Encontro com Dionísio

Imagem: Antônio Augusto Bueno

Por Désceo Machado, para Desacato.info.

A noite já ia longe quando voltava pra casa. Ruas vazias, um ou outro morador de rua, carros retardatários de lares tradicionais, uma sirene de relance,memórias de uma pichação no muro pedindo justiça e liberdade, os temores de um amor machucado misturados com recordações de um aniversário na infância, os passos eram o ritmo da música que acalmava.

Na esquina próxima Dionísio me aguardava para uma conversa, eu não sabia. Quando o vi de longe, reconheci a força da beleza. Mais perto, senti o cheiro de mato. Em sua frente, era o vinho que fazia efeito. Os olhos alegres e lunares, o corpo completo nas formas estava relaxado.

– Dionísio, Dionísio!Evoeh, mestre dos pés de cabra!

– Olá Désceo! Nem completou uma garrafa e já voltando pra casa?

– Amanhã é dia de feira, as crianças, o trabalho, a crônica da Desacato. Não sou devoto exclusivo da sua divindade. Está na hora de chegar em casa e acender uma vela para Apolo.

– Se esperas dormir uma boa noite de sonhos se devotando a Apolo, posso garantir que sonharás com boletos bancários, réguas e modelos de revista de langerie. Fique Désceo, és o escolhido essa noite, um bode encilhado não passa duas vezes!

O jovem deus, para mim saído de um filme do Pasolini, riu e soprou um floreio no flautim.

– Venha Désceo, vou te mostrar por que Sócrates me odiava, quero que sintas a convulsão das razões e dos desejos, vamos nos misturar nos corpos das mulheres e dos homens, iremos para um lugar onde nos perderemos em estado de gozo, esqueceremos nosso nome e encontraremos a verdade. A verdade pulsando, musical e completa, a verdade orgiástica!

– Serei eu benvindo Dionísio? Não esqueça que sou branco, cis, servidor público, petista e calço 42.

– Deixe para se confidenciar com Apolo. Tome um gole e cante comigo!

 

Repórter Désceo Machado é uma criação de Tiago de Castilho Soares.

 

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