Em Imbituba, moradores limpam praia contra estocagem de granéis líquidos na cidade

Marcelo Luiz Zapelini, especial para Desacato.info

 ela preservação ambiental e contra a instalação da empresa de granéis líquidos Cattalini, 60 moradores de Imbituba retiraram mais de 1300 unidades de lixo da praia ao lado do porto na ação “Nós Cuidamos de Imbituba”, domingo, 8. Eles também plantaram mudas nativas, cercaram as dunas na área da restinga e instalaram placas para educação ambiental.

As pontas de cigarro (xepas ou bitucas) foram os resíduos mais recolhidos (504 unidades) a frente dos plásticos e microplásticos, que somaram juntos mais de 470 itens. O plantio organizado pelo projeto Plante trouxe 150 mudas de árvores nativas da Mata Atlântica, como aroeiras e gabirobas.

Amanda Suita, voluntária do Instituto Ecosurf-SC disse que a iniciativa mostrou que “a população quer cuidar do meio ambiente nesta que é uma das melhores praias para a prática de Surf”.

Fora Cattalini

Ação também serviu para mostrar unidade contra a instalação da empresa Cattalini Terminais Marítimos, que em 2016 anunciou planos de expandir suas operações para Imbituba.

A empresa, que existe há 38 anos em Paranaguá, PR, é o maior terminal privado de granéis líquidos da América Latina e tem a intenção de investir R$ 300 milhões em SC. Combustíveis e óleos vegetais estão entre os principais líquidos estocados.

Um dos combustíveis é o metanol, que explodiu em 2004 durante o desembarque de 14 milhões de litros em Paranaguá. Morreram quatro tripulantes do navio chileno Vicuña. Até hoje, os pescadores artesanais não recuperaram o potencial econômico que tinham, como apurou uma comissão do Fora Cattalini que visitou o local.

“Desde o acidente, os pescadores não conseguem pescar mais nada e tentam viver da venda de artesanato, porém o turismo também quase não existe mais lá”, contou Mário Teixeira Filho (Marinho), um dos líderes do movimento. Milhares de pescadores receberam indenizações irrisórias, que não ultrapassaram R$ 1 mil, pagas em parcela única. A comissão também ficou surpresa com a demora na indenização dos vitrais de uma igreja quebrados na explosão, que aconteceu apenas este ano.

“Bomba Relógio”

As operações de granéis líquidos já causaram estragos em outras partes do país. Em Santos, SP, um incêndio nos tanques da empresa Utracargo queimou combustíveis por oito dias, em 2015. Este acidente foi antecedido por outro, um vazamento de 400 mil litros de combustível no mesmo lugar, uma semana antes, como informou uma reportagem do site Boqnews. Acidentes na estocagem de combustíveis em Santos ocorrem desde os anos 1950, ao menos dois incêndios aconteceram na cidade na última década do século XX, em 1991 e 1998.

Ana Carolina Gonçalves, uma das lideranças do Movimento Fora Cattalini, ponderou que os moradores não estão atacando a empresa, ao contrário: “estamos nos defendendo”.

Para o movimento, a eventual instalação da empresa, além de ser uma “bomba relógio” é desnecessária para a economia local. “Imbituba não precisa disso. Temos potencial turístico, indústrias fortes que estão se instalando na margem da BR 101. Não estamos jogados às traças e nem somos uma cidade que ninguém quer”.

Apesar da Cattalini ter suspendido seu projeto em 2016, quando a cidade proibiu armazenagem de granéis líquidos perigosos (Lei N. 4752/2016), segue com iniciativas em Imbituba.

Marketing  

A empresa mantém uma página no Facebook chamada “Somos Todos Imbituba” para, oficialmente, ser “um espaço para conversar sobre o desenvolvimento sustentável de Imbituba e Santa Catarina”. No entanto, o conteúdo é voltado para divulgar as ações da Cattalini na cidade, com vídeos captados de moradores locais e posicionamentos oficiais da diretoria.

Em uma das postagens, a Cattalini rebate um ofício do prefeito municipal Rosenvaldo da Silva Júnior (PT). Neste ofício, publicado no dia 29 de outubro, ele pondera que o empreendimento tem “enorme potencial de retorno de tributos”, mas, “muitos outros empreendimentos de menor risco podem alicerçar nosso crescimento de maneira mais sustentável e segura”.

O petista escreveu que é contrário ao projeto como cidadão e como prefeito, pois “tenho que representar o desejo dos cidadãos de Imbituba que já demonstraram claramente sua contrariedade”.

Em uma postagem de 1 de novembro, a Cattalini avalia que o ofício demonstra que o prefeito rejeitou antecipadamente a audiência que ainda realizaria, rejeitando, assim, “o caminho do diálogo construtivo que pretendíamos estabelecer com a prefeitura”. Também diz que é superficial e não representa “a vontade da maioria dos cidadãos de Imbituba”.

Os benefícios apontados pelo diretor Carlos Kszan, como a geração de até 200 empregos diretos, a geração de cerca de R$ 28 milhões de receita em impostos estaduais e municipais e o forte apoio a projetos educacionais e ambientais, não convenceram o prefeito, que em discurso em frente a prefeitura municipal garantiu bloquear o projeto até o final do seu mandato.

Ana Carolina discorda que a maioria do povo é favorável a vinda da Cattalini. Para ela, “toda empresa que vier com proposta que polua, que ameace o setor turístico e a qualidade de vida, vai encontrar resistência. O que Imbituba tem de muito forte é o amor da população pela cidade”, analisa.

Ela cita como exemplo, a manifestação em frente a prefeitura na audiência do dia 29. Havia mais de 200 pessoas reunidas pressionando pelo cancelamento do projeto. “Quando eu cheguei lá e vi que tinha uma banda e uma música feita, pensei: de onde que surgiu isso? [Essa mobilização] é uma coisa muito orgânica, porque as pessoas querem um desenvolvimento diferente para a cidade”.

Resistência

A balada, tornada hino do protesto, escrita por uma cantora local diz: “Imbituba tua linda natureza é o que te define. Por isso, eu canto com teu povo na avenida: fora Cattalini”.

Mesmo entre os empresários não há consenso. Oficialmente, Associação Empresarial de Imbituba (ACIM) é favorável ao projeto. Seu presidente, Adilson Silvestre, depois de visitar as instalações da Cattalini no Paraná, declarou à imprensa que “a chegada de uma empresa desse porte fomentaria o comércio local, ajudaria a modernizar as atividades portuárias e contribuiria socialmente com o município”.

No entanto, ativistas do movimento Fora Cattalini dizem que ele não representa a posição da entidade. “Neste assunto, o presidente não fala por toda a ACIM, porque os núcleos setoriais não foram consultados”, alerta o ativista Hudson Sozi.

Ana Carolina, que é do ramo da construção civil, também concorda que o presidente da entidade não está pensando nos interesses da coletividade. “Não dá para dizer que é todo o setor empresarial da cidade. São 4 ou 5 empresários que tem essa visão”.

Contra a visão economicista de parte do empresariado, ela diz que é preciso pesar todos os indicadores e não apenas o crescimento econômico de qualquer maneira. Para isso, ela compara o Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM) e o Produto Interno Bruto (PIB) dos dois municípios.

O IDHM de Paranaguá (0,750) é inferior ao de Imbituba (0,765) ainda que o Produto Interno Bruto (PIB) per capta seja muito superior, R$ 63 280,82 contra os R$ 31 256,53 do município catarinense. “Mesmo com toda a riqueza que a Cattalini gera lá, o IDHM deles é menor do que o nosso. Por que a gente iria querer isso também?”, questiona.

Enquanto a Catallini joga para o futuro seu projeto, o movimento Fora Cattalini já envolve diretamente 300 pessoas e conta com o apoio de diversas entidades para realizarem novas iniciativas em conjunto. A organização aposta na manutenção da mobilização em defesa da cidade.

“Pela primeira vez unimos todas as iniciativas que aconteciam individualmente. Começamos esta ação em conjunto pelo Canto da Praia da Vila e vamos levá-la para outros ambientes naturais da cidade”, explica Amanda.

Hudson aposta nas novas gerações que se juntam a veteranos como ele próprio e Marinho. “A juventude é uma força para todos nós, contra a especulação e a poluição ambiental”, aposta.

Fotos: Divulgação

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