Existem nazistas na Ucrânia? Uma visita a Lviv

Activists of the Svoboda (Freedom) Ukrainian nationalist party hold torches as they take part in a rally to mark the 105th year since the birth of Stepan Bandera in Kiev

Por Joshua Tartakovsky.

O conflito na Ucrânia tem sido em grande parte sobre a história e sobre como interpretá-la. As marchas ocorridas em homenagem ao líder ucraniano Stepan Bandera, da Segunda Guerra, na última quinta-feira, 1 de janeiro de 2015, em Kiev, marcando os 106 anos de seu nascimento, confirma que compreender o passado é essencial para entender o futuro. Enquanto alguns argumentaram que não existem fascistas na Ucrânia e que os manifestantes no Maidan vieram de uma ampla gama da sociedade civil da Ucrânia, no Congresso dos EUA, perguntas difíceis foram feitas quanto ao apoio americano à organização neonazista “Setor Direita” e, na Rússia, alarmes tocaram quando imagens de manifestantes usando emblemas nazistas e soldados ucranianos com crenças fascistas foram reveladas.

As perguntas quanto ao que se deve fazer com os nazistas de hoje e sobre o Exército Insurgente Ucraniano (EIU), sobre a Organização de Ucranianos Nacionalistas (OUN) e sobre Stepan Bandera, de uma hora para outra se tornaram relevantes e destacou de novo a importância do entendimento da história para o entendimento do presente. Como alguém que perdeu pessoas dos dois lados da família para fascistas alemães e ucranianos, eu estava muito interessado em entender o passado, assim como os eventos recentes. Com esse fim, eu visitei a cidade de Lviv, na Ucrânia, em dezembro de 2014 e li artigos históricos com o objetivo de entender até que ponto os fascistas ucranianos estiveram envolvidos nas atrocidades da Segunda Guerra Mundial.

Esse artigo é o resultado desses esforços.

Depois do golpe ocorrido em Kiev, em fevereiro de 2014, rumores sobre nazistas marchando nas ruas da cidade e de uma “tomada fascista” têm aparecido. Muitos desacreditaram essas acusações como “propaganda sem sentido” usada pela Rússia para desonrar a queda de um presidente do qual ela gostava. Quando o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, falou sobre os fascistas na Ucrânia, muitos receberam suas palavras com desdém e menosprezo. Em um artigo entitulado “Os nazistas imaginários de Putin”, James Kirchick escreveu que um dos grupos que teve uma parte central no golpe Maidan, o “Setor Direita,” conhecido por suas táticas violentas, não era nem fascista nem nazista. Ele argumentou que judeus eram membros do Setor Direita, que o Embaixador de Israel se encontrou com Dmytro Yarosh, o líder do grupo, e, portanto, descartando qualquer anti-semitismo, e que se o Setor Direita “tivesse realmente ‘executado’ um ‘golpe’, eles teriam o controle das forças armadas do País” enquanto eles não têm. No entanto, Kirchik não estava completamente correto. Na realidade, as gangues do Setor Direita foram integradas na Guarda Nacional e enviadas para a luta no leste da Ucrânia enquanto o Batalhão Azov, acusado de cometer crimes de guerra no leste, atraiu muitos nazistas. Se tornou inegável que unidades neonazistas estão operando na Ucrânia com total apoio governamental.

A questão do fascismo na Ucrânia me envolveu pessoalmente. Meu avô por parte de mãe, um médico judeu-americano que lutou na Segunda Guerra pelo exército americano, me disse que a sua família era originalmente de Lviv. Seus parentes que ficaram para trás foram exterminados por fascistas. Lviv foi a primeira cidade a ser ocupada pelos alemães em junho de 1941, e um pogrom no qual 2 mil pessoas foram massacradas se seguiu logo após. No outro lado de minha família, meu pai, um ativista sionista de Kiev durante o período soviético, recontou a mim quantos de seus familiares foram exterminados pelo exército alemão e pela polícia ucraniana, no famoso “Massacre de Babi Yar”, perto de Kiev, em setembro de 1941. Naquela ocasião, 33.771 pessoas foram mortas à bala em um dos maiores massacres da Segunda Guerra Mundial.

O assunto dos nazistas nos dias de hoje e não somente no passado ressurgiu com força total. O Senador americano Joh McCain e a Secretária Assistente para Assuntos Europeus e Euro-asiáticos do Departamento de Estado Americano, Victoria Nuland, encontraram pessoalmente Oleh Tyahnybok, líder do partido “Svoboda”, cujo antigo nome era Partido Social-Nacional da Ucrânia e cujo símbolo era o Wolfsangel. Isso aconteceu apesar do fato de Tyahnybok ter dito anteriormente que os ucranianos devem lutar contra a “máfia moscovo-judaica” e parar as ações criminais dos “judeus organizados”. Tanto o Svoboda quanto o Setor Direita se vêem como os herdeiros ideológicos da Organização de Ucranianos Nacionalistas (OUN) [The Organization of Ukrainian Nationalists, the Ukrainian Insurgent Army, and the Nazi Genocide in Ukraine, p.3] e admiradores de Stepan Bandera, que defendeu uma Ucrânia independente durante a Segunda Guerra.

A questão de quem era Stepan Bandera e o que era a OUN atraiu muita atenção e debate, precisamente pelo fato de sua imagens terem sido carregadas por manifestantes em Lviv e Kiev. Batya Ungar-Sargon argumento na revista Tablet que a ideologia da OUN e de Bandera não eram inerentemente anti-semita e que os assassinatos eram raramente perpretados contra os judeus. Na visão dela “naquele tempo, os judeus da Ucrânia eram naturalmente partidários soviéticos, e isso os fez alvo de Bandera e da OUN.”

O membro do Setor Direita e parlamentar, Borislav Bereza, que também é judeu e apoiador de Bandera, argumenta que Bandera lutou contra aqueles que se opuseram à independência ucraniana, mas que ele não era anti-semita. De acordo com Bereza, o fato de que Stepan Bandera foi preso pelos alemães e depois morto pelos soviéticos prova que ele era contra os alemães e contra os sovéticos, e que respeitava as minorias. Na visão dele, o Exército Insurgente Ucraniano não era fascista, e judeus também eram membros.

Em dezembro de 2014 eu decidi ir para Lviv, na Ucrânia – uma cidade ultra-nacionalista ao oeste, aonde memoriais ao Bandera estão erguidos – para ver o lugar com meus próprios olhos e entender o passado. Lviv, também conhecida como Lamberg em alemão, Lvov em russo e Lwow em polonês, foi onde a primeira matança de judeus pelos nazistas na Ucrânia ocorreu.

Eu e um amigo viajamos para Lviv, cruzando a Polônia. Nós fomos parados sob falso pretexto, logo depois de cruzar a fronteira, por um policial que acusou o motorista de estar bêbado – uma acusação completamente falsa. Nós fomos forçados a subornar ele para continuar nossa viagem, e percebemos quão dura é a situação econômica atual, na qual as forças policiais provavelmente não estão sendo pagas quando deveriam. Em Lviv, eu vi a casa do famoso escritor judeu Shalom Aleichem. Uma grande e velha placa em ídiche anunciando isso me lembrou de uma era diferente, quando Lviv era conhecida como Lvov, uma cidade multicultural, com influências polonesas, húngaras, russas, alemãs e ucranianas, quando era a maior cidade de judeus na Polônia, casa de 100 mil judeus. Residentes judeus costumavam chamá-la afetuosamente de “Lembereik”, a cidade tinha um teatro Ídiche e algumas sinagogas ortodoxas. Em 1939, poloneses representavam 50% da população da cidade; judeus, 32%; e ucranianos, 16%. Os escritos em ídiche que continuam nas paredes, no Hospital Judaico, e as marcas mezuzah nos umbrais das portas; sinais de uma vibrande comunidade judaica que uma vez existiu. Passando pelo Café Shutka, eu percebi um escrito ídiche na parede, indicando que um costureiro e sapateiro judeu costumava trabalhar ali. A comunidade judaica foi completamente exterminada durante a Segunda Guerra Mundial.

O Estado Independente da Ucrânia de 1941

A ocupação soviética em Lviv, que começou em setembro de 1939(1) acabou em 30 de junho de 1941, quando o exército alemão marchou em Lviv(2). A Organização de Ucranianos Nacionalistas (OUN) declarou um estado independente da Ucrânia no mesmo dia (3) e estabeleceu um novo governo, liderado por um notório anti-semita, Yaroslav Stetsko (4). O novo governo lançou uma campanha de propaganda em apoio à limpeza étnica de não-ucranianos (5). O professor canadense-ucraniano John-Paul Himka explica que a OUN era perspicaz em demostrar a sua lealdade aos alemães, com o objetivo de conseguir o apoio deles para o novo estado (6).

O novo primeiro ministro do auto-declarado estado ucraniano, Stetsko, que era também um apoio a Stepan Bandera, não fez segredo sobre suas visões de judeus como parasitas e publicou um artigo sobre isso em uma edição de um jornal ucraniano no Canadá (7). Muito como o líder do partido Svoboda nos dias de hoje, Oleh Tjahnybok, Stetsko via tanto em Moscou como nos judeus inimigos eternos da Ucrânia (8) e era a favor de introduzir os métodos alemães de extermínio na Ucrânia (9). Em junho de 1941, Stetsko enviou a Stepan Bandera uma mensagem na qual ele afirmava estar preparando uma força armada para proteger os ucranianos e remover os judeus (10). Décadas depois da guerra, Stetsko, junto com vários outros nazistas ucranianos, tiveram abrigo nos EUA e foram reconhecidos como legítimos representantes do povo da Ucrânia como um todo. Stetsko foi recebido por George H. Bush na Casa Branca.

Depois de milhares de presos políticos terem sidos executados pela NKVD, um pouco antes do recuo das forças soviéticas (11), milícias ucranianas (12) forçaram centenas de residentes judeus a limpar as ruas da cidade, ajoelhados (13). Os judeus eram acusados de serem apoiadores dos soviéticos e foram forçados a cantar músicas pro-URSS (14). Depois dos judeus terem exumado os corpos dos prisioneiros políticos mortos, eles foram baleados pelos alemães e pelos ucranianos (15). De 2 mil judeus, 80 sobreviveram (16>). O professor John-Paul Himka escreve que “a Organização de Ucranianos Nacionalistas, sob a liderança de Stepan Bandera, proveu o motor do pogrom (17)”. Talvez alguns gostem de argumentar que os judeus deviam ser punidos porque eles apoiavam o comunismo, como Batya Ungar-Sargon fez na revista Tablet, mas a prisão aleatória de centenas de judeus aleatórios e o massacre que se seguiu não pode ser justificado. Além disso, o Exército Insurgente Ucraniano (EIU), nos anos seguintes, mesmo quando seus líderes estavam nas prisões alemãs, conduziu uma campanha de assassinatos em massa e limpeza étnica contra judeus e poloneses.

A Alemanha não reconheceu o novo estado independente da Ucrânia e prendeu Stetsko e Bandera (18). Isso levou muitos a erroneamente presumir que Bandera portanto resistiu aos nazistas. No entanto, o fato de Bandera não ter sido executado pelos alemães, mas preso em Berlim e depois transferido para Sachensenhausen em boas condições é testemunho de que ele não era visto pelos nazistas como um inimigo, mas como um colaborador e um encrenqueiro. De fato, mesmo depois de sua libertação, um ano depois, Bandera continuou a colaborar com os nazistas (19). Além disso, ações da OUN e da EIU contra os alemães eram muito pequenas (20). O historiador Per Rudling esclarece que “50% dos líderes do EIU tinham prática como colaboradores da polícia, dos militares ou dos órgão punitivos dos ocupantes nazistas e tiveram um papel essencial na implementação do Holocausto na União Soviética ocupada [pelos alemães] (21).”

Dizer que Bandera e o Exército Insurgente Ucraniano (EIU) eram lutadores contra os alemães, portanto, é simplesmente falso. Ao mesmo tempo, também é incorreto pensar todos os ucranianos como colaboradores dos nazistas. O EIU tinha entre 19 mil e 22 mil soldados, enquanto milhões de ucranianos se juntaram ao Exército Vermelho (22).

O EIU, cujas bandeiras foram adotadas pelos partidos Svoboda e Setor Direita hoje em dia, aderiu a uma política racista de “Ucrânia para os ucranianos” (23) e buscou fazer limpezas étnicas na área sob o seu controle.

De acordo com o historiador Per Rudling, pelo menos 58 massacres aconteceram no leste da Ucrânia, com um número de mortos entre 13 mil e 35 mil (24). “Soldados do EIU testemunham que ordens para matar poloneses costumavam se sobrepor com as ordens para matar judeus, algo refletido nas canções militares do EIU.” (25)

O professor John-Paul Himka, em seu artigo “O Exército Insurgente Ucraniano e o Holocausto”, escreve que no começo de 1944, um grupo de 376 judeus em Radyvyliv, que trabalhavam para os Banderas, foram gradualmente mortos pelos seguidores de Bandera e somente 34 sobreviveram. Nas florestas perto de Ozeriany e Kupychiv, seguidores de Bandera assassinaram todos os 70 judeus que trabalhavam no campo de trabalho (26). Um comandante matou a última mulher judia de Chernoplesy, apesar de ela afirmar que ela havia cuidado dele quando ele era uma criança (27). Centenas de judeus foram esfaqueados na floresta de Osta?owiecki em março de 1944 (28). Moshe Maltz, um sobrevivente, escreveu que “Quando as gangues de Bandera capturam um judeu, eles o consideram um troféu… Eles literalmente cortam judeus em pedaços com suas machetes. (29)”

No inverno de 1943 – 1944, a OUN e o IEU < tentaram ganhar o apoio de aliados do Ocidente e se retrataram como mais intolerantes, apesar de a sua matança contra os judeus ter só se intensificado durante esse período (30). Doba Melamed, um sobrevivente, conta que “no verão de 1943 os Banderistas começaram a matar os poloneses… Nós descobrimos que perto da cidade de Antonivka, no vilarejo de Rezyca, judeus viviam em liberdade, que os Banderistas haviam anunciado que não os matariam porque eles estavam lutando contra um inimigo comum. Nós fomos para Rezyca. Na verdade haviam centenas de judeus vivendo em liberdade, trabalhando para os camponeses como curtidores, costureiros, sapateiros e coisas do tipo.” “As casas dos poloneses permaneceram vazias. Então os Banderistas anunciaram que a Inglaterra e os EUA, como países dos quais eles eram aliados, haviam os proibido de matar judeus, que eles iriam permitir aos judeus viver nas casas abandonadas pelos poloneses… Em dezembro de 1943 os Banderistas começaram a registrar os judeus de novo. Depois do registro eles anunciaram que se um judeu escapasse, o resto seria morto… Em dezembro de 1943, um judeu bateu na nossa janela e gritou: ‘Corram, os Banderistas mataram os judeus de Antonivka’. Nós corremos para a floresta. Nós enviamos o guia para investigar. Ele voltou com a notícia de que os Banderistas haviam matado todos os judeus, com machados e facas (31)”. Existem abundantes testemunhos do assassinato em massa de judeus pelo Exército Insurgente Ucraniano quando o Exército Vermelho se aproximava (32).

Um documento da OUN/EIU de 1943 deixa claro que o EIU não era um movimento pela liberdade, mas uma organização genocida que era intrinsecamente anti-semita e racista. Um documento dizia que “[Os judeus foram] quase completamente liquidados, pequenos grupos ou indivíduos se esconderam nas florestas e esperam por uma mudança na situação política. Nós liquidamos, na região de Horyn, sete homens judeus e uma mulher judia (33).” Um panfleto do EIU de agosto de 1943 diz que “o eterno inimigo da Ucrânia, Moscou, envia para a destruição da nação ucraniana bandos de ciganos, moscovitas, judeus e outra ralé, os chamados ‘partisans vermelhos’ (34).” Mykhailo Smenchak, um nacionalista ucraniano que lutou nas fileiras do EIU e da OUN, escreveu, se referindo aos judeus, que “nós os consideramos agentes do imperialismo de Moscou, anteriormente czarista e agora proletário. Todavia, nós precisamos primeiro derrotar os moscovitas e depois os judeus sobreviventes (35).”

Alguns dizem que judeus serviram no EIU e que, portanto, se tratava de um movimento de libertação. John-Paul Himka esclarece, no entanto, que os judeus foram forçados a servir no EIU como médicos e só o fizeram para sobreviver (36). Rumores de que muitos judeus serviram no EIU voluntariamente não são apoiados em evidências (37) e muitos poucos médicos judeus conseguiram sobreviver ao serviço (38). Um pequeno número de judeus foram resgatados em casos isolados por soldados do EIU, mas esses casos se deram por circunstâncias particulares e não por uma motivação política (39). Sob a luz desses fatos, é trágico que alguns judeus hoje escolham se identificar com o IEU ou apagar os crimes dos seguidores de Bandera. Os banderistas costumavam torturar suas vítimas, caçaram judeus nas florestas e constantemente os atraíram para fora de seus esconderijos fingindo serem partisans [soviéticos] (40). De acordo com Rudling, “sobreviventes judeus no oeste da Ucrânia tipicamente enfatizam que 98,5% dos judeus de Volhynia foram assassinados. Houveram poucos lugares na Europa aonde o Holocausto foi tão brutalmente profundo, e se não fosse pelos Banderistas, mais judeus teriam sobrevivido (41).”

Enquanto o assassinato de judeus pelo Exército Insurgente Ucraniano continuou até depois da ocupação soviética em 1945 (42), as autoridades soviéticas ficaram envergonhadas com o grande número de moradores locais que colaboraram com os nazistas e estavam interessados em colocar a culpa na Alemanha, com a esperança de receber recompensa financeira pelo imenso dano e perdas (43). Por essa razão, muitos dos responsáveis se livraram da justiça. Para tornar tudo pior, alguns dos responsáveis foram depois apoiados pelos EUA. O Batalhão Nachtigall, que foi parte de uma facção da OUN liderada por Bandera (OUN-B) e participou das atrocidades contra os judeus em Vinnytsia (44), euquanto alguns de seus soldados participaram do Massacre de Lviv (45). O Batalhão foi apoiado pela CIA depois da Segunda Guerra Mundial e seus membros foram lançados de pára-quedas naquela região para lutar contra os russos. Um lobby ucraniano que contava com muitos ex-nazistas foi bem estabelecido nos EUA com o apoio de várias administrações Republicanas, de acordo com Paul H. Rosenberg.

O Resultado Histórico

Como a Ucrânia escolher comemorar as atrocidades que aconteceram devido à Organização de Ucranianos Nacionalistas e ao Exército Insurgente Ucraniano? O historiador Per A. Rudling, no seu artigo “A OUN, o EIU e o Holocausto: Um Estudo sobre a Criação de Mitos Históricos”, explica que no começo de 1943, a OUN começou um processo de revisionismo histórico e colocou a culpa pelas mortes nos alemães e nos poloneses (46). O EIU chegou a fabricar evidências depois de se tornar aparente que os alemães estavam perdendo a guerra (47). De fato, em 1947, o EIU começou a negar que foi sequer anti-semita e que foi responsável por ações contra judeus (48). Um líder da OUN disse que os ucranianos sofreram as ações dos alemães mais que os judeus (49). No entanto, os líderes da OUN e do EIU não foram executados pelos nazistas, mas eventualmente soltos (50), enquanto os judeus tiveram um destino diferente.

De acordo com Rudling, depois da eleição de Viktor Yushchenko, apoiado pelo Ocidente durante a “Revolução Laranja”, historiadores ucranianos apresentaram o IEU e a OUN como grupos que incluíam judeus e os resgatavam durante o Holocausto (51). No entanto, no mínimo 48% dos comandantes do EIU colaboraram de diversas formas com os alemães (52).

Em 2010, Stepan Bandera recebeu o título de “Herói da Ucrânia” pelo governo ucraniano [Nota: o título foi concedido pelo ex-presidente Viktor Yushchenko no dia 22 de janeiro de 2010, três dias antes de Viktor Yanukovytch assumir]. Em Lviv nós vimos o gigantesco monumento de Stepan Bandera com uma bandeira preta e vermelha, bandeira do Exército Insurgente Ucraniano ao seu lado, junto de um buquê de flores amarelas e brancas, as cores da bandeira da Ucrânia. Monumentos dedicados aos ultra-nacionalistas ucranianos foram colocados em lugares aonde guetos de judeus existiram e em Babi Yar (53). Na prisão Zolochiv, em Lviv, um memorial foi construído para marcar o assassinato de prisioneiros políticos ucranianos peloa NKVD, mas não o assassinato de judeus durante o pogrom de Lviv (54). O professor Himka escreveu que “o que os ucranianos precisavam não era diálogo, mas um exame de consciência. Os ucranianos estavam muito prontos para culpar os outros por tudo: os alemães foram responsávies por tudo no Holocausto, enquanto os russos e os judeus foram responsáveis por todos os crimes soviéticos. Essas atitudes demonstram decrepitude mental e moral (55).” No entanto, é importante notar que no Leste da Ucrânia, aonde a cultura russa é forte, a OUN e o IEU são amplamente odiados (56).

Em Lviv, o apoio ao UEI era óbvio. Bandeiras rubro-negras estavam penduradas em vários lojas e restaurantes, e até em um restaurante judeu cujos donos são ucranianos. Na Universidade Estatal de Lviv, um grande cartaz vermelho e preto decorava os prédios com slogans nacionalistas. Eu ouvi de um amigo local que a universidade tem muitos estudantes ativistas que receberam crédito estudantil por participar nas manifestações do Maidan e que agora eles estão ocupados com ativismo estudantil para a guerra. Na verdade, em abril de 2014, alguns em Lviv fizeram uma homenagem à Primeira Divisão Galega, que era parte da SS. Em uma marcha em homenagem à Divisão, os participantes começaram a caminhar a partir do monumento a Bandera e terminaram a marcha no memorial aos soldados galegos. Durante minha visita, eu explorei o quarteirão judeu da cidade. Eu vi os restos de uma velha sinagoga. “A Rosa Dourada”, com um restaurante com “tema judeu”, propriedade de uma família ucraniana, foi colocado ao lado. Várias imagens da vida dos judeus na área estão penduradas no restaurante. Os preços não são definidos no restaurante, você tem que “barganhar” para eles, no suposto “jeito judeu”. Pequenas bandeiras rubro-negras do mesmo Exército Insurgente Ucraniano, cujos membros assassinaram a comunidade judaica, estão no bar do restaurante, e uma caixa de doações permite aos visitantes doar dinheiro para os soldados ucranianos lutando no Donbass, muitos dos quais são nazistas.

Continuando a andar pela cidade, mais e mais placas perturbadoras apareciam. Diversas lojas vendiam as bandeiras rubro-negras, e camisetas mostrando Stepan Bandera como um um herói e Vladimir Putin como um Hitler eram vendidas. Graffiti fascistas em vermelho e preto com as famosas palavras de Hitler “Deus está conosco” pareciam não perturbar quem os via. Um capacho representando o rosto de Putin, com a bandeira da União Européia e da Ucrânia ao lado era vendido em outra loja, enquanto em outra, uma grande placa anunciava recrutamento para a organização ultra-fascista “Setor Direita”. Em uma espécie de feira no centro, diversos cachecóis com o rosto de Bandera eram vendidos, ao lado de papel higiênico com o rosto de putin e outras figuras. Eu me apressei para tirar algumas fotos, mas eu não queria atrair muita atenção. Felizmente, não havia muitas pessoas na área, devido ao fato da feira estar fechando por conta da neve, o que possibilitou que eu tirasse diversas fotos. Um estranho me olhou de forma ameaçadora, então eu saí da área rapidamente. Pela manhã, a neve já havia sido empilhada, e nós fomos embora de carro, dirigindo para a fronteira. Nós passamos por terras desocupadas, cobertas por neve, e eu não pude parar de pensar nas várias comunidades judaicas que uma vez existiram na área e como aqueles que foram responsáveis pela limpeza étnica e pelos assassinatos dos vizinhos poloneses são glorificados hoje.

Lviv é uma bela cidade, mas para mim pessoalmente ela sinaliza mais de sua ausência do que o que ela é hoje. O memorial para o gueto judeu de Lviv foi construído principalmente por doações privadas de fundações judaicas. A existência de diversas bandeiras do EIU na cidade significa que poucos se arrependem da limpeza étnica dos poloneses e do assassinato em massa de judeus e poloneses. Além disso, o atual prefeito paga um salário de 1.000 grívnias aos antigos soldados da ONU. O fato de que neonazistas agora formam parte de unidades do exército, enviados para lutar no leste ucraniano, e que a Ucrânia têm visto uma onda de nacionalismo extremista em episódios como as recentes marchas em Kiev em homenagem aos 106 anos de Bandera, significa que pode ser difícil colocar os demônios libertados pelos EUA de volta em suas jaulas. O fascismo ucraniano ainda está muito vivo, inclusive com o Primeiro-Ministro Yatsenyuk se referindo à população do leste da Ucrânia como “subhumanos.” Depois de chegar à Polônia no dia seguinte, nós vimos diversas transportadoras carregando tanques de guerra modernos. Enquanto os EUA continuam a apoiar os fascistas ucranianos e lhes entrega tanques, os demônios do passado retornaram. O mesmo slogan fascista “Morte aos Inimigos” é gritado em Kiev, com soldados ucranianos pedindo a “purificação da nação”.

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Esse texto foi escrito pelo jornalista independente israelo-americano Joshua Tarkakovsky, graduado na Universidade Brown e na London School of Economics. O texto foi originalmente postado no site www.truth-out.org e traduzido do inglês pela Revista Opera.

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