E se, em 2019, encontrássemos a plenitude?

Por Mayara Bergamo, para Desacato.info.

Sempre gostei muito de ler. Tanto que na apresentação que fiz para essa página, cito meus três autores preferidos – e que moldaram muito a forma como penso! Batizei esse conjunto de “tripé literário”, porque através dos livros, entrevistas e biografias desses três me encontro, me reconheço, me sinto amparada nesse mundo de loucos.

Meu gosto pela literatura, porém, não é restrito a esses escritores, obviamente. Também admiro e sou influenciada por muitíssimos outros, embora não com a mesma intensidade. Um desses “outros”, no entanto, considero como uma “quarta base” do tripé: José Saramago.

Estou longe de ser uma crítica literária, ainda mais da obra de um Nobel da Literatura, e sei que cada um e cada uma têm um processo de absorção diferente, mas cada vez que acabo de ler um livro que me cativa muito, busco outras obras do mesmo autor ou autora e devoro uma a uma. Depois, procuro características comuns nas obras da pessoa. Existe uma repetição de temas? O que me fez gostar tanto desse livro e desse autor/autora? De que maneira ele ou ela escreve? E por aí vai… esse processo me ajuda a entender os livros, as histórias, as motivações de quem as escreveu, o tempo histórico em que foram escritas, entre outros fatores.

É por isso que hoje gostaria de fazer uma reflexão e propor um exercício baseado em uma pergunta que, nessa minha percepção, pode ter norteado o processo criativo do Saramago: “e se?”.

O primeiro livro saramaguiano que caiu em minhas mãos foi “Ensaio sobre a Cegueira”. Depois, li “Ensaio sobre a Lucidez”, “As Intermitências da Morte”, “O Homem Duplicado” e o “Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Ainda me faltam outros, mas olhando para esses, a primeira coisa que percebi e que admirei de imediato foi a capacidade do autor de pensar, elaborar e escrever sobre tantos aspectos particulares em ocorrências aleatórias e improváveis. Achei genial! Afinal, em vários momentos mais simples da vida a danada da pergunta nos confronta, e em muitos desses casos, nos paralisa.

Saramago não se deixava paralisar pelas suas inquietações e ainda ia além. Não bastava imaginar acontecimentos absurdos como “e se todo mundo ficasse cego?”, “e se ninguém mais morresse em um país?”, também era preciso descrever minuciosamente o cenário em que esses acontecimentos se passavam, o estranhamento imediato, os sentimentos das pessoas ao vivenciarem o absurdo, como elas se adaptavam e depois se acostumavam àquelas situações, e ainda, como reagiam e o que sentiam após essa recém-chegada “normalidade” ser novamente subvertida, entre outros fatores.

Foram essas perguntas e essas obras que me fizeram adquirir outra mania. Cada vez que tenho que tomar uma decisão importante, penso em todas as possibilidades, das mais idiotas as mais absurdas, que possam ocorrem como reação a essa minha escolha.

E se todo mundo votasse em branco?

Não quero revelar o conteúdo dos livros, mas essa é a pergunta que norteia o “Ensaio sobre a Lucidez”. Diferentemente de muitos amigos e conhecidos, nunca pensei nessa possibilidade como algo para ser levado a sério, por pior que se apresentem os candidatos. E já que estamos em ano eleitoral, inclusive em um dos mais absurdos de nossa história, penso que esse exercício do “e se?”, ao modo Saramago, possa nos ajudar.

E se, pelo medo descabido da “ameaça comunista” elegermos um candidato religioso e fundamentalista? E se, por comprarmos o discurso midiático anti-petista, elegermos um candidato totalitário? E se, por falta de memória, elegermos candidatxs oportunistas, que levantam a “bandeira do novo”, mas que representam, como ninguém, o passado? E se, por estarmos cansados, desiludidos e conformados com a nossa História, elegermos um verdadeiro representante da Casa Grande novamente?

E se ousarmos? E se tentarmos algo novo? Teremos a capacidade de imaginar o que aconteceria com esse grandioso e plural país, na plenitude de suas capacidades?

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Mayara Bergamo é fotógrafa e jornalista apaixonada pela cultura popular brasileira e pelo tripé literário formado por Gabriel García Márquez, Eduardo Galeano e Pablo Neruda.

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