Entrevero, baião de dois e ventrecha de pacu: o que comer na Feira da Reforma Agrária

Publicado em: 05/05/2017 às 11:30
Solange dos Santos, do Assentamento Egídio Brunetto, prepara a ventrecha de pacu (Foto: Rica Retamal)
Solange dos Santos, do Assentamento Egídio Brunetto, prepara a ventrecha de pacu (Foto: Rica Retamal)

Por Rute Pina.

No espaço Culinária da Terra, os visitantes têm a oportunidade de experimentar pratos típicos de 23 estados

Mais do que um espaço de comercialização de produtos, a 2ª Feira Nacional da Reforma Agrária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é uma vivência cultural. O Brasil de Fato conversou com os assentados que participam do evento até o próximo domingo (7) e selecionou pratos para quem pretende passar pela feira nos próximos dias.

No espaço da Culinária da Terra, os visitantes têm a oportunidade de experimentar receitas típicas de 23 estados, de norte a sul do país. O evento ocorre no Parque da Água Branca, zona oeste de São Paulo (SP), das 8h às 19h.

Entrevero

A delegação catarinense se orgulha dos dois pratos que oferece na tenda de Santa Catarina. A coordenação do espaço é de Irma Brunetto, do assentamento Conquista na Fronteira, localizado no município de Dionísio Cerqueira (SC).

Um deles é o entrevero, prato comum da região serrana do estado, onde a produção de pinhão é extensa a partir de abril. Além da semente, a refeição é feita com vários tipos de carne e temperos, como pimentão, cebola, alho. “Por isso que chama de entrevero, porque é uma mistura de várias carnes e vários temperos. O pinhão entra junto como o carboidrato”, explica.

Além do prato, a tenda de Santa Catarina também vai oferecer de polenta, salame e queijo — heranças colonização italiana na região oeste do estado. “Quase toda família camponesa produz o seu salame, que muitos chamam de linguiça, mas nós chamamos assim porque é com a carne suína”, apontou.

Irma garante que são pratos rápidos de fazer. O entrevero é feito em torno de 30 minutos após cozinhar a carne e o pinhão, temperar bem e misturar.

Baião de dois com carneiro

Na tenda do Ceará, Izael Montes Lopes, do Assentamento Santa Helena, no município de Canindé, afirma estar animado para oferecer um cardápio típico não só aos paulistas, mas aos cearenses radicados na capital: carneiro, tilápia, camarão, tapioca recheada com carne seca e queijo coalho.

Mas, o destaque da barraca cearense é o baião de dois, receita que Izael e suas companheiras preparavam já pela manhã de quinta-feira (4), primeiro dia da feira. Ele explica que o carneiro é um animal que não exige muita estrutura para a sua criação e, por isso, é comum em todo o estado. “O carneiro é um prato que está no dia a dia de todas as pessoas do Ceará porque é uma carne saudável e é um animal que todas as famílias criam no sertão”, disse.

E fazer o baião de dois também é simples: basta cozinhar o feijão separadamente, temperar o arroz (ele usa coentro, pimentão e pimenta) e juntar os ingredientes. Izael também gosta de dar uma incrementada na receita. “Um queijo de coalho dá o ‘tchan'”, brincou.

Ventrecha de pacu

A escolha dos assentados do MST no estado do Mato Grosso foi a ventrecha de pacu, que nada mais é do que a costela do peixe, empanada e frita, e acompanhada de pirão, vinagrete e mandioca cozida.

Solange dos Santos, do Assentamento Egídio Brunetto, conta que a definição do prato também foi política, como um contraponto aos peixes de criados em tanques.  “A gente escolheu este prato porque o pacu é um peixe de rio, e a gente tem toda uma luta pela preservação dos rios, contra as hidrelétricas que tem acabado com grande parte da fauna e da flora do nosso estado”, ponderou.

Segundo ela, o pacu é um dos peixes mais consumidos pelos matogrossenses. Após retirar a costela, a cabeça é usada para fazer um caldo, que segundo ela, é afrodisíaco e “forte para quem trabalha na roça”.

Bolo de macaxeira

Por fim, para a sobremesa, a dica vem de Pernambuco: o bolo de macaxeira.

Mauriceia Matias é uma das oito mulheres que integram um grupo de boleiras no Assentamento Normandia, em Caruaru. O grupo foi criado a partir da demanda trazida pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Hoje, elas alimentam quase 40 mil alunos de escolas públicas do estado e produzem bolo de cenoura, de chocolate (sem manteiga nem leite) e pães de abóbora, de beterraba ou de gergelim.

Sem glúten e nutritivo, o bolo de macaxeira é a principal receita. “Até pela nossa resistência. O nordeste é muito seco, estamos vivendo há seis anos com uma seca extrema; a macaxeira é a raiz mais resistente tem. E também é um pouco da nossa luta”, disse.

Edição: Anelize Moreira

Fonte: Brasil de Fato.

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