Foi João! Por Guigo Ribeiro

Imagem: Reprodução

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

Desce a rua o moleque inspirado. Leva nas mãos uma bola e é levado pelas solas, estas
em contato direto com o chão quente. João é assim mesmo. João é assim e tão assim que
até a mãe já se conformou.

– Ele é assim! Vive de pé no chão. Uma hora lhe meto a mão por pintar meu sofá de
preto com os pés. – a mãe dizia.

E levava todos os demais meninos para as linhas riscadas com pedra no chão. Se faz ali
um Maracanã. Talvez o Pacaembu. Se faz ali final de copa e João brilha de pés
descalços. Ri de quando alguém mete o pé na guia e ri mais ainda quando este alguém
chora ao ver o sangue. Porque, quando com João, ele só se certifica de haver a
necessidade de ir ao hospital e, caso não, rola a bola. Segue a vida. E faz mais um. Não
sobra um. João faz fila. E quando os demais meninos cansam o cansaço de uma vida
mais protegida, João bate para o gol e acerta, poxa vida, a porta de um carro
estacionado. Não tem amassado, mas o dono entende a máquina com sua vida e, por ser
sua vida, a bolada bate nele também. E grita em ódio pelo amor à máquina:

– Quem acertou minha máquina?

Os meninos se escondem em cantos ou asas das mães mais protetoras. E, como
combinado, respondem:

– Foi João!

Num outro dia, João ria dos meninos que também riam dele. Os meninos trocam risos e
provocações da idade. Dá, recebe e ri. João fala palavrão. Todos meninos falam
palavrões, mas João é quem toma a dura do vizinho que não admite palavrão. Adulto
gosta, na verdade, é de regular. E entende a conservação do discurso em linhas
angelicais como ato nobre. Palavrão é coisa de maloqueiro, vadio. Todos falam, mas o
vizinho sempre só ouve o que João fala:

– João, vai falar palavrão em frente sua casa! Maloqueiro!

E os demais meninos concordam. Apesar de também falarem, concordam. João é boca
suja, sem jeito. João é terrível, meu Deus.
Não raro, diante dos atentados juvenis, João era punido com o afastamento dos demais.
Havia uma organização, um combinado na qual os meninos eram todos e sempre bons e
João os desviava dos caminhos do cidadão de bem. Certa vez um enorme grupo de
meninos, entre eles, João, soltou uma bombinha e o estrondo atrapalhou o cidadão
concentrado na tv. Culpa do João. Outra vez, os meninos acharam uma boa ideia trepar
na árvore centenária e, veja só, um galho quebrou. Culpa do João. João saiu na porrada
com o loiro que mora na esquina. Deu, tomou e retomaram a amizade no dia seguinte.
Mas antes, a confusão foi por culpa do João.

– Eita, João! Não tem jeito!

E João seguiu o caminho. Consciente, entendia a perseguição. Percebia que nunca
estava só, mas levava o peso do que era feito. João era diferente dos demais. João era o
que os demais meninos adorariam ser, mas não podiam. João estudava num colégio
diferente dos que moravam em sua rua. Os meninos pagavam por educação. João, em
janeiro, ficava zanzando entediado. E fazia festa na volta dos meninos de suas viagens.
João aproveitava a infância com gosto. Não queria saber dos eletrônicos. Um tanto por
não ter os eletrônicos. Ele queria mesmo é seguir sendo o que os seus amigos não
podiam ser. Acho que João não foi muito acreditado, não. Por não seguir a linha do
protótipo de menino bom, não faziam o menor esforço para concluir o futuro ruim
virando a esquina ao encontro dele:

– Só quer jogar bola! Falar palavrão…– um vizinho.
– Não se interessa por nada!– uma vizinha.
– Ih…esse aí vai ser ladrão.– um vizinho.

Erraram!
E o tempo passou. E nas voltas do mundo, João foi ser rei. Descobriu caminhos,
possibilidades. Adentrou espaços nunca imaginados. Contrariou tudo aquilo que tanto
insistiam. Um dia, já adulto, percebeu que o segredo foi manter os pés no chão. Mesmo

que ainda descalços. E que a fala é mais para comunicar mesmo.Porque a beleza é outra
coisa. Num papo casual, foi lembrado de como era na infância, dos comentários e riu
como quando menino:

– Sim! O segredo é manter o pé no chão! E foda-se essa gente! – concluiu feliz.

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