Filanópolis em alta. Racismo e truculência também

 

Feliz Ponte!

Filanópolis em alta no verão!

Triste brutalidade racista! Triste elite porca! Apreensão com patrimônio histórico cultural ameaçado! Triste com educação infantil sendo desmontada!

Alegria com pessoas da arte e do povo no carnaval!

Por Elenira Vilela. para Desacato.info

Eita…

2019 foi ano difícil para o povo brasileiro, para trabalhadores e trabalhadoras de todo o país e com certeza aqui nas bandas das bruxas não foi diferente.

Mas terminamos um ano e começamos outro com alguns acontecimentos ou sabendo de algumas informações que falam muito sobre nós.

Pra começar o óbvio: Meiembipe (Desterro, Tiranópolis) é uma cidade ilha, uma região cheia de belezas naturais de tirar o fôlego, patrimônio histórico, povo diverso (além dos conhecidos açorianos e dos indígenas que expulsamos e continuamos expulsando há séculos), temos negros de várias origens, mais recentemente número significativo de haitianos e senegaleses, gregos, dominicanos, muita migração interna do Brasil com nordestinos e nortistas, mas em maior número de gaúchos, muitos paranaenses, paulistas e cariocas e um monte de hermanos, argentinos e uruguaios.

E mais interno ainda, recebemos pessoas de todos os cantos do estado, do velho oeste, passando pelo Vale do Itajaiaçu e do sul do estado. Muita gente quer morar onde muitxs mais conseguem no máximo passar férias ou feriados.

Uma cidade que tem muita produção de arte e cultura próprias, que tem duas universidades públicas mais um instituto tecnológico, um polo de desenvolvimento tecnológico (que recebeu investimento público), dezenas de praias e ainda nos dá uma razoável sensação de segurança (se você não vive nos morros e comunidades), cheia de hortas comunitárias, dois times de futebol com reconhecimento nacional e equipes de remo e rugby também respeitadas.

Todxs nós que somos manezinhos da ilha ou tripeiros (do continente), por opção, trazidos pela vida ou por nascimento sabemos valorizar nosso paraíso.
Mas não podemos tampar o sol com a peneira: nossa cidade (e região) tem muitos e graves problemas.

O clássico e conhecido de todxs: a (i)mobilidade, que já virou piada em memes em todos os cantos do país e do mundo e que já prejudica o turismo, além de tornar a vida de nós moradores um caos cotidiano. Alguns paliativos e uma mínima melhora com a nova via do aeroporto que permite mais um caminho para acessar o sul da ilha. Aqueles viadutos que só nos permitiram admirar a paisagem enquanto aguentamos o mesmo engarrafamento. Houve a abertura da terceira pista na entrada e saída das pontes que melhoraram a saída da ilha.

Em nada mais praticamente há mudança desde 2003 com a implantação do famigerado Sistema (Des) Integrado de Transporte da gestão Angela Amin. Uma licitação que só serviu pra dar um verniz de legalidade à ilegalidade patente. Agora, a reinauguração da Ponte Hercílio Luz fez boa parte da cidade recuperar um bocado da autoestima perdida, mas vai mudar pouco a qualidade da mobilidade e não foi cumprido o previsto novamente (não tenho estudos, mas a retirada dos ônibus e somente deles do tráfego pelas outras pontes, sabendo que há milhares de veículos individuais passando ali todos os dias com apenas uma pessoa já mostra que a mudança não deve ser significativa). E os turistas estão passando mais tempo engarrafados do que nas nossas praias.

Mas há outros: racismo e truculência. Começamos o ano com denúncias graves de violência motivada por racismo: violência contra um jovem na Palhoça, festa de 15 anos e Churrasco de família em São José e os agressores eram policiais em serviço; já no shopping Iguatemi um trabalhador foi agredido por um segurança do BIG. Nossa cidade continua muito racista. Negros e negras confinados às periferias, com trabalhos e remunerações precários e ainda sofrendo com a violência estrutural. Não podemos esquecer que no final do ano passado teve a agressão policial à batalha das Minas também. Vejamos se as medidas tomadas reduzirão a violência policial e de seguranças privados. Infelizmente o histórico e a postura dos responsáveis indicam que haverá mais violência. #RacismoMata

Também mata de raiva a notícia de que os ricos da Beiramar fingem não saber que temos uma rede de coleta e tratamento de esgoto (construída com meio milhão de reais repassado à CASAN ainda nos governos Lula e Dilma) e gostam de jogar suas fezes ao mar. Sim, descobrimos que os ricos, aqueles de perfume francês tem 9 de cada 10 imóveis irregulares na maneira que despejam seu esgoto. Uma elite porca e falastrona, que despreza os pobres e seu próprio bem estar. Cinicamente gostam de culpar o poder público, defender a privatização e nem mesmo com seu próprio excremento conseguem dar conta de fazer o que é sua obrigação legal: ligar seu encanamento na rede de coleta: 9 de cada 10! E o Ipiranga tem a cara de pau de ir ao mundo dizer que a destruição ambiental é culpa da pobreza. Estamos vendo…
Já na Rede Municipal de Educação de Florianópolis vemos denúncias gravíssimas de que tudo que o SINTRASEM e a mobilização dos servidores avisou: as Organizações Sociais (OS’s) não conseguem garantir a qualidade da educação oferecida às nossas crianças da Educação Infantil e as OS’s são temerárias e mesmo fraudulentas. A grande greve destes trabalhadores e trabalhadoras não conseguiu derrotar a privatização e ela mostra a que veio: aumentar os custos e reduzir a qualidade da educação e os direitos dos trabalhadores nestes ambientes. Nossas crianças devem ter a educação que merecem. #OSNão #MunicipalizaçãoJá

A escola Antonieta de Barros finalmente será reformada, já que foi cedida ao Museu da Escola Catarinense da UDESC. Parecia uma ótima notícia em comparação com as propostas de venda do prédio. Mas há uma preocupação se esse espaço vai se manter realmente público e sua relação com a educação e a negritude vão ser ou não mantidas. As propostas dão conta que esse será um espaço de fomento ao empreendedorismo (leia-se mais precarização nas relações de trabalho) e de berçário de empresas. Esse espaço deve voltar a ser espaço educativo da população negra como tanto lutou ao longo de toda sua vida a Deputada Antonieta de Barros que lhe dá nome.
Enquanto isso a Consulado do Samba escolhe a própria luta de Antonieta como seu enredo de carnaval. A Campeã do carnaval 2019 entrará na avenida lutando pela educação e defendendo a trajetória dessa professora negra, primeira mulher negra a se eleger deputada do Brasil. Na mesma pegada, a Dascuia homenageia as Yalodês, mulheres negras em luta por direitos e igualdade, destacando a Dona Valdeonira, liderança da comunidade do Morro do Céu.

Saudando a luta do povo, a Embaixada Copa Lord traz o Padre Vison Groh, aquele que sempre defendeu a população da periferia e vive nos morros em dedicação de toda uma vida às crianças, jovens e mulheres, a essas comunidades massacradas pela pobreza e pela guerra à pobreza apelidada pela mídia e pelas polícias de guerra às drogas. A Protegidos traz de longe o exemplo de luta popular que foi a força do Cangaço, lembrando que todos os brasileiros lutam e que podemos aprender aqui e muito com a força do povo nordestino.
Saudando Valdir Dutra, a União da Ilha da Magia traz arte com o teatro infantil desse importante personagem local e em tempos de barbárie lembrando a importância de oferecer asas para a imaginação das crianças. Eu que moro por aqui fiquei muito feliz de a Coloninha homenagear o mané tripeiro, esse povo que vive no continente, pertinho da Ilha, é quase um terço da nossa população e tem enorme importância pra cidade, por vezes esquecida nos cantos, nos versos e na prosa. A Nação Guarani vem trazendo o lixo e sua recriação pra arte e pra atender às necessidades do povo pobre a partir da sabedoria ancestral.

Enfim a alegria vem da alegria do carnaval, que esperamos aconteça sem violência, com organização e sem assédio (porque não é não e tudo depois do não é assédio, viu senhor deputado machista?!).

Aliás, a organização da mulherada cis ou trans, hétero ou LBT, brancas, negras, indígenas, quilombolas, gordas ou não, mães ou não, com deficiência ou não, de periferia ou não, letradas ou iletradas, que trabalham remuneradas ou não, religiosas ou não, crentes ou não, em situação de rua ou não, profissionais do sexo ou não… para o 8M Greve Internacional de Mulheres estão a toda, porque lutamos para podermos VIVER COM DIGNIDADE E LIBERDADE: trabalho, corpo e território.

 E a Ponte? Linda Ponte! Está aí minha foto nela, novela você já conhece.

 

Imagem de capa: Foto de arquivo pessoal.

Elenira Vilela é professora e sindicalista.

 

 

 

 

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