“Eu gozo com as músicas desse disco”, afirma Elza Soares sobre seu álbum “Deus é mulher”

Intitulado Deus é mulher, álbum mostra os desejos e anseios da intérprete carioca: “A gente ainda esconde muito nossa cara, então esse trabalho é um pedido: venham, saiam, busquem, gritem”

Foto: Cristiano Navarro

Por Guilherme Henrique.

Elza Soares, 87 anos, canta em busca da natureza que melhor lhe caia. Uma que seja sua cara, cuspida e escarrada, na qual a verdade apareça garimpada até não sobrar nada. Para dizer o que pensa e fazer do Brasil seu lugar de fala mais uma vez, ela abandonou o caminho que a levou ao fim do mundo. O objetivo agora é consagrar as mil nações que formam sua cara: “Deixem as mulheres e o povo gay em paz”, ela pede.

A mulher que habita Elza Soares não quer ser preservada em um corpo só. Há uma súplica: “Não tranquem a boca da nega”, como se a verborragia despejada nas onze faixas do novo disco fosse um guia. Se Deus é mulher, Elza é a filha primogênita, com linhagem finita. “Gostaria de ter mais Elzas, cantoras, buscando uma vida melhor, comer melhor, amar melhor.”

Ao apresentar fragmentos de um mundo possível para ela e seus pares, a carioca deixa claro que sexo, política e religião se misturam. Sem ser doutrinada em nenhum dos temas, desnuda com franqueza os próprios desejos. “Uma vontade comum/ na tua geografia/ a linha dura em mim/ suor na pele marrom/ o arrepio no pelo/ a veia da tua mão/ eu quero dar pra você”. A música, intitulada “Eu quero comer você”, sugere uma mudança de paradigma. “O homem ditou a moda por tanto tempo… Antigamente era assim: ‘Hoje eu te quero e, se você não quiser, eu te bato’. E a gente respondia: ‘Tá bem’”, comenta.

Os estímulos impregnados ao longo do álbum, o 35º da carreira de Elza Soares, fazem seu grito ecoar de maneira contundente em um país “calado e amedrontado”. O que Elza propõe em 2018 vai além da música. “Nós estamos em um momento em que podemos falar mais, porque no passado falávamos muito pouco. O negro se pronunciava muito pouco. Até hoje, nos shows que eu faço, fico me perguntando: ‘Cadê o negro, meu Deus?’. É preciso que ele saia de casa, pelo amor de Deus, e bote a sua cara”, diz.

Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, a cantora despiu as camadas de um disco leve, ensolarado e cheio de respostas, como a própria definiu em um quarto de hotel na região central de São Paulo. Desprendida de qualquer amarra social e moral, Elza Soares proclama a liberdade para encarar este tempo e os perigos derivados dele. Como ela diz em uma de suas músicas: “Quero voz e […] ar/ quero mesmo é incomodar”.

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – Deus é mulher é uma continuação de A mulher do fim do mundo, mas parece buscar um novo caminho para falar do mundo, do futuro. Que caminho é esse?

ELZA SOARES – Tem que correr tanto, cara. É preciso correr muito. Não é que esse trabalho foi feito para dar continuidade ao A mulher do fim do mundo. É um álbum que nós queríamos que fosse mais claro, saindo daquela coisa dark, fechada, que foi o disco anterior. Ele foi importantíssimo, muito forte, questionando: “Será que o mundo vai acabar?”. O Deus é mulher chega com algumas respostas, mais iluminado, sol. É isso que nós buscamos para as mulheres, para o mundo gay. O meu trabalho é tudo isso.

Certa vez você disse que “tem gente que fala, mas não abre a boca”. Essa leveza ressaltada há pouco faz parte desse pensamento?

Sim. Continuar falando, mas abrindo a boca, pelo amor de Deus. Quero ver as pessoas falando. Não se pode falar com medo. Quando falamos com medo, deixamos a boca meio fechada, sem certeza do que se está dizendo. É por isso que eu digo: “O meu país é meu lugar de fala” [“O que se cala”]. Uso a minha voz para dizer o que cala, como uma maneira de me expressar, gritar.

Ainda sobre esse trecho, ele aparece em “Exu nas escolas”, sobre quebrar a hegemonia dos discursos vencedores. O lugar de fala é uma maneira de romper com isso, trazendo uma perspectiva dos negros, das mulheres?

Lógico, a intenção é essa. Dar essa abertura aos negros, às mulheres. Nós estamos em um momento em que podemos falar mais, porque no passado falávamos muito pouco. O negro se pronunciava muito pouco. Até hoje, nos shows que eu faço, fico me perguntando: “Cadê o negro, meu Deus?”. É preciso que ele saia de casa, pelo amor de Deus, e bote a sua cara. Faz como o Cazuza disse: “Brasil, mostra a tua cara”. A gente ainda esconde muito nossa cara, então esse trabalho é um pedido: por favor, venham, saiam, busquem, gritem.

A canção “Dentro de cada um” mostra que mulheres diferentes estão prontas para ocupar os espaços, saindo das jaulas, das malas. Nossa sociedade está preparada para discutir e aceitar as demandas dessas mulheres?

Mas a sociedade precisa estar preparada. Se não estiver, a gente prepara. Somos nós. Está dentro de cada um de nós. Precisamos fazer, sem esperar por ninguém.

Você costuma dizer que ser livre antigamente era muito complicado, por causa do machismo, do preconceito. Você se considera livre hoje, ainda que esses problemas continuem em nossa sociedade?

Isso tudo está aí vivo, latente. Muita repressão. É muito estranho tudo isso. Vejo um mundo com muito medo. As pessoas estão medrosas, porque elas não sabem qual é o caminho certo. Elas ficam nessa de “para qual lado eu vou?”. Eu digo que o momento é o seguinte: o caminho está aqui, você que não está enxergando. Vamos nós.

Isso de abrir os caminhos, interiorizando essa responsabilidade, é recorrente em sua trajetória. Isso pesa em algum momento?

Não sei dizer. Está tudo dentro de nós, cara. Se você busca o certo, está tranquilo. A gente que dificulta. Ficamos no “será”. Esse “será”… Tira isso fora, porra! Não existe, bane esse tal de “será”.

No livro Verdade tropical, Caetano Veloso afirma que ele, desde a infância, tem um sentimento de grandeza, de que faria algo importante no mundo. Você também tinha isso?

Lógico. Eu não tinha tanta esperança. Trilhei um caminho bem diferente do feito pelo Caetano. Mulher, negra, pobre… Sempre sonhei muito, tentando sair disso, buscando algo melhor, buscando Deus nos meus pedidos. Nunca esqueci de pedir que me iluminasse, que me mostrasse qual seria o caminho. Esse Deus que eu tinha era o meu pai. Meu pai sempre foi o meu Deus, a vida toda. Perguntava: “Pai, como paro de carregar água?”, “como deixo de andar descalça?”, “como posso chegar em um lugar sem que ninguém ria do meu cabelo, da minha cor?”. Perguntava muito ao meu pai, seu Avelino. Mas nunca deixei de ter esse sonho de ser grande. Eu era grandiosa! Mesmo sem saber qual era o caminho, tinha esperança em um mundo melhor. É o que eu digo: caminho de pobre e negro é difícil. Mas eu sempre soube que ia encontrar o caminho para dizer: “Estou livre”.

Você sempre fala que acredita em Deus. Na música “Credo”, ressalta que esse amor não cabe em nenhuma religião e complementa: “Sai pra lá com essa doutrinação”. Como a religião aparece em sua vida?

Estou falando sobre isso ao Zeca [Camargo], que está fazendo o meu livro. Fui criada com grandes médicos, os pais de santo. Pobre que não tinha médico, mas tinha os terreiros, suas ervas, banhos, e que hoje as pessoas ficam negando. Negam essa erva para nós, brasileiros, enquanto ela é vendida para o exterior. Essas ervas que eu usava quando criança e que hoje ninguém fala nada. Os pais de santo que me criaram foram grandes médicos, e eu não posso dizer que eles não existem. Eu sou a prova disso e essa é a minha religião.

Ainda sobre o tema, as religiões de matriz africana ainda sofrem com muito preconceito, não?

E elas foram as primeiras, meu bem. A maioria do povo brasileiro está vivo por causa delas.

Aproveitando que falamos do passado, certa vez vi uma declaração sua dizendo que ouvia muita música norte-americana no rádio. Nós ainda vivemos isso?

Cara, eu até agradeço, porque eu vejo negro americano diferente de nós. Quando a escravidão acabou lá, eles ficaram com um pedacinho de terra, um boi, podendo plantar e comer. Os negros dos Estados Unidos fizeram aquele país forte, musicalmente inclusive. Nós deixamos a escravidão sem recurso nenhum, sem terra, trabalho, o último a ser libertado, e mesmo assim ainda sentíamos o chicote atrás. Não tivemos a chance de ter grandes músicas. Na minha época ouviam-se as serestas e a música americana. Até que apareceram Tom Jobim e outros compositores, que foram banalizando a MPB. Era muito difícil a canção brasileira tocar em outros lugares do mundo. Ainda hoje não temos portões abertos para nossa música no exterior.

Há um show seu recente, em Buenos Aires, que ficou bem famoso. Como é a receptividade de seu trabalho no exterior? Sempre foi boa ou mudou nos últimos anos?

Comecei minha carreira em Buenos Aires, depois daquela coisa toda com o Ary Barroso. Tive a felicidade de cantar com o [Astor] Piazzolla, por exemplo. Lá que surgiu a Elza Soares mesmo. A minha volta foi triunfal. Passei pelo mesmo teatro onde cantei, lembrei de mim garotinha, no palco grande, imenso. Foi muito bonito rever tudo isso.

Elza, percebo que sempre há um cuidado para se autodenominar uma estrela. Em outra oportunidade, você afirmou que é preciso polir essa estrela a todo momento. De onde veio essa consciência?

Cara, você não precisa dizer “eu sou uma estrela”. Você é um ser humano, gente, porra. Não é por aí. Quero ser a essência, a verdade. Não quero ser uma mentira. “Eu estou falando porque sou a Elza Soares.” Não, estou falando porque sou um ser humano, uma mulher negra. Não preciso ser uma grande estrela, mas um ser humano respeitado. Só isso que eu quero. Tenho muito cuidado com isso de “oh, estrela!”, “oh, magnífica!”. Não gosto.

Recentemente você disse que tem visto o povo brasileiro calado, submisso…

Completamente. Calado, amedrontado. Estamos passando por um momento de ódio, o que é muito triste. Um país desse, tão lindo, claro, ensolarado, com um povo tão bonito. Que sofre, mas é lindo. De repente, esse povo está ficando assustado, coagido. Pelo amor de Deus, gente, não se entristeça tanto, esquece o ódio e vamos partir para o amor. Já atravessei momentos do Brasil, da ditadura, por exemplo, quando tive que fugir com o Garrincha, ir embora, porque me expulsaram. Mas passou e eu estou aqui, e espero nunca mais sair do país.

Algo te dá medo ou receio no Brasil de hoje?

Medo, não. Não tenho medo de nada. Receio, sim. Tenho receio do povo se calar, não mostrar a força que tem, porque temos uma força muito grande. Neste momento de medo, de se questionar o que fazer, o povo não pode se recolher. É agora que eu preciso gritar, impedir que fechem a minha boca. Não tranquem a boca da nega. O meu país é o meu lugar de fala.

Elza, tanto no A mulher do fim do mundo quanto no Deus é mulher, a sexualidade aparece com muita força, em músicas como “Pra fuder” e “Eu quero comer você”…

É isso mesmo. As mulheres vão dizer: “Quem quer comer você sou eu”. Pá, lindo!

Mas o homem precisa saber ler, não é?

Meu amor, o homem ditou a moda por tanto tempo… Antigamente era: “Hoje eu te quero e, se você não quiser, eu te bato”. “Não diz que está com dor de cabeça, meu bem, porque eu quero comer você”, e a gente respondia: “Tá bem”.

Seus desejos físicos aparecem nessas canções?

Completamente. Eu gozo nessas músicas.

Sobre Deus é mulher enquanto álbum, como foi sua participação? Você acompanhou tudo de perto ou deixou que os músicos trabalhassem livremente?

Eles ficaram livres na criação. Recebemos sessenta músicas e escolhemos onze. Olha a dificuldade! A única coisa que eu pedi nesse álbum foi a presença de mais mulheres. No trabalho anterior, não tivemos muitas composições femininas. O [produtor] Guilherme Kastrup foi a minha casa, colocamos todas as músicas no chão e escolhemos. Veio a Tulipa, a Maíra Portugal, lindas mulheres.

Recentemente, vi um comentário seu afirmando que muitas mulheres têm posições machistas, ainda que não percebam. Sua música tem esse papel de alerta?

Claro, para que elas saiam disso. Estamos brigando contra isso. É uma maneira de dizer que esse caminho não é nosso. Sei lá, cara, eu queria um mundo livre. Será que custa muito? Olha aí o “será”… Vai demorar muito para termos um mundo livre?

Ainda sobre nosso país, você diz que o Brasil lhe deve muito…

Deve muito. Não só a mim, mas ao seu Garrincha, à Elza. Mas estamos recuperando.

O que gostaria de receber do Brasil?

Mais liberdade para o povo. Para mim, não sei. Um país mais livre, leve, para todo mundo. Não adianta só a minha felicidade. Todo mundo precisa ser feliz. Não adianta ter uma mesa farta e saber que lá fora tem gente passando fome. Vi esta frase hoje e gostei: “Menos dízimo e mais cesta básica”. Deus não quer dinheiro.

Sua música seria diferente se vivêssemos em outra sociedade?

Acredito que sim, cara. Acho que é isso que eu busco. E gostaria de ter mais Elzas, cantoras, buscando isso também. Mais gente falando, gritando, porque eu não sou a única a querer isso. Uma vida melhor, comer melhor, amar melhor.

Qual é sua avaliação da atual música popular brasileira?

Ela precisa crescer mais. Dizem que um bom país é um país de boas músicas. Acho que devemos pensar nisso. Vamos fazer nosso país grande, com boa música? Estão acordando e se empenhando nisso também. Letras que ganhem o exterior. Lá fora também tem porcaria, tá? Mas precisamos engrandecer nossa pátria.

Tem um trecho de “Olho aberto” que diz: “Cada um inventa a natureza que melhor lhe caia”. Qual é a sua?

Preciso inventar a minha natureza. “Ora, cara, não me venha com esse papo sobre a natureza”. Muito bom, não? A gente inventa. Acho que a minha natureza é essa de brigar. Não digo brigar, mas reivindicar. De buscar, pedir socorro. Não peço só para mim, mas para nós. Deixe o povo gay em paz, as mulheres em paz.

Você falou de liberdade, e há sempre uma catarse em seus shows, com pessoas gritando. Por que isso acontece?

É só darmos espaço para o que está em nós. Vamos supor: se eu quiser pular da janela, o que você vai fazer? Serei a louca, claro. Mas eu não quero isso, quero ficar aqui dentro. Eu quero isso. O querer, a força, está dentro de nós. Na música “Credo”, eu digo: “Não quero o medo me dando sermão”. Não é você que vai dizer o que posso ou não fazer. Eu sei e pronto.

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