Exercício epistolográfico

Por Luciane Recieri, para Desacato.info

Jacareí, 08 de junho de 2018.

Caro amigo Campos,
Ao contrário de você, começo cheia de rapapés, até inventei-lhe um modo formal de chamar, como se não fôssemos tão amigos, mas “caros colegas”. Deve ser também uma forma de procrastinar, tomar fôlego, porque tenho escrito muito pouco, o que me faz acreditar que perdi o jeito, ou na melhor das hipóteses, apenas me encorajar a contar tudo que tenho passado nesse experiência como professora, porém, além da professora, segue ainda a pessoa que conheceu naquela fila do cine cult (tenho certeza que eu só estava lá porque, na época, a sessão cult saía ao módico e irrisório valor de três paus).
Quantos golpes nos custaria hoje uma sessão no Cinemark?
Você era diferente, usava colares e era bem mais menino. Hoje, lhe vejo tão sóbrio, tão Dalloway… Eu te sinto muito jovem; ao mesmo tempo, inconcebivelmente velho, como diria Virginia Woolf. Esses últimos meses tenho levantado da cama às quatro horas. Corro no cuidado com os bichos e caminho cinquenta e cinco minutos até a escola num frio dos diabos. A escola é igual a todas as escolas do Estado: feias, frias, escuras, porém, o que mais me assusta é a sirene. Tenho feito boa camaradagem com o alunado. Não lhe digo que foi um processo difícil, acredito que seja porque senti amor por eles logo de cara, apesar de não ter motivos explícitos para isso. Claro que um ou outro tenho vontade de esbofetear. Tem um lá que anda me tirando do sério desde que dei como tema a “abolição” da escravatura.
Tenho o costume de andar entre as carteiras, apesar de que poucos se sentem. Gostam mesmo de ficar apinhados nas vidraças, zombando de quem está na quadra. Bom, sei dizer que lancei a pergunta a um grupo de meninos brancos que se sentam isolados do resto da sala. (quais as consequências do tráfico e a escravidão de africanos e se a reforma agrária teria dado rumo diferente ao Brasil). A resposta dele foi “que negro tem que morrer”. Fiquei sem ação, porque todos riram, sendo que a maioria da turma é formada por negros e pardos. Dias depois, voltei a dar aula pra essa turma e abordei a tal greve dos caminhoneiros e acabei por desenhar uma charge na lousa, fazendo referência ao golpe em andamento. O menino branco-cabelos-longos-roupa boa se levantou e apagou a charge. Quando lhe perguntei sobre o ocorrido, disse “não concordar com aquilo”. O sangue me subiu à cabeça. Ordenei que ele refizesse a charge, mas aquilo me deixou mal. Depois, conversando com a única aluna que participava da aula, esta me contou que, há coisa de uns dias, o mesmo menino havia lhe chamado de “preta suja.”
Sabe, amigo. O que tem me desanimado demais na escola são esses rompantes de fascismo num canto ou noutro: numa fala de um professor (coisa bem corriqueira) e nas ações de alguns alunos. E mais. Nenhum professor acreditou que aquele aluno branco-cabelos-longos-roupas-boas havia feito tal coisa. “Se partisse de um daqueles candangos, eu até acreditaria.” (os candangos são os pobres e pretos). De resto sigo sendo. Desenho poesias da Carolina Maria de Jesus. Falo sobre aborto. Pena de morte. Das Mães de Maio; das Madres da Plaza de Mayo, de futebol, de resistência na arte e na poesia… Minha empolgação é tanta que me esqueço, tem hora, (ou a toda hora) que eles têm 14, 15, 16, 17, 18 anos.
Parece tão urgente contar as coisas porque parece que nos outros lugares eles não ouvirão falar disso. Tem hora que os sinto jovens, mas tão velhos… Tenho tentado, Campos. Tenho feito tudo que uma pisciana faria. Um amigo meu do Cinema disse que piscianos ou são santos ou devassos. Tenho certeza que cheguei ao patamar dos santos. Ao mesmo tempo que desanimo, quero caminhar. Não vou dizer que é fácil ou que vá melhorar. O que sinto é uma espécie de alegria ao contar uma história que eles desconheciam, mesmo que fiquem confusos, mesmo que me peçam pra parar (como no dia que contei sobre a mais valia).
Nosso exercício epistolográfico poderá um dia virar um livro. Minha vontade, quando lia o Caio F conversando com Zezim, era ter um Zezim pra eu desabafar de forma escrita, porque falando, me perco. Ah! A melhor parte do dia é quando eles param de cuspir na escada pra eu subir. Sinto que ganhei um lugarzinho no mundo. Vou dizendo, vou contando, vou levando, amigo. Sem mais, segue meu abraço e segue ainda meu convite para um café com bolo intimista. Traz o Nilo e Melissa. Grande abraço, Lu.
Imagem tomada de: MormonSUD.net
Luciane Recieri é cientista social e escritora, em Jacareí /SP

 

 

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