Ensaio sobre o eu

Foto: Pexels

Por Guigo Ribeiro. 

Quando próximo ao aniversário de uma de minhas mortes

Uma nova pedra estourou minha vidraça

O sol esquentava o necessário e se esforçava para alegrar o dia

O vento não tinha força para fazer pipas tomarem os ares

O azul dava certo tédio visto a ausência das fofuras brancas

Era um tal de setembro estranho

Setembro que pessoas divulgavam campanhas

Recebi um informe

Era o medo de lembrar

Junto aos ferros que me rasgavam quando lembrava

Junto ao aço que furava minha pele

Rasgava minha pessoa

Meu corpo

Neste dia tão estranho

Veja só

Alguns carros passavam pra lá e pra cá

Carros que nem sei se sabem pro lugar que vão

Nem eles

Então afundei em mim

E minhas mãos, antes tão dadas ao exercício de ser, eram suporte pra minha cabeça

Meu corpo era um colchão

De tantos e tantos, o espelho me dizia quem eu era

Numa imagem moldada pelo instante em questão

Vi dentro de mim coisas e coisas espalhadas

Eram cacos que talvez foram uma janela. E poderiam ser um vaso

Eram pedaços de uma estrutura forte desfeita no excessivo bater de folhas da árvore ao lado. Ou pedaços no chão que, em boas mãos, virarão parte de um canteiro

Eram memórias que nem estavam aptas ao meu falar numa história. Mas que gritavam quando eu entrava na caixa do silêncio.

Eram risos de uma criança de barba e preocupação de um boleto muito, muito adulto

Eram gestos que peguei de quem nem sei. Ou sei e finjo que não sei

Eram retalhos que formaram uma colcha, mas que, no fim das contas, cobre e dá calor

Eram versos de um poema construído pela eternidade. Sem fim, sem conclusão

Eram ruas que passei e conheço. E que pelo tanto que conheço, já nem olho direito

Eram guerras de um soldado que acaba de voltar pra casa e já tem que sair de novo para se apresentar

Era uma carta que voltou apesar de tão atenciosamente endereçada

Era um prato após refeição querendo ser limpo para a próxima

Era a poeira que dava nova cor ao armário, mas que seria um armário novo sem a poeira

Era a solidão dos livros, aos montes, em minha estante, mas que serão novos conhecimentos adquiridos quando lidos

Era o desgaste da reforma num desespero de soar novo e ser novo. Valorizar

Eram as fotos que perdi na última formatação junto às imagens em minha cabeça do que acho que foram aqueles dias

Era ela me filmando na praia e triste na partida. Voe!

Era ela em lágrimas diante do trem

Era ela e sua distância física de horas e distância de existir em séculos

Era ela e suas esculturas

Era ela e sua vontade de morder o mundo

Eram letras num caderno velho que escrevi numa praça. E que quase viraram (ou virarão) canções em microfones

Eram as luzes, a marcação, o texto

Era o miúdo que sentia tédio e ia dar uma volta pela tarde

Era o menino que fazia graça dando porrada em outros meninos mais fracos ou mesmo mais fortes

Era o menino que pedia licença ao entrar

Eram lugares que nunca sonhei ir e estou

Eram lugares que sonho em ir e irei

Eram minhas verdades mentirosas e minhas mentiras verdadeiras brincando de esconde-esconde

Era o que insisto em ser brigando bravamente com o que insisto em não ser

Quando próximo ao aniversário de uma de minhas mortes

Eu morri!

E vi de forma tão estranha o eu

Era o eu, os eu’s

Tantos e tantos

Tantos e todos

Juntos

Era o eu, os eu’s

Eram ensaios para uma peça

Eram ensaios sobre o eu

Eram ensaios… ensaio sobre o eu

Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Clube de Autores.

 

 

 

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

 

 

 

 

 

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