Emancipação da mulher na velhice: é possível?

Publicado em: 12/10/2017 às 14:39
Emancipação da mulher na velhice: é possível?

“(…) Semelhante paradoxo desconhece a verdade essencial da vida: ela é um sistema instável no qual se perde e se reconquista o equilíbrio a cada instante; a inércia é que é o sinônimo de morte. A lei da vida é mudar”.

Simone de Beauvoir, 1970. p. 17

O Brasil envelhece a passos largos e nós mulheres somos a maioria neste processo. Vivemos em média sete anos a mais que os homens (IBGE, 2015) e o número de mulheres que chefiam famílias aumenta a cada ano. No Brasil, as mulheres são a maioria da população, passaram a viver mais, têm tido menos filhos, ocupam cada vez mais espaço no mercado de trabalho e, atualmente, são responsáveis pelo sustento de 37,3% das famílias. (IBGE, 2015).

Dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, divulgada pelo IBGE em 2013, indicam que vivem no Brasil 103,5 milhões de mulheres, o equivalente a 51,4% da população. A expectativa de vida aumentou gradativamente: enquanto em 1980 a mulher vivia, em média, até 65 anos, em 2010 a estimativa subiu para 77 anos de idade. Esses dados nos obrigam a olhar para o processo de envelhecimento feminino como uma categoria de estudo interseccional tão relevante quanto classe, raça e etnia.

Idade e geração são espaços do conhecimento ainda pouco apropriados ou interpretados pelo feminismo como referências teóricas e de observação da realidade, como são as categorias de gênero, classe e raça/etnia (BRITTO DA MOTTA,1997; 1999; 2007).

É importante lembrarmos que as relações entre gerações são sim, hierárquicas e de poder, sendo consequentemente fontes de opressão, abuso e dominação dos mais jovens sobre os mais velhos. As mulheres idosas são alvos preferenciais de violência, principalmente aquela que acontece entre gerações e que costuma ser praticada por filhos e netos. Sendo assim, a mulher idosa, que carrega em sua trajetória de vida marcas da opressão referente ao seu gênero, sua classe social, sua raça, sua etnia e sua orientação
sexual, também precisa se libertar do autoritarismo das gerações mais jovens, ou seja, emancipar-se “por inteira”.

O conhecimento para a libertação 

A palavra emancipação vem do termo emancipati, utilizado pela lei romana na libertação de um filho da autoridade paterna, ou seja, a emancipação das relações patriarcais. Segundo Caniellles (2009), o pensamento Marxiano sobre emancipação seria o processo de superação de uma ordem social, de um sistema consolidado, ou seja, o sistema capitalista. Seria sair do estado de tutela, libertar-se. Ninguém alcança este objetivo na individualidade, pois é um processo coletivo. É a passagem do “ser em si” para “ser para si” (Marx, 1976:136 apud Martinelli, 2009).

Pensando sobre a ótica do feminismo, para que ocorra a emancipação da mulher, primeiramente precisamos reconhecer nossa situação de classe/raça/etnia/geração diante do patriarcado (“classe em si”) e, posteriormente, nossa luta pessoal se transformaria em uma luta política, cujo cenário já não seria mais a nossa casa ou nossa comunidade, mas sim, a própria sociedade (“classe para si”), ou seja, a luta pela emancipação da mulher é parte da luta pela emancipação humana.

Entretanto, seria um equívoco pensar a emancipação humana sem compreender a necessidade histórica da emancipação específica da mulher e suas lutas (FUSER, 2009). As desigualdades de gênero existem há séculos, estando presentes em todos os sistemas políticos e econômicos, bem como nos espaços ditos “democráticos”, como sindicatos, universidades, movimentos sociais, entre outros.

Segundo o documento publicado pelo Senado Federal e intitulado “Emancipação da Mulher: uma luta de todos”, a desigualdade de gênero não se resolverá automaticamente com o fim da exploração de classes. A luta por sua superação é parte integrante da luta do proletariado pela sua emancipação, mas não nos exime de dar conta da especificidade da desigualdade nas relações de gênero, que ocupa um período histórico mais extenso. (BRASíLIA, 2008)

Sendo assim, trabalharemos neste texto o entendimento de emancipação da mulher na velhice relacionada à libertação do patriarcado e suas formas de opressão. 

O Encantamento da Prática Cotidiana 

Minhas reflexões sobre emancipação e velhice tiveram início nas rodas de conversa que realizava uma vez por semana com mulheres idosas em um Centro de Convivência. Lá, me deparei com o termo “Melhor Idade” sendo utilizado por elas como identificação deste grupo. Os encontros tinham como objetivos socializar, trocar vivências e refletir sobre a vida e o envelhecer.

Como Assistente Social e Gerontóloga, este termo sempre me incomodou, pois foi criado pela indústria publicitária para incentivar novos padrões de comportamento na velhice e, portanto, novas necessidades de consumo, na tentativa de distanciar a ideia de velhice com decadência e dependência.

Da mesma forma, o termo “Terceira Idade” corresponde a uma etapa da vida de hoje – a do idoso ‘jovem’. […] é preciso diferenciá-los pelo menos para o mercado; ‘terceira idade’ também identifica novos modos de vida de uma geração de mais idade, porém ativa, informal, livre e ‘leve’. Institui, por fim, um eufemismo, para não se falar da velhice e seus signos (BRITTO DA MOTTA, 1997, p. 103-104).

Na minha concepção, “melhor idade” pode ser qualquer fase do ciclo de vida que seja vivida com liberdade e autonomia.

Após vivenciar, estudar e entender as possibilidades e potencialidades, bem como as perdas e limitações que esta fase da vida traz, me perguntava: como o envelhecimento poderia ser considerado a melhor idade?

Bem, as mulheres deste grupo me explicaram o porquê.

Os encontros funcionavam da seguinte forma: iniciávamos com a leitura de um texto ou vídeo escolhido por mim que abordasse aspectos pejorativos e estereotipados da velhice e, também, textos que introduzissem, aos poucos, a pauta feminista.

Durante o momento de reflexão e troca de histórias, as mulheres revelavam lembranças de sua infância e juventude talhadas pela opressão e autoritarismo de seus pais e irmãos. Elas relataram que seus irmãos tiveram acesso à escola, enquanto elas tinham a obrigação de cuidar da casa e dos irmãos mais novos. Também relataram a violência física e psicológica sofrida por suas mães dentro de casa.

“Meu pai não me deixou aprender a ler e escrever mesmo com uma escola perto de casa, dizia que era para não poder escrever cartas para os namorados. Hoje, aos 68 anos, aprendi a escrever e ler (…) algumas coisas, mas já me ajuda bastante”.

Ao refletirem sobre o casamento, algumas mencionaram terem sido felizes, mesmo com as restrições impostas pelos maridos. Outras, constrangidas, relembraram situações de violência física, psicológica, sexual e patrimonial que sofreram dos seus companheiros, filhos e netos.

“Meu marido dizia que a calça mostrava muito a bunda. Hoje eu uso e adoro”.

“Às vezes, eu não queria namorar com meu esposo, mas ele me obrigava”.

“Eu só podia sair de casa se fosse para a igreja ou casa de parentes. Mesmo assim, tinha que sair e voltar
acompanhada de um homem, mesmo se fosse meu neto de 10 anos”.

“Meu sobrinho veio morar comigo quando minha irmã faleceu … Só gritava e me chamava de “velha burra”. Depois de um tempo consegui que ele fosse morar em outro lugar. Hoje vivo sozinha e muito bem”.

Ouvindo esses relatos, percebemos que a conquista da emancipação é um desafio bem maior para as mulheres idosas, pois estas foram historicamente marginalizadas à vida privada e “do lar”, tendo como opressores os próprios maridos, e posteriormente, filhos, netos e sobrinhos.

Quando da ausência do marido e/ou da partida dos filhos de casa, estas idosas relataram frequentemente nas rodas de conversa uma alegria ao envelhecer, uma liberdade nunca vivenciada:

“Agora eu passei a viver de verdade”.

“Hoje eu que gerencio o meu dinheiro”.

“Eu saio a hora que quero, sem ter que dar satisfação pra ninguém. Minha neta fica muito brava e liga no meu celular o tempo todo para saber onde eu estou (risos)”.

Para a conquista da emancipação frente ao patriarcado, primeiramente estas mulheres precisaram se empoderar de seus direitos individuais e coletivos, para, posteriormente, alcançarem a sensação de emancipação a qual relataram.

Segundo Friedmann (1996), empoderamento é:

“Todo acréscimo de poder que induzido ou conquistado, permite aos indivíduos ou unidades familiares aumentarem a eficácia do seu exercício de cidadania”.

Particularmente, gosto desta definição principalmente pelos termos “induzido ou conquistado”.

Ao trabalharmos no combate à violência contra a mulher, percebemos que o empoderamento, por vezes, tem que ser induzido, especialmente no momento da quebra do ciclo de violência, onde a mulher ainda não possui uma estrutura econômica, social e emocional que permita romper com todas as limitações que a violência impôs em sua vida. Posteriormente à ação induzida, a mulher vai se sentindo mais segura para traçar suas escolhas e desenhar seu novo caminhar de maneira mais autônoma e consciente.

Com as mulheres idosas não é diferente. A maioria delas conseguiu se empoderar após a morte do marido ou a saída dos filhos de casa. Algumas conseguiram romper com o ciclo de violência pedindo a separação ou fugindo de casa, o que foi muito custoso para elas em uma época em que ser “desquitada” era uma marca de fracasso e desvio de conduta.

Ao se organizarem e se encontrarem todas as terças no Centro de Convivência para idosos, estas mulheres estão criando e consolidando espaços democráticos e participativos, condição essencial para o movimento de empoderamento.

Ao refletir com estas idosas sobre a opressão do patriarcado sobre suas escolhas, sua sexualidade, sua liberdade de ir e vir, me apoio nas falas de Paulo Freire:

“A pedagogia do oprimido, como pedagogia humanista e libertadora, apresenta um primeiro momento onde os oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão comprometendo-se, na práxis, com sua transformação” (2014, p.57).

Este desvelamento ocorre na íntegra quando os indivíduos estão abertos para enxergar a verdade e se utilizam de coragem para substituir a “antiga segurança” – mesmo que opressora – por uma nova forma de libertação.

Algumas idosas relataram que “tinham medo de ficar sem a proteção de um homem”, ou que “seriam mal vistas sem um marido”. Porém, após o falecimento do marido, foram descobrindo, aos poucos, suas potencialidades e dando permissão para que seus desejos mais ocultos e velados pudessem se realizar, como ir a bailes, fazer parte do coral, usar calça jeans, batom ou não ter hora para voltar para casa.

Segundo Freire, os oprimidos temem a liberdade, na medida em que esta, implicando a expulsão da sombra opressora, exigiria deles que preenchessem o “vazio” com outro conteúdo – o de sua autonomia (FREIRE, 2014).

No início do processo de empoderamento, as idosas relataram que se sentiam meio perdidas com “toda esta liberdade” mas que, aos poucos, foram se organizando e encontraram no Centro de Convivência um espaço privilegiado para se relacionar com pessoas da mesma idade.

Podemos então inferir que o processo de emancipação destas mulheres na velhice se deu em 3 etapas. A primeira foi a libertação do homem que as aprisionava e oprimia (marido, filho, neto).

Em um segundo momento ocorreu um processo reflexivo sobre sua condição de mulher idosa na sociedade patriarcal, perpassando por transformações internas que as empoderaram economicamente, socialmente e emocionalmente.

Posteriormente ao empoderamento, esta força motriz feminina transformadora e poderosa avançou para além dos muros da instituição, ocupando espaços de controle social no Município em que vivem, com a participação efetiva destas idosas em Conferências de Políticas para Mulheres, Conferências da Saúde e da Assistência Social e Fórum de Mulheres.

Após esta rica experiência de trocas e aprendizagens com estas mulheres incríveis, percebi que embora as condições físicas ou mentais no envelhecimento estejam de certa forma comprometidas, para estas mulheres a velhice pode ser sim, a Melhor Idade!!

Fonte: Cientista que virou mãe

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