Enfermagem é uma das principais categorias a sofrer com o suicídio

Foto: Kat Jayne/Pexels

Por Úrsula Neves.

Com o crescimento dos casos de suicídios cometidos por profissionais de enfermagem nos últimos anos, é fundamental promover o debate sobre esse tema tão importante e, muitas vezes, tão negligenciado pela sociedade e pelas instituições de saúde que recebem esses enfermeiros em seus postos de trabalho.

Para Sheyla Matos, terapeuta familiar hospitalar com especialização em terapia cognitiva comportamental, os profissionais de saúde, mais especificamente os de enfermagem, são os mais propensos a desenvolver transtornos psicológicos e a desenvolvem um risco maior ao suicídio.

“Isso acontece porque essa categoria em especial está em contato diário e contínuo com o sofrimento humano, a dor, a tristeza e a morte, e necessitam ofertar ajuda àqueles que demandam dos seus cuidados. Os altos índices de depressão contrastam com o trabalho desempenhado pelos profissionais da enfermagem, de quem geralmente se espera o cuidado. Mas, que por outro lado, pode necessitar de ser cuidado também”, ressalta a psicóloga especializada em geriatria e gerontologia.

Suicídio

O fato é que o suicídio nunca é um caso isolado. Geralmente, é um conjunto de situações que leva a pessoa a isso, como o abandono, o medo, a solidão, a culpa, a instabilidade emocional, a desestrutura familiar, etc.

Outros fatores que podemos citar para esse desgaste emocional são a insatisfação com o salário, a sobrecarga de horas de trabalho e o peso da responsabilidade, assumida logo depois de uma graduação, como explica melhor Marta Elini Borges, especialista em psicologia clínica e hospitalar e mestre em saúde da família. “A enfermagem recebe a carrega uma carga emocional muito forte. Ela tem uma responsabilidade muito grande no dia a dia do paciente, nos momentos mais sofridos desse paciente. E o profissional está ali, 24 horas percebendo, vivenciando e compartilhando com esse paciente os seus sentimentos”.

E é justamente esse acúmulo de carga do enfermeiro, que já está sofrendo com um desgaste emocional, que pode ser levado a uma situação de suicídio.

Por ser silenciosa e, muitas vezes, gerar vergonha para quem sofre (se não identificada por familiares, amigos e colegas de trabalho), a depressão pode levar a um suicídio quase sempre inesperado.

Justamente por isso, esse profissional de enfermagem precisa ter um suporte emocional para conseguir lidar com o seu trabalho diário sem ser afetado em sua vida pessoal. “A psicologia e a enfermagem, quando aliadas, se tornam fundamentais para a preparação do profissional de saúde, uma vez que o enfermeiro encontrará em seu trabalho pacientes que estão abalados emocionalmente pelo estado de doença em que se encontram. Portanto, o enfermeiro precisa estar estruturado emocionalmente para enfrentar as mais complexas situações no ambiente hospitalar. E a psicologia pode ser um importante facilitador através de orientações ou de formação de grupos terapêuticos, destaca a terapeuta familiar Sheyla Matos.

A especialista em psicologia clínica e hospitalar, Marta Elini Borges, também defende o fortalecimento emocional da classe com urgência para que outros casos de suicídios possam ser evitados. “Sem dúvida, os profissionais de saúde precisam ter um preparo, uma adequação profissional porque estão lidando diretamente com o sofrimento humano e que vai falar, muitas vezes, com o seu próprio sofrimento. E a psicologia pode ajudar de duas maneiras: prestando uma assessoria, um suporte para essas questões mais presentes dentro das instituições onde eles atuam; e também tratando diretamente desses profissionais como pessoas com as suas questões particulares, em um processo de psicoterapia fora do seu ambiente de trabalho”.

Ainda de acordo com Marta Borges, os profissionais de enfermagem fazem parte de uma parcela da população que sofre de um nível de estresse muito grande. Então, é preciso trabalhar em duas questões importantes para conseguir reverter esse quadro de crescimento de casos de suicídios na enfermagem, como ela mesma explica. “Primeiro, é necessário identificar os sintomas da depressão; e segundo, trabalhar com essa pessoa para que essa depressão seja tratada para seja minimizada as chances dessa pessoa chegar ao suicídio”.

Ações simples, como cartazes, folders, palestras e seminários em instituições de saúde onde atuam esses profissionais de saúde podem evitar e conscientizar para eventuais casos, além de ser cultivada uma linha de diálogo entre a chefia e os demais profissionais. É preciso urgentemente de mais ações preventivas de suicídio, ações de valorização do profissional e da categoria para que esse terrível quadro possa ser revertido sem demora.

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