França: polarização em meio ao colapso dos partidos tradicionais

França: polarização em meio ao colapso dos partidos tradicionais

Por Josh Holroyd, via In Defence of Marxism.

Tradução: Gabriel Landi Fazzio.

Com menos de um mês antes do primeiro turno das eleições presidenciais na França, ainda não há nenhum candidato que possa ter a vitória assegurada, com quase metade dos eleitores franceses ainda indecisos. Indiscutivelmente a característica mais significativa do processo eleitoral, até agora, tem sido o colapso quase completo dos partidos tradicionais. O presidente em exercício, François Hollande, nem sequer se incomodou em fazer campanha, tão detestado que é pelo público. A última esperança de seu Partido Socialista, o “radical” Benoit Hamon, agora está em quinto lugar, segundo pesquisas recentes.


Que o desacreditado Partido Socialista enfrente humilhação não deve ser uma surpresa; sua situação atual foi antecipada pelas falsas promessas e políticas de austeridade de Hollande. O que é mais surpreendente para a classe dominante é a possibilidade muito real de que o partido tradicional da direita, Les Republicains (anteriormente o UMP), talvez também nem sequer vá chegar ao segundo turno!

O candidato republicano, François Fillon, apresentou-se como um conservador católico “livre de sordidez”, a fim de afastar os eleitores da Frente Nacional de Le Pen. Infelizmente, ele também pagou a sua esposa €500.000 anuais com recursos estatais para um trabalho que não existia; um facto que, na sequência da sua exposição nos meios de comunicação, tem de certo modo minado sua posição.

Status quo destroçado

Com seus dois partidos tradicionais incapacitados, os poderes estabelecidos na França devem agora confiar em Emmanuel Macron, um liberal pró-União Europeia, ex-banqueiro que serviu como Ministro da Economia sob o governo de Hollande. Atualmente ele lidera as pesquisas de opinião.

Macron, em suas próprias palavras, defende uma “profunda revolução democrática” para recuperar a confiança na política, mas seu programa fala de forma diferente: cortes nos gastos públicos; menos impostos; sanções aos desempregados – em suma, austeridade.
É por essa razão que Macron ganhou o apoio de lideranças notórias do establishment político francês, incluindo ninguém menos que Manuel Valls, o ex-primeiro-ministro e pré-candidato presidencial do Partido Socialista, que pediu abertamente votos para o liberal Macron, em detrimento do “socialista” Hamon.

Le Pen, com seu discurso sobre a proteção dos trabalhadores franceses, pode ainda dinamizar sua candidatura de modo considerável a partir desse programa quintessencial da “elite globalista”. Muita coisa pode acontecer em algumas semanas e ninguém tem certeza se o inexperiente Macron será capaz de lidar com a pressão. O resultado final não é de forma alguma certo.

As nuvens da tempestade no horizonte

Olhando para além da própria eleição, o cenário Macron vs Le Pen só coloca mais problemas para a classe dominante francesa. Se Le Pen ganhar, ela vai realizar um referendo sobre a [ruptura da] adesão à UE que pode revelar-se desastroso para o capitalismo francês e europeu. É por isso que tanto o establishment e os meios de comunicação têm jogado todo o seu peso para a vitória de Macron.

Macron, no entanto, não tem partido nem deputados, de modo que o Presidente Macron teria de confiar nos socialistas e republicanos para levar a cabo um rigoroso programa de austeridade apoiado por Bruxelas: uma receita acabada para mais instabilidade, raiva e polarização, tanto à direita quanto à esquerda. O “mal menor” seria na realidade um salto para fora da frigideira e para o fogo.

França Rebelde

Mélenchon e seu movimento France Insoumise (França Rebelde) têm visto um aumento encorajador em sua popularidade após o desempenho do candidato no primeiro debate presidencial televisionado. Um quinto dos telespectadores, ouvidos minutos após o debate ter terminado, disse que Mélenchon tinha sido o candidato mais convincente, a frente de Le Pen e perdendo apenas para Macron, que tem desfrutado do apoio quase total da mídia francesa, ao contrário de Mélenchon.

Além de melhorar sua posição nas pesquisas, os comícios de Mélenchon atraíram centenas de milhares em todo o país. Sua mensagem, de uma alternativa de esquerda tanto à austeridade quanto à direita nacionalista, ganhou claramente eco. Como disse um jornalista, “a sua posição como candidato em guerra com o sistema político está a dar frutos”.

À medida que a campanha prossegue, mais eleitores socialistas de esquerda podem mudar de Hamon para Mélenchon, enquanto a campanha de Fillon continuará a perder votos tanto para o liberal Macron quanto para a nacionalista Le Pen. Em tal situação, é até possível, embora improvável, que Mélenchon possa chegar ao segundo turno.

Independentemente do resultado, esta campanha representa uma oportunidade histórica para galvanizar as forças da esquerda e representar uma verdadeira alternativa às políticas reaccionárias de Le Pen e Macron. Se, após a eleição, Mélenchon for capaz de transformar sua campanha em um vasto movimento político, organizado em torno de um programa socialista para transformar a sociedade, o resultado será um importante passo em frente, não só para os trabalhadores da França, mas toda a Europa.

7 de abril de 2017


Nota do tradutor:

Já em 10 de abril novas pesquisas apontavam Mélenchon na terceira posição da corrida presidencial, subindo quatro pontos em apenas uma semana para 19% – o mesmo de François Fillon. Essa ascensão rápida se faz acompanhar pela lenta e constante queda dos dois grandes candidatos, Le Pen (de 28% para 24%) e Macron (de 26% para 23%). Vale considerar que, em 2012, como candidato da Frente de Esquerda, Mélenchon obteve 11% dos votos.

Esse cenário, apenas semanas após a campanha de pressão para que Mélenchon retirasse sua candidatura, para não “dividir a esquerda”, confirma a tendência à radicalização das massas e a crise da social-democracia na França. Principalmente se considerarmos que tal campanha tem galvanizado a esquerda justamente fazendo o que o PS não poderia: estabelecendo uma linha divisória nítida entre a esquerda e a agenda burguesa do centrismo francês.

Segundo pesquisas, apenas 24% dos eleitores de Hollande em 2012 votariam agora em Hamon. 26% destes votarão em Mélenchon e 43% no liberal Macron (antigo ministro do governo “socialista”)! Enquanto isso, 46% dos eleitores do “socialista” Hamon indicam que ainda poderiam mudar seu voto…

Além dos dados pré-eleitorais, vale ressaltar o caráter de massas das mobilizações em torno de Mélenchon: no aniversário da Comuna de Paris, em 18 de março, a campanha do “rebelde” mobilizou 130 mil pessoas ara uma manifestação diante da Bastilha, e em 9 de abril cerca de 70 mil se reuniram em Marselha (reduto da Frente Nacional que, contudo, foi um dos mais importantes centros de protestos operário conta a reforma trabalhista da lei el-Khomri, proposta por Hollande e Valls).

Quanto ao teor do programa de Mélenchon, pugnando por uma 6a República francesa, caberia uma discussão mais aprofundada. Ainda que apresente uma retórica pequeno-burguesa, como de [péssima] tradição na esquerda revolucionária francesa, vale ressaltar o apelo a uma “revolução cidadã”, vale destacar a redução da jornada de trabalho de 35 para 32 horas semanais; o aumento em 250 bilhões de euros dos gastos públicos em saúde, educação e previdência social; a taxação em 100% de qualquer ganho 20 vezes superior à média nacional; a retirada da França da OTAN e a renegociação da relação do país com a União Europeia – e, caso tal negociação falhe, a convocação de uma plebiscito para a retirada do país.

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Fonte: Lavra Palavra.

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