Economia argentina em meio à crise mundial: lições para o Brasil, por José Álvaro Cardoso

Foto: Ralph W. lambrecht/Pexels

Por José Álvaro de Lima Cardoso.

Dentre as inúmeras mentiras que o governo brasileiro vem utilizando, visando fazer
a população engolir o remédio amargo da destruição da previdência, está a de que, se
aprovada a PEC 06/2019, a economia brasileira irá deslanchar, como se fosse um
número de mágica. É uma previsão completamente absurda, inversa a qualquer lógica
de funcionamento efetivo da economia. Como é que, num país que teve crescimento
zero no primeiro semestre, no qual a população está empobrecendo e o mercado interno
está sendo esmagado, a economia iria retomar o crescimento? É evidente que o arrocho
previdenciário, que vem aí com a PEC 06/2019, irá piorar muito a situação dos
brasileiros e da economia nacional como um todo. Como aconteceu, por exemplo, com
a contrarreforma trabalhista, sobre a qual diziam que, aprovada, iria gerar milhões de
empregos.

O pior, é que o governo Bolsonaro está desmontando o sistema de seguridade social
em um momento de risco de uma grave crise financeira mundial, talvez tão dramática
quanto a de 2008. A Argentina, país de destacada importância na América do Sul, cujo
governo aplicou programa econômico semelhante ao de Paulo Guedes, antecipa o que
pode acontecer com o Brasil. Além de crescimento medíocre e do empobrecimento da
população, a instabilidade financeira tornou a situação dramática no país vizinho. Em
2018, em decorrência de uma violenta crise cambial, o país teve que voltar a recorrer ao
FMI, sob pena de sofrer um processo de quebradeira. Aos juros estratosféricos,
recessão, desemprego nas alturas, e inflação de quase 50%, a população respondeu nas
prévias do dia 11 de agosto, impondo uma derrota acachapante ao governo Macri.

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Com o resultado das prévias (até certo ponto surpreendente) no qual Macri obteve
apenas 32% dos votos, o peso despencou e o mercado de ações apresentou uma queda
acima de 30%, durante a semana subsequente às eleições. Além do efeito sobre preços,
a desvalorização cambial pressiona diretamente a dívida pública (equivalente a 88% do
PIB do país), da qual 80% é denominada em dólar. Assim, uma desvalorização do peso
incide diretamente sobre o estoque da dívida. Alguns economistas argentinos já
preveem a necessidade de uma moratória da dívida com o FMI, no máximo até 2020.
Em meados de 2018 o FMI concedeu à Argentina o maior empréstimo de sua história,
cerca 57 bilhões de dólares, cujos compromissos começarão a vencer em 2021. Até o
momento o FMI já desembolsou 44,1 bilhões de dólares, mas em troca de um ajuste
fiscal duríssimo (que explica em boa parte o resultado das urnas no dia 11.08).
Em face do resultado eleitoral adverso, o governo Macri fez uma série de anúncios,
como o aumento do salário mínimo, a melhoria dos planos sociais, além de outras
medidas para tentar conter a instabilidade financeira, numa evidente tentativa de
reverter o cenário, nas eleições de outubro. A desvalorização abrupta do peso deverá
elevar ainda mais a inflação, na medida em que muito preços locais são referenciados
em dólar. Na medida em que o dólar fica mais caro, o preço dos produtos e serviços
internos acompanham tal movimento, com grande possibilidade de contaminar os
preços de forma generalizada. Consideremos que a memória recente de uma grande
parte do povo argentino tem presente a dolarização total da economia e uma brutal
hiperinflação, com todas as suas dramáticas consequências. A contaminação da inflação
pelo aumento do dólar, se dá também nos produtos importados. Isso num ambiente em
que a inflação já está muito elevada, como vimos.

Ao contrário do que alguns iludidos têm propagado, a crise na Argentina não se
encaminha para uma solução fácil ou de curto prazo. A destruição realizada pelo
governo Macri, a serviço do capital internacional, não deverá se resolver,
independentemente do resultado das eleições de outubro, mesmo porque, não há
nenhuma garantia de que o resultado das prévias irá se confirmar nas eleições. Além
disso, a gravidade da crise Argentina, que deve ser analisada no contexto sul americano,
dificilmente irá se resolver simplesmente através de um processo eleitoral isolado, sem
amplo movimento de massas.

É importante considerar que as turbulências financeiras não se limitam à América do
Sul. A guerra comercial entre EUA e China é gravíssima, pelo protagonismo das duas
economias, e há fortes riscos de que o conflito se transforme em guerra cambial, o que
levaria a consequências desastrosas para a economia mundial. A China, que já
desvalorizou sua moeda para contrabalançar as sanções do governo norte-americano,
vem mostrando que está disposta a enfrentar a briga. A disputa pela hegemonia mundial
se desenrola em todos os campos: tecnológico, político, militar, econômico, etc.

Esta nova disputa entre as duas potências já afeta uma economia mundial em
desaceleração. Os analistas falam em risco de recessão na economia norte-americana e a
economia chinesa vem desacelerando seu ritmo de crescimento, em função de alguns
fatores, incluindo o próprio desgaste da batalha comercial com os EUA. Em meio a toda
essa crise, o PIB da maior economia da Europa, a Alemanha, considerada um dos
motores da economia mundial, recuou 0,1 ponto percentual no segundo trimestre do
ano. Esse dado levanta a possibilidade de uma recessão no país, após uma década de
crescimento praticamente contínuo. A queda nas exportações, em função da crise
mundial, foi o principal fator desencadeador do problema.

Enquanto nuvens carregadas se formam no horizonte, ameaçando uma tempestade
financeira que pode ser mais grave do que a de 2008, o Brasil é surpreendido totalmente
no contrapé. Ao invés de tentar expandir o mercado interno, o governo piora
substancialmente a vida dos trabalhadores, com dezenas de medidas que acabaram (ou
reduziram), direitos sociais e trabalhistas, encaminhadas de forma sistemática. Ao invés
de colocar o patrimônio público nacional a serviço do desenvolvimento, está entregando
seus melhores ativos, a preço de banana, para os abutres que financiaram o golpe de
Estado. Ao invés de valorizar o consumo interno, em face da possibilidade de uma
grande crise internacional, o que assistimos é a volta da fome, que havia sido erradicada
no Brasil, conforme atestou a ONU em 2014.

O Brasil sofre um verdadeiro colapso dos investimentos produtivos. Análises
divulgadas na imprensa no último final de semana, dão conta que o baixo nível de
investimentos na construção civil, como máquinas e inovação tem poucos precedentes
históricos na história do país. Estimativas do pesquisador Paulo Morceiro, do Núcleo de
Economia Regional e Urbana da Universidade de São Paulo (Nereus), revelam que a
taxa de investimento da construção civil como percentual do PIB, apresentou no ano
passado o pior desempenho em mais de 70 anos. Segundo a publicação, os 7,5% de
2018 só ficam abaixo dos 6,9% de 1948, segundo ano da série histórica compilada pelo
economista com base em dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística). Outros dados da referida pesquisa apontam para a mesma tragédia no nível
de investimentos, revelando uma quase falência de outros setores.
Em 2008, quando explodiu a crise mundial, em pleno epicentro do sistema
capitalista, o Brasil soube enfrentar o tsunami com políticas anticíclicas de crescimento,
manutenção das políticas sociais, expansão do mercado consumidor interno (via salário
mínimo e geração de empregos) e aumento dos investimentos públicos. Se nos
próximos meses vier outra crise de magnitude semelhante, será numa conjuntura onde o
país tem o com pior governo de sua história, e que está desmantelando as estruturas
econômicas, sociais e políticas, que seriam essenciais num momento como esse.

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José Álvaro Cardoso é economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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