Ex-embaixador do Reino Unido na Síria: Improvável que Assad e a Rússia sejam os autores dos ataques químicos

2017-04-08 09:59

Peter Ford: Para começar é preciso definir quem [o crime] beneficia. Claramente não beneficia o regime sírio ou os russos, e considero altamente improvável a hipótese de que ou o regime sírio ou os russos estejam por trás disso tudo.

Há muitas possibilidades.

A primeira é que sejam fake news, notícias falsas, imagens, vídeos, informações todas falsas, saídas de fontes da oposição, não de jornalistas independentes nos quais se possa acreditar.

Também é possível que as imagens mostrem cenas de um bombardeio que tenha atingido um depósito jihadista de munições químicas. Sabemos de fonte segura que os jihadistas estocavam armas químicas nas escolas em Aleppo-Leste, onde essas munições foram vistas por jornalistas ocidentais. É uma outra possibilidade.

Jornalista : Seja como for, os que acreditam nessas notícias sempre destacam a questão de uma intervenção contra o regime de Assad.

Peter Ford : Verdade é que nós nunca aprendemos. As ditas armas químicas do Iraque, você lembra? Matraquearam nossos ouvidos sem descanso (para nos forçar a intervir). Em Aleppo, nos contaram que estaria a ponto de acontecer um holocausto, massacres… Nada disso aconteceu. Jornalistas independentes lá estiveram depois e não encontraram nenhuma prova de massacre algum. O que vimos eram combatentes sendo evacuados em ônibus, em perfeita calma. Em seguida descobrimos que muitas das imagens que circularam no ocidente eram encenações.

Jornalista : Há também quem diga “Ok, agora estamos lá; mas uma intervenção em 2013 teria mudado as coisas”.

Peter Ford : Nada há de construtivo em discussões sobre o que teria acontecido se isso, se aquilo… Pessoalmente, entendo que em 2013 foi muito acertado não intervirmos como aliados de jihadistas. Posso estar enganado, mas entendo que a maioria das pessoas, desde que refletissem por um instante, logo se perguntariam, elas mesmas, sobre quem substituiria Assad e seu regime secular, que dá proteção às minorias, aos cristãos, aos direitos das mulheres … Não me parece que os islamistas teriam constituído melhor solução. E isso é ainda mais verdade hoje.

Tenha bem em mente o fato de que Idlib, onde tudo isso aconteceu, é um ninho de cobras de jihadistas, dos mais extremistas.

(Os intervencionistas) são (como) cachorros que retornam ao próprio vômito. Já cometeram todos esses erros – o Iraque, a Líbia –, mas não aprendem, querem reproduzir o mesmo cenário agora na Síria. Felizmente, o governo Trump semana passada deu um passo adiante, e isso pode ser significativo; finalmente, semana passada, deu um passo na direção de desautorizar a política de Obama, que consistia exclusivamente de tentar derrubar o governo da Síria. O pessoal de Trump disse que estão mais interessados em erradicar o Daech, que essa é sua prioridade.

E é significativo que apenas poucos dias depois dessa manifestação do governo Trump, aconteça esse ataque. Se os jihadistas quisessem dificultar o serviço de Trump, que quer dar racionalidade à política dos EUA, os jihadistas sem dúvida tentariam distribuir informações falsas, como do tal ‘ataque químico’.

Fonte: Pátria Latina.

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