Eu sou a grávida passista. E também a grávida do banco da frente

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Há exatamente uma semana era quarta-feira de cinzas. E no exercício diário da leitura das notícias, depois de mais um carnaval, me assustei com o ódio disparado nas redes sociais contra uma grávida passista. Senti a necessidade de falar sobre isso, embora já com uma semana do fato passado, porque a violência contra a mulher é capaz de atingir limites da incoerência, como é o caso. Eu fui uma grávida passista. A grávida que durante toda a gestação usou transporte coletivo, se tornando uma mãe discriminada nas plataformas e nos ônibus agitados de uma capital do Brasil.

Por Clarissa Peixoto.

Quero começar falando da gravidez. Em 2009, faltando alguns dias para meu parto, pois minha filha nasceu em março, fui destaque de uma escola de samba em Laguna, cidade em que nasci. Desfilo desde os oito anos de idade e, nesse carnaval em que era gestante, desfilei numa bela alegoria que trazia para a avenida relações com a maternidade, com a fertilidade, colocando em evidencia a mulher em suas mais diversas formas. Os padrões estéticos, tão aclamados no carnaval, não estavam sendo seguidos. Eu, mais outras, barrigudas, com celulite. E o mais bacana: éramos destaques, éramos muito bonitas e estávamos mantendo os ritos de nossa cultura. Num mundo em que a indústria cultural se apropria da cultura popular, enlatando tudo e estereotipando o corpo da mulher, nos estávamos ali, fazendo o diferente.

O carnaval é cultura brasileira. E não vamos aceitar regras impostas para exercer nossas práticas culturais em nome dos padrões do ‘carnavalão’ das grande cervejaria e da emissora de TV. Se o carnaval é explorado, marginalizado, estereotipado e vendido a preço de banana, desculpem, mas ninguém vai tirar o nosso direito de fazê-lo como assim desejarmos. E sim, a grávida, como qualquer outra mulher, homem ou criança não pode ter seu direito de expressão e de exercício da sua cultura cerceado. Sobretudo, com uma justificativa que nada tem a ver com isso. Absolutamente nada. Dançar numa pista, assistida e por 50 minutos é bem diferente de sacolejar num ônibus lotado, quente, no caos urbano das cidades brasileiras.

Sobre isso, tenho conhecimento empírico. Minha filha fará seis anos em poucos dias. Há seis anos e nove meses sei bem como é depender do transporte coletivo duas vezes por dia, ou até mais, numa cidade como Florianópolis. Ônibus velhos, correndo pelas vias, lotados, com desprezo do poder público pelas pessoas que precisam, como eu, desse serviço. As crianças viajam em pé, assim como as mães, as grávidas, as senhoras e os senhores, os trabalhadores e as trabalhadoras, porque as linhas não colocam carros suficientes para as demandas. Suando e fervendo antes mesmo das oito horas da manhã, o ódio nos toma e nos faz culpar a pessoa sentada no banco em frente, que finge dormir para não ver a mãe com a filha e as mochilas.

Agora, sinceramente, esse ódio tem que ser mesmo da outra pessoa que usa o ônibus com você, a ponto de dizer que se uma mulher samba grávida pode ir em pé num ônibus como os que conhecemos em nossas cidades? Não, minha gente, acho que isso é um debate muito enviesado e sem propósito. Aliás, tem propósito sim, o de diminuição de direitos, o de preconceito contra a mulher, que são as maiores usuárias de transporte coletivo. Isso é misoginia.

Sambar por uma hora é saudável e maravilhoso. Insalubre, estressante e causador de doenças físicas e emocionais é enfrentar três horas de filas, sem ar condicionado, dentro de um ônibus lotado, até o Rio Tavares, como foi o meu caso, todos os dias, nos nove meses em que estive grávida, no ano de 2009, nessa linda e bela cidade de conhecido carnaval, chamada Florianópolis.

Foto: Assessoria de Imprensa – Laguna/SC

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