Fernando Morais: “A democratização já chegou. A tecnologia andou mais rápido que a ideologia”

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Por Paula Guimarães para Desacato.info.

O jornalista e escritor Fernando Morais, conhecido por contar com neutralidade parte da história do Brasil por meio de biografias, deixou bem claro de que lado está quando se trata de regulação da mídia. “Eu sou um defensor público da regulação dos meios de comunicação. E isso não significa censura de jeito nenhum. As mídias alternativas é que vão convencer a sociedade da importância da regulação. Por que quem é que está usando isso como instrumento de terror? São os donos das mídias, que têm medo de perder, sobretudo, a propriedade cruzada”, afirmou em entrevista ao portal Desacato. Na noite de ontem, o escritor de livros consagrados como Olga e Chatô falou sobre os “Rumos do jornalismo, crise na mídia tradicional e credibilidade das informações em tempos de redes sociais” para um público, formado em sua maioria por jornalistas, no 2º Prêmio Fecomércio SC de Jornalismo, realizado no Sesc de Cacupé, em Florianópolis.

O escritor abriu sua palestra com a notícia de que o Supremo Tribunal Federal aprovou a ação movida pela Associação Nacional de Editores de Livros (Anel), a qual pedia a liberação de publicação de biografias sem autorização prévia, seja de personagens ou herdeiros. “Não é uma vitória de corporação, é uma vitória da sociedade brasileira, que tenho o prazer de compartilhar com essa platéia de jornalistas. Diz respeito a um direito da sociedade brasileira de se informar sobre sua própria história”, defendeu.

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Em tom profético, o jornalista disse que grandes corporações de comunicação tendem a desaparecer nos próximos anos. Isso porque, segundo ele, com o avanço da Internet vivemos uma revolução sem precedentes na história da comunicação do mundo, especialmente no Brasil, “e não somente no eixo Rio – São Paulo, como no país todo,” conforme frisou. “A minha geração acreditava que a democratização dos meios eletrônicos se daria nas barricadas, nos palanques, nas passeatas, na tribuna, mas a tecnologia andou mais rápido que a minha ideologia. Antes que a gente tomasse o ‘Palácio de Inverno’ de armas na mão, veio um maluco que criou a Internet, a qual de fato está democratizando as comunicações”, afirmou.

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Enquanto muitos jornalistas temem o fim dos veículos de comunicação tradicionais, Morais vê com excitação esse momento que promete abalar as estruturas dos meios, atualmente concentrados nas mãos de poucos. Segundo ele, hoje em dia qualquer pessoa que comprar um notebook e um celular terá capacidade de intervir nesse novo espaço democrático: “Estará armado para se transformar num Roberto Marinho, no melhor sentindo de ser Roberto Marinho”, brincou.

O mito da imparcialidade

Muito aplaudido ao defender a regulação da mídia, o palestrante explicou que há uma diferença essencial entre imprensa “impressa” e meios eletrônicos, rádio e televisão. Segundo ele, numa sociedade capitalista, não pode haver ilusão de existência de imparcialidade em mídia impressa, naturalmente usada para difundir ideologias de seus proprietários. Para ilustrar, citou uma breve passagem na história de Assis Chateaubriand, personagem do livro Chatô, que em certa ocasião repreendeu seu principal colunista – crítico de Juscelino Kubitschek -, dizendo que se este quisesse defender uma opinião contrária aos interesses da corporação, deveria montar o próprio jornal. “Imprensa escrita em qualquer lugar do planeta, de Cuba a Washington, está a serviço da ideologia de quem paga as contas no fim do mês. Não tenham nenhuma ilusão a respeito disso e é natural que seja assim”, opinou.

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O rádio e televisão, entretanto, têm função social, pois a concessão para a emissão de imagens e sons é propriedade do Estado, e dessa forma, não podem atender a interesses particulares. “Se é propriedade social, o concessionário não pode usá-la a bel-prazer para defender suas ideias, sejam quais forem. Nenhum país do mundo permite isso e não estou falando do chamado ‘eixo do mal’, de Cuba e Venezuela. Estou falando de Estados Unidos e Inglaterra”, ironizou.

Imprensa com os dias contatos

O jornalismo impresso está sim com os dias contatos. Não só os jornais, como livros e revistas. Os meios eletrônicos tradicionais ainda devem sobreviver por um tempo, mas também caminham para o fim, já que mais de 80% dos jovens não assistem televisão. “A imprensa como conhecemos não tem condições de acompanhar a agilidade da Internet. Está num beco sem saída”, apontou. Segundo o escritor, não há sentido em acumular livros que ocupam enormes espaços, além da quantidade de árvores e outros recursos naturais envolvidos na produção e dos custos econômicos. O jornalista destacou que em um tablet de R$ 100 é possível acumular todos os seis mil livros que possui num depósito.

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As demissões nos jornais demonstram que a desconstrução já está acontecendo, num misto de crise econômica com a tomada da Internet. Ele lembrou o público das demissões em massa do grupo hegemônico de Santa Catarina – RBS -, porém sem citá-lo. “O corte é feito pelo salário, quem ganha mais é degolado primeiro. A imprensa vai se privando dos melhores quadros”, afirma.

Seleção natural na rede

Essa “democratização”, todavia tem como barreira a credibilidade. Diferente das redações formais, em que existe um filtro entre quem escreve e quem lê, a Internet virou “repositório de mentiras e provocações sem base factual”. Porém, o escritor deposita suas esperanças no que chama de seleção natural: “sobreviverá quem tiver credibilidade”. Seleção que será feita pelo próprio consumidor de informações. A publicidade tende a migrar para veículos digitais com maior número de acessos. Outra maneira de financiamento, já adotada por algumas organizações, é a cobrança por acesso ao site. “Os jornalistas dessa geração vão ser os coveiros da imprensa, mas também parteiros da nova imprensa. E como todo parto, será doloroso. Cada um de nós deve se adaptar a essa transformação”, afirmou.

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Fotos: Paula Guimarães

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