Eleições e a disputa da classe média

Por Miguel do Rosário.
Uma das maiores derrotas políticas do PT nos últimos anos foi a alienação da classe média, causada por inúmeros fatores que não nos cabe analisar aqui.

Nem sempre foi assim: o PT nasceu e ganhou o poder político com forte apoio da classe média. A falta de comunicação e a despolitização do país fizeram PT e classe média se afastarem um do outro.

Afastaram-se tanto que tornaram-se inimigos. A classe média liderou as “jornadas de junho” de 2013 e, mais tarde, as marchas do impeachment.

A classe média brasileira caminhou tanto para a direita que hoje uma parcela importante dela se identifica com Bolsonaro.

A Lava Jato, por sua vez, é um fenômeno cultural típico de classe média, e tem antecedentes históricos bastante sinistros, mas isso é assunto para outro post.

Um dos desafios do campo progressista, nessas eleições, é reconquistar ao menos a parte mais esclarecida do eleitorado de renda média, convencendo-o de que deve olhar para si mesmo como integrante da classe trabalhadora, pois não vive de renda: assim como qualquer pião de obra, a classe média vive, em sua grande maioria, do suor de seu trabalho.

A classe média ocupa todas as funções liberais, e ter seu apoio é essencial para o exercício do poder. Juízes, procuradores, delegados, políticos, jornalistas, professores, advogados, médicos, oficiais militares, arquitetos, intelectuais, médios ou altos servidores públicos, todos são de classe média e vivem cercados de pessoas de classe média. Não ter o apoio deste setor dificulta muito a desenvoltura das campanhas eleitorais e, posteriormente, a sustentação política dos governos. A não ser que detenha um controle quase absoluto das finanças do país, como tinha o regime venezuelano, onde a exportação de petróleo, monopólio estatal, sustentava a economia nacional, será muito difícil, para qualquer governo, administrar os conflitos políticos sem o apoio de uma parte substancial das classes sociais que controlam a opinião pública.

Quem são os candidatos com potencial para conquistar a classe média nas eleições deste ano?

Elaborei alguns gráficos e tabelas com base na última pesquisa Datafolha (6 a 7 de junho de 2018), que nos auxiliarão em nossas análises sobre a evolução eleitoral dos candidatos, e que nos permitirão obter algumas informações também neste sentido.

O Datafolha estratifica as intenções de voto em 4 faixas de renda. Considerei como “classe média” apenas as duas últimas colunas: eleitores com renda familiar entre 5 e 10 salários, que formam mais ou menos 10% da população, e com renda familiar acima de 10 salários, que formam 2%, segundo os critérios usados pela própria pesquisa.

Na faixa que ganha entre 5 e 10 salários, Bolsonaro lidera com 29%, seguido de Lula, com 17%.

Ciro Gomes vem terceiro lugar, tanto em cenários com Lula, como em cenários sem o ex-presidente. Com o ex-presidente no páreo, Ciro Gomes mais que dobrou seu eleitorado na classe média que ganha de 5 a 10 salários, passando de 5% para 11%. Sem Lula, o pedetista agora abocanha 17% da mesma classe média, um crescimento de 125% sobre a sondagem de abril.

Entre quem ganha mais de 10 salários, Ciro Gomes já tem 14%, avanço de dois pontos sobre a pesquisa anterior.

Estes 17% de Ciro Gomes junto à classe média de 5 a 10 salários é o mesmo percentual obtido por Lula, com uma diferença importante: a rejeição do petista junto a este setor é muito alta. Entre quem ganha de 5 a 10 salários, 50% responderam que não votariam, “de jeito nenhum”, num candidato apoiado por Lula, um número próximo aos 52% de rejeição de Collor, ao passo que a rejeição de Ciro Gomes neste mesmo segmento é de apenas 27%.

Entre quem ganha mais de 10 salários, a rejeição a Lula é de 61%, bem maior que a de Collor, que tem 48%; Ciro tem rejeição de 26% nessa faixa de renda.

Marina e Alckmin estão comendo poeira na disputa pela classe média: a candidata da Rede tem hoje 8% na classe média que ganha de 5 a 10 salários, em cenários com Lula, e 11% sem a presença do ex-presidente. Entre quem ganha mais de 10 salários, Marina não pontua mais em cenários com Lula, e tem apenas 3% caso Lula não concorra.

Alckmin também perdeu espaço no segmento com renda familiar entre 5 e 10 salários. Tinha 9 pontos em cenário sem Lula, em abril, e caiu para 5%, em junho.

Repare ainda que Ciro Gomes começa a ganhar um pouco de autonomia em relação ao eleitorado de Lula. Mesmo em cenários com a presença do ex-presidente, o pedetista consegue pontuações razoáveis em alguns segmentos: entre quem tem mais de 60 anos, por exemplo, Ciro já tem 8% em cenários com Lula. No cenário sem o ex-presidente, Ciro atinge a primeira colocação junto ao eleitorado mais velho, 13%; Bolsonaro e Marina tem 12% e 10%, respectivamente, entre os eleitores idosos.

Segundo o Datafolha, os cidadãos com mais de 60 anos formam 18% do eleitorado nacional; no Sudeste, correspondem a 21% do eleitorado.

Outras observações que podemos fazer: Ciro Gomes empatou com Marina Silva entre o eleitorado masculino; sem Lula no páreo, Ciro e Marina detêm 12% dos votos dos homens. Com Lula, ambos caem para 8%. Ciro também alcançou Marina entre eleitores com ensino superior: os dois tem 12%.

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