo. Ninguém aposta uma previsão para as próximas 24h, ou até a divulgação dos termos da próxima delação da Odebrecht. A ver.

(*) Professor do Departamento de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC; pesquisador do objETHOS e do Laboratório de Sociologia do Trabalho (LASTRO/UFSC).

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