Familiares lançam livro de Marielle, ainda à espera de respostas

Foto: Divulgação

Por Carol Castro.

Não foi fácil terminar a dissertação de mestrado. Naquela época, Marielle Franco coordenava a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Do Palácio Tirantes (ou da Maré) até Niterói, onde fica a Universidade Federal Fluminense, tirava o tempo no ônibus e na balsa para estudar, ou cochilar.

“A gente viveu essa luta. Era uma batalha ir até Niterói”, conta Anielle Franco, professora e irmã de Marielle. Vencida a batalha, no final de 2014, restava um sonho: publicar o trabalho em um livro.

Oito meses após sua execução, ainda não esclarecida pelas investigações, a n-1 Edições lançou “UPP: a redução da favela em três letras”, de Marielle Franco. “Ela já tinha falado sobre essa vontade de lançar o livro, mas havia um processo muito burocrático. Infelizmente, com o falecimento dela, as pessoas finalmente quiseram prestar atenção no que ela dizia há muito tempo”, diz Monica Benício, companheira da vereadora. “É uma grande alegria ver a continuidade desse trabalho. E como ela disse na Alerj, no 8 de março: não será interrompida”.

Não será mesmo. A memória e as ideias de Marielle agora resistem e se espalham pelas livrarias do país. Um texto crítico à solução do Estado em insistir apenas no policiamento como solução para a violência na periferia. “O livro fala da militarização das favelas, de todas as coisas pelas quais Marielle sempre lutou: o direito à vida do favelado que o Estado não garante. Pelo contrário, viola esses direitos”, explica Monica.

A mesma violação de direitos – e à vida – que Marielle enfrentou por 38 anos, até o dia 14 de março, quando ela e o motorista Anderson Gomes foram assassinados a tiros na capital fluminense. Oito meses depois, o crime continua sem solução, ao contrário do previsto pelo ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, que, dois meses após a execução, considerava a investigação em sua etapa final.

Desde então, uma série de informações apareceram na mídia, ainda que a Polícia Civil e o Ministério Público do RJ tenham reforçado a postura de manter o andamento do caso em sigilo. Em agosto, Jungmann revelou que o crime envolvia a participação de agentes do Estado. “Envolve, inclusive, setores ligados seja a órgãos de setores do Estado, seja a órgãos de representação política”, disse em entrevista a um programa do canal Globo News.

Em novembro, o ministro voltou a se pronunciar, dessa vez para dizer que havia uma denúncia sobre tentativa de impedir a apuração do homicídio. De acordo com ele, “agentes públicos de diversos órgãos, milícias, organização criminosa” estariam envolvidos. O caso, portanto, ganhou uma investigação sobre a investigação. E a família se divide entre contar com o Ministério Público e esperar pela federalização definitiva do caso, que sairia da Polícia Civil para a Polícia Federal.

Enquanto isso, Monica e Anielle se organizam para manter viva a imagem de Marielle. Na quarta-feira 7, as duas marcaram presença no evento de lançamento do livro, no Aparelha Luzia, em São Paulo.

“A gente tinha briga de irmã, normal, mas no final era ela quem segurava minha peteca. E uma coisa aprendi com ela… queria muito estar agora simplesmente relaxando e curtindo minhas provas, mas eu não posso mais, a vida mudou num 360. E, fosse ela no meu lugar, faria o mesmo”, conta Anielle. “Marielle era mulher preta, favelada e não teve na sua história nenhuma exceção. Foi mãe jovem, com muitas dificuldades teve que trabalhar e estudar”, completa Monica.

E tampouco escapou da exceção da mulher negra nos dados de homicídios. Segundo dados do Atlas da Violência, o Brasil mata 71% mais mulheres negras do que brancas. É pela vida que delas que Marielle lutou. E é por todas elas que a família segue atrás de respostas.

 

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