Espanha: Quinhentos anos de oportunidades perdidas

Por Sebastian Schoepp.

(Português/Español).

Que se passa em Espanha? Durante o mandato de José María Aznar como primeiro-ministro (1996-2004), o país ainda era tido como aluno modelo da UE em matéria de crescimento. Os fundos estruturais europeus afluíam à quarta economia da zona euro ao nível dos 150 mil milhões de euros.

Mas, dos terrenos pobres da Andaluzia e de Castela não brotaram empresas florescentes e, sim, projetos de investimento ruinosos, cujos vestígios se encontram hoje tão degradados como os castelos da época do Cid. Uns e outros são a expressão de um modelo social antieconómico que caracteriza a Espanha desde há meio século.

A Espanha viveu o período dos tempos modernos num isolamento voluntário, que só terminou nos anos 1960 do século passado, quando o ditador Francisco Franco abriu o país ao turismo. Assim, a Espanha entrou tarde e penosamente na modernidade, “nervosa e apressada como um convidado que chega atrasado a um banquete e que tenta, como pode, recuperar o que perdeu” – escreveu, em 1969, Juan Goytisolo, em “Espanha e os espanhóis”, um ensaio que se mantém atual.

Foi com a mesma pressa que, vinte anos mais tarde, a Espanha começou a gastar o maná caído do céu, sob a forma dos fundos estruturais europeus. No entanto, em vez de investir numa sociedade produtiva, quis fazer parte da Europa o mais rapidamente possível e modernizar-se, o que queria dizer ter um ar moderno. Ao princípio, o dinheiro foi gasto com discernimento mas, mais tarde, passou a ser utilizado com uma precipitação alimentada pela política fundiária ultraliberal de José María Aznar.

Tocha do imobilismo empunhada pelo catolicismo

Contudo, a marcha triunfal do antieconomismo começou em 1492. Na época, a Espanha tinha não apenas descoberto a América mas também conquistado o último reduto do domínio árabe em Granada, antes de, nos séculos seguintes, expulsar do país judeus e mouros. Acontece que estas duas comunidades detinham as rédeas das artes e ofícios e do comércio. E o fidalgo cristão abominava o labor: todos os trabalhos lhe estavam interditos, em nome de um estranho código de honra, e só enxergava uma missão divina na soldadesca.

As riquezas das colónias escorriam entre os dedos dos espanhóis como ouro líquido. A Europa Central enriquecia com o ouro inca, enquanto a nobreza espanhola dormitava passivamente sobre os rendimentos de latifúndios em ruínas.

Durante três séculos, tudo o que se assemelhasse a uma atividade produtiva foi objeto de perseguições por heresia por parte da Inquisição. Quem ousasse fazer investigação, ler ou dedicar-se a tarefas manuais corria o risco de acabar na fogueira.

Com o desaparecimento da Inquisição, a tocha do imobilismo passou a ser empunhada pelo catolicismo espanhol. Nem mesmo a laicização do país conseguiu quebrar essa armadura. Só no País Basco e na Catalunha se assistiu ao aparecimento de zonas industriais. É verdade que foram criadas ligações de transporte – mas com grandes obstruções. Assim, existia uma rede ferroviária, mas a bitola não era a mesma que em França, para o país não ficar demasiado perto da Europa. A Europa termina nos Pirenéus, dizia-se então.

Movimento anarquista forte

Só no século XIX se assistiu ao aparecimento tímido de uma burguesia dinâmica, mercantil, politizada. A Espanha é o único país do mundo que foi palco do surgimento de um movimento anarquista forte. Este tem hoje a sua versão revista nos indignados da Puerta del Sol em Madrid, que estão unidos na revolta contra o capitalismo mas que não conseguem associar-se.

O anarquismo triunfou nos anos 1830, até ser esmagado por Franco e pelo seu golpe militar, durante a Guerra Civil. Franco fez regressar bruscamente a Espanha aos tempos da Inquisição. Para impor a calma, promoveu deliberadamente o imobilismo, após a sua vitória. O número de proprietários explodiu, graças à construção de habitações e às ajudas financeiras. Ao fazer isto, Franco lançou a primeira pedra do boom especulativo que iria ocorrer mais tarde.

A Espanha soube superar com brilho a agitação política que se verificou quando do fim da ditadura, em 1975, e dotou-se de uma sociedade liberal. Mas, em contrapartida, no plano económico, manteve-se bloqueada na época da Baixa Idade Média.

Deitar abaixo a barreira dos Pirenéus

Ainda hoje, muitos jornais e blogues espanhóis caracterizam-se por um discurso egocêntrico e por querelas partidárias. O provincianismo não permitiu que Castela ou a Andaluzia seguissem o modelo do País Basco ou da Catalunha, duas regiões mais produtivas que, por seu turno, se recusam obstinadamente a partilhar o seu saber-fazer com o resto do país.

Para os espanhóis, escreve Juan Goytisolo, a questão não é tanto obter ganhos materiais de uma tarefa mas o empenho pessoal nessa tarefa. Acontece que os mercados anglo-saxónicos, regidos pela fria eficácia protestante, não dão tempo a que uma tal estratégia dê frutos, no plano comercial. Hoje, por falta de orçamento, as mutações necessárias para reestruturar o sistema educativo e a investigação, centrando-os na prática, são impossíveis.

Enquanto a Europa não se decidir a deitar abaixo a barreira dos Pirenéus, desbloqueando ajudas direcionadas em favor da modernização da economia e da educação, a Espanha será obrigada a refugiar-se numa das características da sua personalidade, que, segundo Juan Goytisolo, sempre prejudicou a sua ascensão: a falta de ambição.

Os espanhóis sabem suportar uma crise. É uma coisa que têm feito ao longo de 500 anos.

Fonte: http://www.presseurop.eu/

Imagem: KAP.

España: 500 años de ocasiones perdidas

Por Sebastian Schoepp.

¿Qué pasa con España? Todavía en los tiempos en que José María Aznar era presidente del Gobierno (entre 1996 y 2004) España era la niña prodigio del crecimiento en la UE y 150.000 millones de euros en ayudas estructurales fluyeron desde Bruselas hacia la cuarta economía del ámbito europeo.

Sin embargo, en las austeras tierras de Andalucía y Castilla se alzan, en vez de negocios florecientes, las ruinas de inversiones fallidas; allí yacen tan muertas y abandonadas como los pueblos de la época de El Cid. En una y en la otra se expresa un modelo de sociedad antieconómico que España viene conformando desde hace medio milenio.

España entró tarde en la modernidad

En la época contemporánea España vivió en un aislamiento que se impuso a sí misma y que solo acabó en los años sesenta del siglo pasado, cuando el dictador Francisco Franco abrió el país al turismo. España entró en la modernidad, pues, tarde y a trompicones, excitada y a toda prisa como un invitado que llega el último al banquete y quiere recuperar lo perdido como pueda, según escribía Juan Goytisolo en 1969 en su ensayo, válido todavía, “España y los españoles”.

Con el mismo exceso de entusiasmo empezaría España veinte años después a gastar el maná que, en forma de ayudas estructurales del UE, le caía del cielo. Pero en vez de invertir en una sociedad productiva, quiso modernizarse lo más deprisa posible, y modernizarse significaba sobre todo: parecer moderno. El dinero se fue en construir, primero con tino, después, con el acicate de la política ultraliberal del suelo de Aznar, con frenesí.

La marcha triunfal de lo antieconómico había empezado, sin embargo, ya en 1492. Ese año, España no solo descubrió América; derrotó también al último reducto del dominio árabe en Granada y expulsó en los siglos siguientes a moros y a judíos. Ambos grupos se ocupaban de la artesanía y del comercio. El hidalgo cristiano aborrecía el trabajo, que le estaba prohibido por un absurdo código de honor; solo en la carrera militar veía una tarea otorgada por Dios.

Las riquezas de las colonias manaron hacia España como oro líquido. La Europa central se enriquecería con el oro de los incas mientras la nobleza española se condenaba en ruinosos latifundios.

Históricamente en contra del progreso

La Inquisición se pasó trescientos años persiguiendo como a una herejía a todo lo que oliese a productividad. Quien investigaba, se atareaba, leía, corría el riesgo de acabar en la hoguera.

Tras el fin de la Inquisición, la oposición al progreso sobrevivió en el nacionalcatolicismo. Tampoco la secularización permitió romper el caparazón. Se crearon conexiones, sin duda, pero no tropezaron con menos obstáculos. Solo aparecieron estructuras industriales en el País Vasco y en Cataluña.

Se construyó una red de ferrocarriles, pero con un ancho de vía distinto al francés, para no acercarse demasiado a Europa. Así que Europa acabaría en los Pirineos.

El siglo XIX crearía tan solo los rudimentos de una burguesía dinámica, mercantil, políticamente consciente. España sería el único país de la Tierra con un movimiento anarquista fuerte. Sobrevive todavía en los indignados de la Puerta del Sol de Madrid, a los que une su rebelión contra el capitalismo, pero sin que lleguen realmente a encontrarse.

El anarquismo triunfó en los años treinta, pero el golpista Franco los vencería en la Guerra Civil. Franco catapultó a España hacia el tiempo de la Inquisición. En pos de la calma, Franco fomentó deliberadamente el inmovilismo.

Mediante la construcción de viviendas e incentivos económicos convirtió en masa a los españoles en propietarios de inmuebles. Y puso los cimientos del boom especulativo posterior. Si bien España afrontó el cambio político tras el fin de la dictadura en 1975 con bravura y creó una sociedad tolerante, en lo económico, siguió atascada en la Edad Media.

Reformar la economía y la educación

En muchos periódicos y blogs españoles imperan todavía los gestos retóricos dirigidos al propio ombligo o las mezquinas reyertas partidistas. El pensamiento de campanario impide a los castellanos o andaluces que se les pegue algo de los productivos vascos o catalanes, mientras que estos, recíprocamente, se niegan tozudamente a compartir su capacidad con el resto del país.

A los españoles, escribe Goytisolo, les es más importante el hecho mismo de participar personalmente en una tarea que las ganancias materiales que reporte. Pero los mercados anglosajones, inscritos en la fría eficiencia protestante, no le dejan a España tiempo alguno para que eso se convierta en algo provechoso socialmente. La necesaria conversión a una educación y una investigación con un sentido práctico ha quedado ahora empantanada en la obligación de ahorrar.

Mientras Europa no se decida a derribar la frontera de los Pirineos mediante ayudas específicas que pongan en marcha la modernización de las estructuras de la economía y de la educación, España deberá buscar refugio en una característica que, según Goytisolo, siempre le ha sido un estorbo para prosperar: su conformismo.

Los españoles saben qué es soportar una crisis. Llevan quinientos años haciéndolo.

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