Era uma fase… terra

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Por Luciane Recieri, para Desacato.info.

Mariana,
Faz uns meses que recebi sua carta e hoje me ponho a responder.
Depois dessa carta, aconteceram tantas coisas entre minha mãe ficar de cama, e Baunilha também, eu perder a fé e depois achar uma bolsinha cheia de dinheiro no dia mais duro desde sua carta… Mari, fui andando devagarinho com a bolsinha na mão pra ver se vinha o dono, não veio.
De tardinha fui no Piauí e comprei farinha de mandioca e dois gibis de amendoim: um pra mim; outro pra Anna, mas com aquela dor de quem rouba o pouco que o outro tinha. Minha mãe ficou no hospital e me descobri uma pessoa alegre – eu não, na realidade -, minha mãe disse que as senhoras do quarto me acharam divertida, mas eu não sou, Mari. Sou só boca suja e observadora. Eu falo palavrão por tudo, ou falava. Depois que conheci meus alunos, brequei, enjoei de tanto palavrão.
Mas isso é verdade, minha mãe disse que as senhoras do quarto se divertiram comigo lá. Depois disso, aconteceu de meu cansaço me engolir. Toda noite eu ia pra cama antes das oito, dar aula é como serviço de lavrar a terra, Mariana, cansa o pac-pac da enxada sem fazer buraco, só tirando o daninho. Botando a semente e as graúnas saqueando.
Fiz isso uns meses. Levantar às 4 num frio e ir pra escola. No começo parecia que gostavam de mim, depois despareciam e pareciam de novo. Nunca sei o que vou achar na sala de aula. Fora os professores, a maioria se acha rico e fazem pouco de mim. Eu dou uma risada interna, zombo da bobiça deles, aprendi a zombar com meu pai e a não saber nunca disfarçar amor com minha mãe, vê? Logo sou uma coisa que causo uma raivinha nas pessoas…
Ah, Mari. Não sou bicho frio que vive faltando pedaço, igual cobra cortada que pula. Sou isso e vou entrando em cena com tudo. Meu professor de teatro, o Guarahna disse que minha música interna é o tango e que minha veia é o drama. Deve ser mesmo.
Uma vez, me apaixonei, Mari, mas não percebi: o menino era gay. Me apeguei ao jeito dele tocar Beatles e o modo como tratava as flores. Um dia, pra eu desapegar e entender que ele-não-gostava-de-menina disse “você é ridiculamente dramática como uma mexicana!” Achei tão bonito isso de parecer mexicana que gamei mais, mas não dava, Mari… Fico amando de longe. Não ele… Entrei na fase platônica da vida – só olho.
Meus alunos me chamam de “direitos humanos” como se isso fosse xingamento, igual o dramática como mexicana do menino. Mari, na atual conjuntura, direitos humanos é luxo e ser dramática é o que nos cabe nessa peça, nesse filme ruim que nos colocaram. Luísa diz que até no azar dou sorte.
É isso, Mariana. Digo mais, tenho comido bem pra aguentar o tranco. Como arroz com feijao preto e farinha na escola, depois como de novo em casa. Tenho gastado muito de mim. Ainda vou contar mais do menino que eu gostei. Agora é difícil eu gostar. Estou numa fase terra. Dizem que é a última. Pergunta pro pajé se procede?
Te amo, Mari.
Luciane Recieri é cientista social e escritora, em Jacareí /SP

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