Entre o #OCUPATUDO e o “NADA DE GREVE”, o esvaziamento dos sentidos políticos das palavras

ocupa-tudo-grevePor Milena Magalhães Teixeira de Freitas, para Desacato.info.

Revisado por Elissandro Santana.

Seguindo a perversa tradição de desqualificar as próprias ações, no instante em que os movimentos de greve começam a ganhar certa força nas universidades brasileiras, o discurso sobre o seu esgotamento ganha igual força, pondo em lados antagônicos as ocupações dos estudantes e as greves dos professores. E não é um discurso que vem de fora; é no interior das universidades, lançando mão de jogos linguageiros rasos, que os mesmos professores que usam à exaustão a hashtag #ocupatudo mais forte gritam, nas suas assembleias, “nada de greve”; uma reivindicação tão mais vazia de sentido quanto mais se tenta impor a ela um sentido de luta.

Tratam, assim, “tudo” e “nada”, como se fossem equivalentes, como faces de uma mesma moeda, lados de uma mesma bandeira. Entre o yin e yang, o bem e o mal, o sagrado e o profano, ou entre Deus e o diabo; é verdade que o discurso dicotômico sempre foi tentador, visto como uma maneira fácil de explicar as coisas do mundo, apaziguando as diferenças de um modo quase mítico. Entretanto, não distinguir “tudo” e “nada”, nesse momento, é uma forma pouco inteligente de se contrapor às questões ditadas hoje pela política e que afetarão nossas vidas de maneira irreversível e catastrófica em um futuro muito próximo, cujo emblema maior denomina-se hoje PEC 241/55, mas que amanhã, como legião, se multiplicarão por outras denominações.

Instados pela decisão do STF, muitos agentes educacionais perderam o pudor de alardear o seu próprio fracasso, anunciando, sob um verniz “crítico”, a ineficácia da greve ao mesmo tempo que louvam a potência das ocupações. Não abdicam de jogarem na vala do esquecimento conquistas reais advindas da luta dos trabalhadores em prol da criação e da sustentação de direitos que muito rapidamente têm desaparecido por meio de medidas provisórias, acordões entre o executivo e o legislativo, regados com o dinheiro do contribuinte e com a ajuda da mão pesada das leis judiciais que atua como arauto das nossas tantas perdas. Cedem à ameaça do judiciário, à parcialidade e à chantagem da mídia, ostentando, desse modo, suas ignorâncias políticas.

Ainda que esteja na moda estudar os sentidos do comum, da comunidade, a nova geração de professores universitários não havia presenciado, ainda, uma batalha campal tão acirrada para garantir os seus direitos, não como sujeito na comunidade, mas, sim, como indivíduo mantenedor de sua posição financeira. Sem a experiência necessária para os grandes embates, jogam uma pá de cal no passado para terem, no presente, uma justificativa para não pensarem no futuro. Esquecem que pensar o futuro significa senão constituí-lo, pelo menos conceber uma ideia de porvir gestada no presente, e não simplesmente advinda da violência da violação. É de ideias, portanto, que estamos estéreis – como um útero oco de concepções.  São as ideias, portanto, que nos faltam e nos fazem falta. No coração da educação, jogam fora suas vísceras e as greves se constituem como crianças natimortas. Nos dias tristes de sobrevivência, não se faz outra coisa senão a fomentação do seu atestado de óbito.

Não será fácil suportar tamanha inação – ainda que revestida de múltiplas ações. Em certo sentido, os professores, ao restringirem a luta ao uso da hashtag #ocupatudo, atestam a falência da ideia de coletividade no que se refere à categoria docente, uma vez que a proposição mais alardeada como alternativa para manterem a subsistência e patrimônio (como se as lutas das ocupações não dissessem também respeito a essa preservação) é apoiarem os estudantes nas ocupações. As perguntas que cabem são óbvias e devem ser feitas insistentemente: apoiar o quê, se são os estudantes que, à revelia do que geralmente vivenciam nas escolas e nas universidades, se insubordinam pelo que está posto e pelo que virá? Que são os estudantes que dão lições de exercício da cidadania quando parte significativa dos professores range os dentes, deixando-se vencer pelo discurso do medo? O que temos a oferecer de suporte quando, de antemão, os estudantes terão de suportar nossa negação, nossa incapacidade de vínculo, nossos discursos titubeantes e/ou mirabolantes?

Talvez porque eu faça parte de uma delas, tudo parece ainda menos crível nas universidades que discursivizam a diferença, abjurando do modus operandi “tradicional” das universidades estabelecidas. Como relacionar uma arquitetura curricular de “formação humanista” visando à construção plena do sujeito cidadão critico com as manobras discursivas que envolvem desqualificação da palavra do outro, desinformação, despolitização, politicagem e, sobretudo, a vontade de encobrir tudo isso com um suposto discurso de adesão? Entre o discurso e o gesto abre-se um fosso que o “vomitaço” – se ainda fosse esse o ícone da vez – simbolizaria com perfeição.

Sem um discurso próprio, ou melhor, mero consumidor de discursos outros que não os seus historicamente constituídos, parte dos professores comete o grande equívoco de apropriar-se do discurso judicialesco – em nome da legalidade, da integridade, da ordem – para forçar a saída de cena sem implicar o seu corpo em questões que lhe dizem respeito. Falta estofo. E mais não há a ser dito, pois o que se negligenciam hoje são as palavras constituídas de sentidos. É porque elas não jorram, porque não se tem um corpo político para proferi-las na medida certa, com a força necessária, que nos deixamos enganar pelas palavras dos “falsos profetas”, dos “intelectuais de fachada”, dos “revolucionários de gabinete”. Muitas vezes, sobram as cenas, as performances, as práticas destituídas de qualquer reflexão, mas mingua o envolvimento visceral com o pensamento, a palavra e a escuta – aquilo que deveria constituir os espaços de saberes. E, no entanto, ter um corpo de pensamento e um corpo de luta é primordial para a justa relação que se deve estabelecer com o estado de coisas atual. Diante desse quadro, talvez perguntas sejam, ainda, saídas como uma porta aberta em um vão hermeticamente fechado na aparência: seremos capazes de transpor todas essas limitações? Quando falta verdade e abundam discursos que nada dizem, é possível, ainda, acreditar na vontade de transpor os limites e estancar o esvaziamento das palavras? Os professores universitários que agora decidem em todo o país a adesão ou não à greve geral (ou à ideia de greve geral) estão nessa encruzilhada. Escolher o caminho da não equivalência, talvez, seja a única chance que ainda têm de garantir a sua sobrevivência como uma comunidade de ideias.

Imagem: https://laboratoriofilosofico.wordpress.com/

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